Em um mundo reinante do “Nós contra Eles”, é bom pensar que existam “Outros”. Porque essa perspectiva combate justamente a ideia de que exista um inimigo oculto, aquele que se deve aniquilar. Saber ouvir e reouvir falas que não apenas as nossas é uma necessidade dos tempos atuais. Eis um bom motivo para ver Outros, nova montagem do Grupo Galpão. Não espere uma peça fácil, de narrativa linear e texto fluido. O trabalho é complexo, sem personagens claros, em um conjunto de lenta deglutição. Mas tem o potencial de provocar profundas reflexões em cada um de nós.
A peça começa com a banda formada por oito dos nove atores convidando a plateia a ocupar seus assentos. As músicas, autorais, são alegres e agitadas. Servem para aquecer o público antes que os atores “escapem” pelo cenário e ganhem um grande tablado branco que delimita o espaço de atuação. O palco, com a coxia aberta, permite um grande exercício performático. As falas que seriam dos outros começam a surgir, grande parte delas repetidas à exaustão. Cenas são refeitas, porém em situações bem diversas, como na excelente performance de um funk com as mesmas falas que tinham acabado de serem apresentadas. A simplicidade inicial vai dando lugar ao caos, à desconstrução e ao cenário que acaba torto. Estamos no reino da impossibilidade da escuta, um auto-retrato da sociedade brasileira?
Os temas de Outros são universais e fundamentais para todos: o tempo, a dor, o amor, a ausência e o silêncio. Mas, afinal, quem seriam os outros que dão sentido a essa história? Os atores foram às ruas de Belo Horizonte, levando a mesa de reunião ou apenas cadeiras, e se permitiram dividir seu tempo e histórias, ouvindo o que as pessoas tinham a dizer. Juntaram, então, as trajetórias do grupo e também as de cada ator. Formaram, assim, um caleidoscópio de falas desconexas, mas que se permitem reveladoras para quem estiver disposto a escutar. Esta é a segunda montagem do Galpão com o diretor Marcio Abreu (a outra é Nós, de 2017). –
* Publicado originalmente na edição 1040 da coluna Bravo, da CartaCapital
Outros. Com o Grupo Galpão. No Itaú Cultural, sexta-feira e sábado, às 20 horas; e domingo 8, às 19 horas. (Todos os ingressos serão reservados online. Caso tenha procura presencial no dia do evento, e a pessoa não tenha feito a reserva prévia, haverá fila de espera)

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