Rico Dalasam, rapper paulista de Taboão da Serra, assistiu ao Festival Lula Livre não do palco, mas da plateia, e expõe no texto abaixo suas impressões

Talvez só no meio da década que está por vir passaremos a ter um olhar lúcido sobre o que tem acontecido com a produção cultural nacional  especificamente neste tempo político que o Brasil está passando!! Teremos os porquês de a música não ser epicentro de inspiração, e de qual é a mecânica da censura e como ela volta a atuar décadas após os grandes apagamentos e  obscurantismos da ditadura militar.

Saberemos olhar para algumas lógicas se equacionarmos por que ícones do exílio não estão do lado da história que indica para a democracia decolonial mesmo tendo seus pretos de estimação ou por que uma representação popular gay nordestina é marionetada por mãos que simpatizam e votam em Bolsonaro. Por aqui tudo caminha no mais harmonioso oculto, esse é o cerne brasileiro de ontem e de agora.

Falo sobre a música não ser inspiradora neste momento como já foi em outros, e isso se dá por mecanismos deslavados que usam de códigos legítimos e subversivos, como rappers, drags, Nordeste, negritude, para se manter no comum comando genealógico elitista, enquanto se esvazia os códigos mais subversivos das ruas de todas as Américas, sobretudo esta aqui em que estamos. Só calcularemos isso tudo dentro de algum tempo, quando música e movimentos não encontrarem mais a velha química de mover o povo, sobretudo a classe trabalhadora. 

Nunca esteve tão próxima, e por que não dizer homogênea, a produção cultural que emancipa o povo da produção cultural comprometida em deter o povo. Sendo assim, não posso esperar e nem deixar minha vida e história serem pautadas por essa mecânica que opera aqui muito antes de minha avó. Se desbravo outras rotas agora me vejo mais brasileiro preto bicha da margem da maior cidade da América Latina do que antes! 

Onde dormem os escravos se desenham as folias. Onde passam as tradições populares passam também enxurradas de sangue negro. Embaixo dos porões está o centro da Terra, acima da minha cabeça estão as forças que me acompanham! Não serei eu o personagem atual da mesma trama de cinco gerações… Morra esse e viva o ingovernável eu!!

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