Baiano de Salvador, Lucas Santtana faz de seu oitavo trabalho, O Céu É Velho Há Muito Tempo, um disco-manifesto contra o estado de coisas no Brasil de 2019 e o nosso conformismo em relação a isso. Quase todas as canções autorais mandam recados diretos ao neofascismo instalado feito erva daninha nas entranhas do Brasil, e mesmo “Todo Se Transforma”, do uruguaio Jorge Drexler, em espanhol, adquire conotação engajada no cenário de levantes e repressões violentas que se esparrama pela América Latina.

Em tom místico, a faixa de abertura, “Portal de Ativação”, clama para “que a sabedoria se transforme em ação correta” e provoca-pergunta: “Quem aí quer falar levanta a mão/ quem aí quer estudar levanta a mão/ quem quer se manifestar levanta então/ quem aí quer entender?”.

“Ninguém Solta a Mão de Ninguém” transforma em canção o mote nascido da eleição de Jair Bolsonaro, entre os dissidentes e resistentes: “Quando a fera fere e mata alguém/ só porque difere de gênero/ tem algo enrustido/ quando discrimina a pele de alguém/ e não preza a mina de onde cê vem/ faz um ebó pra ele, um ebó pra ele/ ninguém solta a mão de ninguém/ olho no olho, gente por gente/ cuidar de cada um dentro de nós”.

Mais adiante, a balada “Não Vamos Nos Desgrudar Nunca Mais” dá tonalidade amorosa ao rizoma “ninguém solta a mão de ninguém”, alegorizado também na capa do CD que une indígenas, afro-brasileiro, trans e sem-terra numa figura unificadora. “Mesmo que seja um dia ruim/ que o atraso feche o cerco/ a nossa desobediência/ não come caruru azedo”, soma-se “O Melhor Há de Chegar”, também em sintonia com a alegoria da capa.

“Brasil Patriota” critica o Brasil surgido das manifestações verde-amarelas de anos recentes, que culminaram em golpe, fraude, dissolução e eleição do neofascismo: “Brasil patriota/ só na hora do gol/ Brasil patriota/ só na hora do show/ mas quando a lama avança/ a pátria não é tão gentil/ o Supremo rasga a Carta, a clava mata no covil”.

Na mesma direção vai “Um Professor Está Falando com Você”: “Justiça que mente, polícia que mata, igreja que achaca/ milícia protege, bandido é purista, ladrão é o artista/ a rede que cansa, a nuvem que pesa, a tela que cega/ um amigo é como tocar o que não se partiu/ não tenha medo/ estamos juntos de você/ um professor está falando com você/ tira essa arma da mão”. “Toda prisão é política e todo pobre é perigo“, acrescenta a canção de protesto.

Momento de ápice é “Meu Primeiro Amor”, cantado com a pernambucana Duda Beat, de recado límpido e cristalino, de um casal que troca Blur por Lula. Ele canta: “Nasci menina na cidade grande/ a maior da América do Sul/ comia hambúrguer, via filme gringo/ falava inglês e ouvia Blur/ um belo dia, já adolescente,/ no remelexo conheci forró/ e desde então meu coração saudade/ foi, foi, foi/ foi meu primeiro amor/ foi, foi, foi/ e até hoje eu danço esse calor”. Ela canta: “Nasci menino longe da cidade/ no semi-árido lá do sertão/ não tinha água, tampouco comida/ até que Lula veio e deu a mão/ um belo dia, já adolescente,/ no remelexo fui fazer forró/ e conheci uma galeguinha linda/ foi, foi, foi/ foi meu primeiro amor…”.

“O Bem Maior” é outra canção que manda recados pela via da política amorosa: “Que venha um amor/ e mexa/ com o mar/ que nem a lua deixa/ e que esse amor/ seja sempre/ independente/ pra não virar prisão”.

“Seu pai era bandido/ mas você apareceu”, canta a faixa de encerramento, “Seu Pai”, em parceria com Arto Lindsay: “Nunca é de uma vez/ nunca mais uma coisa só”. Sons de espaço sideral se misturam à letra misteriosa, fazendo ponte com o esoterismo à la “Os Alquimistas Estão Chegando” (de Jorge Ben) ou Tim Maia Racional da faixa de abertura.

Seja nas canções mais amorosas ou nas mais políticas, O Céu É Velho Há Muito Tempo é bordado de modo simples, em melodias melancólicas levadas ao violão. A tristeza se ergue por cima de uns temas e dos outros, no caso das canções engajadas retirando-lhes um naco da potência. É de compreender: estamos todos tristes, catatônicos. Lucas Santtana vem se alistar no exército dos que não acreditam que o artista é o ladrão das nossas melhores esperanças.

"O Céu É Velho Há Muito Tempo" (2019)

O Céu É Velho Há Muito TempoDe Lucas Santtana. Independente.

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