Assim falou Luiz Inácio Lula da Silva à multidão presente no Festival Lula Livre, na praça da República de São Paulo, no histórico e chuvoso domingo 2 de junho de 2019: “Nossos adversários querem mais armas e menos livros, menos música, menos dança, menos teatro e menos cinema. E nós insistimos em ler, escrever, cantar e dançar, insistimos em ir ao teatro e fazer cinema. Nada mais perigoso para nossos adversários que um povo que canta e é feliz. Que faz da arte e da cultura instrumentos de resistência. Vamos então à luta, sem medo de sermos felizes, com a certeza que o amor sempre vence”.

Colocando-se explicitamente como “preso político”, ele capitalizou a inédita tomada de posição da classe musical brasileira, pela voz emocionada e firme de seu neto Thiago, que leu a carta do presidente ao público e aos artistas que participaram das oito horas de festival (leia na íntegra ao final), emitida diretamente do cárcere, em Curitiba. No alto de um edifício do centro da cidade, pendia em pixação enigmática, em linguagem da quebrada, uma frase de ordem: “Curitiba: é nós por nós”.

A Praça da República na tarde de 2 de junho de 2019, por Ricardo Stuckert

A sensação que fica do Festival Lula Livre é de que o Brasil é mesmo um lugar especial. Em pleno Estado de exceção e um dia depois do fumacê espetacular da Marcha da Maconha, milhares de cidadãos comuns e dezenas (provavelmente centenas) de artistas se unem numa praça pública para apoiar e exigir liberdade a alguém que a Justiça oficial compreende criminoso. Todos juntos rompemos uma redoma de silêncio e gritamos: não, ele não é. O Estado de exceção assiste atarantado à corrosão por dentro de seu sangue venenoso.

É importante notar que, via de regra, foram as gerações mais novas da música brasileira que se ergueram para exigir a liberdade do mais importante preso político do planeta. Entre as exceções mais, digamos, veteranas estiveram presentes artistas na faixa dos 50 anos, como Zeca Baleiro, Thaíde, Otto, Chico César, os ainda quarentões Lirinha, Mombojó e Fernanda Takai (que tributou o Amapá natal e provocou o “Rei” omisso Roberto Carlos antes de cantar “Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos”: “Fica o recado pro ‘Rei’ também acordar”), o quase sessentão Arnaldo Antunes (um homem-oásis em meio a titãs e tribalistas isentões).

Fora da curva, poderíamos chamar de patrono do Lula Livre o veteraníssimo Odair José, que ressignificou para termos lulistas (obrigado pela sacada, Jô Hallack) a canção sobre prostituição “Vou Tirar Você Desse Lugar”: “Eu vou tirar você desse lugar/ eu vou levar você pra ficar comigo/ e não me interessa o que os outros vão pensar”. Não é possível dar as costas para quem sempre nos olhou de frente, alertou o honroso Odair, pedreiro das canções. É significativo lembrar que, da geração heroica da ditadura anterior, não foi nenhum monstro sagrado da elite MPB, mas sim o sempre marginalizado Odair quem participou do maior Lula Livre até agora. Quando a MPB vai criar seu próprio festival?

Fora essas exceções, a coletividade respirou juventude e ternura, muitas vezes citando temas heroicos de gênios mortos ou calados da nossa formidável tradição musical e poética. Everson Pessoa homenageou a dilmista, lulista e brizolista Beth Carvalho, com “Vou Festejar”. Chico Chico (filho de Cássia Eller) e Duda Brack cantaram “Sujeito de Sorte”, de Belchior: “Ano passado eu morri/ mas este ano eu não morro”. Filipe Catto (“Brasil”) e André Frateschi (“Ideologia”) evocaram Cazuza. Com Marcia Castro, Catto recobrou a Rita Lee mais progressista, com “Pagu”: “Mexo, remexo na inquisição/ só quem já morreu na fogueira/ sabe o que é ser carvão”. Juno, do Cariri, puxou o pé do “rei” Luiz Gonzaga, com “Baião”. Zeca Baleiro evocou Raul Seixas em “Quem Não Tem Colírio Usa Óculos Escuros”. Otto chamou o xamã Chico Science em “Da Lama ao Caos” (além de ressignificar que “se Lula não vai ao papa/ é o papa que vai a Lula”).

Caso vivos, seriam Lula Livre nossos deuses astronautas? Elis Regina, Gonzaguinha, Itamar Assumpção, Tim Maia? Roberto Carlos? Ai, ai, meu Deus, o que foi que aconteceu com a música popular brasileira?

Na grave ausência de heróis épicos, a juventude musical brasileira fez a gentileza de nos dizer que não estamos tão sozinhos quanto pensávamos. As oito horas de shows renderam momentos históricos, em termos não só políticos, como de alta excelência musical, que imperou de alto a baixo na grade de programação. Dois diretores musicais – Michele Abu e Daniel Ganjaman – formaram duas big bands que produziram dois grandes blocos de pura harmonia musical e política (música É política, aleluia!).

No primeiro bloco, destacou-se a dupla nordestina Bia Ferreira e Doralice, momento mais radical e cheio de significados da tarde chuvosa: “A revolução será feminista!”. Dilma Rousseff, presente. No segundo, Preta Rara calou o Brasil ao lembrar que a esquerda brasileira É racista, que a maioria das empregadas domésticas brasileiras é formada por mulheres pretas, que os presos pretos são presos políticos também. Nem o discurso de Lula igualou Preta Rara em densidade.

O bloco dirigido por Ganjaman reuniu a nova elite musical paulistana, fortemente caracterizada pela negritude: Anelis Assumpção, Criolo, Emicida, Rael, Tulipa Ruiz. Nesse bloco, o pernambucano Otto foi único ao lembrar que não apenas Marielle Franco (“tão importante quanto Lula Livre é saber quem matou Marielle”, disse Chico Chico) e outros brasileiros negros foram assassinados pelo Estado de exceção: “Marisa, presente! Arthur, presente!”. A necessidade de que ninguém solte a mão de ninguém criou os encontros históricos Bahia-Pernambuco, com Russo Passapusso da BaianaSystem e Jorge du Peixe da Nação Zumbi, e Bahia-São Paulo, numa incendiária versão de “Duas Cidades” por Passapusso e Anelis (e participação especial do pequeno Bento, neto de Itamar Assumpção).

Outras muitas histórias de altivez foram contadas ao longo de oito horas. Faltaram sertanejos, travestis, tecnobregas e forrozeiros modernos, mas disseram presente a poesia de periferia, o slam das minas, o funk de esquerda e, pasme, o rock de esquerda. Os endiabrados Francisco, el Hombre e os hardcore Dead Fish demonstraram que nem só de lobões e rogers do ultraje é feito o combalido rock nacional. “Como é bom poder dizer isto: ele vai sair. Lula livre!”, berrou o vocalista do Dead Fish. “Entreguem todo Lula pro povo”, complementou pouco depois o manguebit Otto.

Cumpre dizer, ao final (e sob pedido de perdão pelas várias omissões), que nós, da parte público do Festival Lula Livre, devemos desta vez um desabafo de agradecimento a eles, da parte artista do espetáculo. Bolha rompida, finalmente sabemos que não estamos sós, e que a parte de nós que preza cultura, arte, conhecimento e educação está viva e é vigorosa, sabida e destemida. Obrigado, companheir@s. Lula Livre!

O Festival Lula Livre à noite, por Rodrigo Pilha

(Abaixo, a íntegra da carta de Lula aos festivos. Se cortarem um verso, nós faremos outros mil.)

“Agradeço de coração a cada uma e a cada um de vocês, artistas e público, que nesse 2 de junho fazem da praça da República a Praça da Democracia. Embora tenha o nome de Festival Lula Livre, sei que esse é muito mais que um ato de solidariedade a um preso político. O que vocês exigem é muito mais que a liberdade do Lula. É a liberdade de um povo que não aceita mais ser prisioneiro do ódio, da ganância e do obscurantismo.

Esse ato é na verdade um grito de liberdade que estava preso em nossas gargantas. Mais que um grito, um canto de liberdade. O canto dos trabalhadores que não aceitam mais o desemprego e a perda de seus direitos. O cantos dos estudantes, que não aceitam nenhum retrocesso na educação. O canto das mulheres, que não aceitam abrir mão de nenhuma conquista histórica. O canto da juventude, que não aceita que lhe roubem os sonhos, e da juventude negra em particular, que não aceita mais ser exterminada. O canto dos que ousam sonhar, e transformam sonhos em realidade.

Boa parte de vocês que aí estão, artistas e público, felizmente não viveram os horrores da ditadura civil e militar instalada em 1964, essa que alguns querem implantar de novo no Brasil. Foi um tempo em que a luta contra a censura podia ser traduzida em canções que diziam assim: ‘Você corta um verso, eu escrevo outro’.

Foi com muita luta que conseguimos acabar com a censura neste país. E não vamos aceitar essa outra forma de censura, que é a tentativa de acabar com as fontes de financiamento da arte e da cultura. Que não vamos aceitar a tentativa de censurar o pensamento crítico, estrangulando as universidades.

Se eles arrancam nossas faixas, nós escrevemos e botamos outras no lugar. E vamos continuar ocupando as ruas em defesa da educação, da saúde, públicas e de qualidade; das oportunidades para todas e todos; contra todas as formas de desigualdade e de retrocesso.

Nossos adversários querem mais armas e menos livros, menos música, menos dança, menos teatro e menos cinema. E nós insistimos em ler, escrever, cantar e dançar, insistimos em ir ao teatro e fazer cinema.

Nada mais perigoso para nossos adversários que um povo que canta e é feliz. Que faz da arte e da cultura instrumentos de resistência. Vamos então à luta, sem medo de sermos felizes, com a certeza que o amor sempre vence.

Um abraço, com muita saudade e a vontade imensa de estar aí,

Lula”

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