Posse de Lula, que recebeu a Presidência do antecessor FHC - Foto Marcello Casal Jr./ABr
Posse de Lula, que recebeu a Presidência do antecessor FHC - Foto Marcello Casal Jr./ABr

O recém-lançado livro As Políticas da Política, da Editora Unesp, é um compilado de artigos de pesquisadores, boa parte deles da ciência política, que termina de uma forma sincera: o futuro do Brasil “ainda é uma questão em aberto”. É impossível prever, dizem os autores do capítulo final e organizadores da obra Marta Arretche, Eduardo Marques e Carlos Aurélio Pimenta de Faria, o alcance do projeto bolsonarista de desmontagem de direitos e de redução da proteção social. O recomendável desta leitura reside não na futurologia, mas na ampla análise dos projetos de poder do PSDB e do PT, ora ameaçados de serem extintos.

Vale destacar alguns dos artigos: Celia Lessa Kerstenetzky analisa a maior redução histórica da pobreza no Brasil, com evidente destaque para o efeito do aumento do salário mínimo real a partir do governo Lula, e conclui que “a Constituição não cabe no orçamento”. Sheila Cristina Tolentino Barbosa ressalta os esforços de FHC, Lula e Dilma em reorganizar a estrutura administrativa do Estado, o que deu mais capacidade de implementar políticas públicas.

Outro capítulo, escrito por Sandra Gomes, André Luís Nogueira e Flávia Costa Oliveira, mostra como a democracia é eficiente na melhoria dos investimentos em educação, fato que ficou notório em 2009, quando houve acréscimo dos gastos nessa pasta apesar do PIB negativo. Já Edney Cielici Dias mostra, resumida e didaticamente, as diferentes políticas de desenvolvimento ao longo de um século, centrando o arremate sobre os governos petistas. Para ele, embora tenha mantido a coalizão em prol dos juros altos e do câmbio valorizado, Lula e Dilma souberam adotar uma receita bem-sucedida de crescimento econômico com avanço social.

O pré-golpe

Os demais artigos buscam comparar as gestões tucanas e petistas, sem deixar de analisar o período pós-impeachment com Michel Temer, em áreas como trabalho, saúde, política externa, direito de minorias, questões indígenas e raciais e políticas urbanas. Uma das conclusões possíveis é a de que foi preciso haver um governo do PSDB para que o PT pudesse fazer o País avançar institucionalmente, ainda que preso a amarras do mercado. E que os erros e acertos que os dois partidos cometeram no tempo em que estiveram no poder deveriam levar a um projeto republicano mais democrático. Porém, em vez disso, provocaram reações adversas que despertaram uma insatisfação generalizada. E nisso nasceu a serpente.

As Políticas da Política. Organizado por Marta Arretche, Eduardo Marques e Carlos Aurélio Pimenta de Faria. Editora Unesp, 487 págs., 78 reais.

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