Solto pelas ruas do centro da cidade na tarde-e-noite do sábado de carnaval, o bloco Tarado ni Você disse e diz muito a respeito de São Paulo. E dos paulistas e paulistanos (nascidos ou adotivos). E do compositor-inspirador do cortejo, Caetano Veloso, um dos mais paulistanos dos baianos que existem.

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(A passagem do trio elétrico baiano-paulista disse e diz bastante também a respeito do paranaense que escreve este texto, vive em São Paulo desde 1991 e em 2000 lançou um livro ~todo errado~ sobre a tropicália: há poucos dias, num texto sobre o aniversário da capital paulista, eu resmungava que “um bloco só e 100% caetenizado parece pesadelo, mas é só a realidade ~hipster~“; ontem, fui ao bloco caetânico e voltei achando mor legal, mor astral, mor sensacional.)

Como o diário conservador reacionário golpista Folha de São Paulo sabe desde a era paleolítica, Caetano e a cidade que ele adotou durante o frêmito tropicalista de 1967-1968 têm TUDO a ver um com outro – na paz e na guerra, no ódio e no amor.

Uma ironia, um deboche, um azedume, um jeito de corpo que brota do fígado e de seus líquidos: Caetano inventou São Paulo ou foi São Paulo que inventou Caetano? “Odeeeeeeeeeio você”, proclamou o preclaro em “Odeio”, do álbum Cê (2006), integrante de trilogia loureediana que ~hipsters~ (não só) paulistanos amam amar. É contigo ou conosco que tu falas, mano Caetano?

Também em priscas eras, quando eu trabalhava na Folha e era malandramente cortejado por minha ídola Rita Lee, ela certa vez me disse, num e-mail, que jamais teve certeza se a citação de que foi vítima em “Sampa” (1978) era uma homenagem ou um esculacho do compadre. Afinal, se a ~deselegância discreta~ é marca distintiva das meninas de ~Sampa~ e Rita Lee é a ~mais completa tradução~ da cidade, não é preciso ser gênio tropicalista para concluir que a musa Rita seria, para o poeta, deselegantemente discreta, se não discretamente deselegante.

(Vai que esta é sua, dona Regina Boni.)

Eis aí, no chute com bota de pelica, a semelhança entre ~Sampa~ (por sinal, que apelido horrível, menina!) e Sanca, o São Caetano de Todos os Hipsters sacramentado no Tarado ni Você (nome-referência ao ~hit~ homônimo de Zii & Zie, de 2009, o segundo pedaço da trilogia loureediana SP-NY).

Eis aí porque, num sábado de carnaval de 2015, os pós-foliões paulistanos se ajustaram tão folgada e fogosamente ao figurino do (belíssimo) repertório carnavalesco de Caetano, que rendeu ápices como “Yes, Nós Temos Bananas” (1968), “Atrás do Trio Elétrico” (1969), “Deixa Sangrar” (lançado por Gal Costa em 1970), “Qual É, Baiana?” (1971), “O Bater do Tambor” (1978) ou as pós-axé music “Meia-Lua Inteira” (1989, composta por Carlinhos Brown) e “A Luz de Tieta” (1996).

Uma faísca triturou meu cérebro quando olhei para o alto no largo de São Bento e me deparei como o que me pareceu uma freira oriental, que observava, sem expressão identificável, o carnaval paUlestino caetanista a partir de uma sacada do catoliquíssimo Colégio de São Bento. Enquanto olhava perplecto para aquela Yoko Ono vaca profana de hábito branco, eu ia identificando, marchinha por sambinha, a presença marcante de símbolos católicos na obra desse cara.

Deus morto fêmea, língua gelada como nada, os pós-foliões cantavam o desencontro erótico do chorume “Queixa” (1982) (“ajoelha e não reza”, “não sou o único CULPAdo”), a reprimenda (i)moral do axé bethânico “Reconvexo” (1988, “não tenho escolha, careta, vou descartar/ quem não rezou a novena de Dona Canô“) ou a literalidade frevo-axé de “Deus e o Diabo” (1973).

“Você tenha ou não tenha medo/ nego, nega, o carnaval chegou/ (…) o carnaval é invenção do diabo/ que deus abençoou”, frevou o bloco – e não é que a vaca sacra da sacada Yoko quase fez um strip-tease daqueles de enrubescer o padre e a mulher do padre?

T’esconjuro, circuladô de fulô, ao deus ao demo dará!!,

Venha, veja, deixa, beija, seja o que Deus quiser!,

Pena de pavão (mysteriozo) de Krishna, maravilha, vixe Maria, mãe de Deus!, o catolicismo rebelde polvilhado de candomblé, ateísmo, misticismo, fanatismo e messianismo (perdão pelos ismos, Sanca) é tudo que nós-paulistas negamos-e-somos 24 horas por dia, desde a hora em que abrimos os olhos na cama até quando depositamos nosso voto no túmulo (do samba) do vampiro José Serra da Opus Dei do Geraldo Alckmim da Sabesp da Bolsa de NY da draga que vai secar a água dos nossos olhos molhados da chuva que ajuda a gente a se ver.

(O rio Anhangabaú e o Aquífero Guarani ficam logo ali, ali embaixo da não-avenida presidente Getúlio Vargas, mas daqui a gente não consegue ver.)

Bezerro sagrado, sim, mas vaca profana também (“careta, quem é você?”) – o Tarado ni Você canta com o fígado, só que é, sim, de sexo que estamos falando quando o assunto é carnaval, mesmo que estejamos (sem água) em São Paulo.

Resposta a Carlinhos Brown, a trans-fórmula “o namorado tem namorado” da parceria-namoro com Jorge Mautner (“O Namorado/ Urge Dracon”, 2002) passou do fígado e ecoou nos ouvidos e corações da juventude anglo-paulistana. É preciso que se assuma (ops!): à parte a presença livre, leve e solta de mulheres e heterossexuais, o Tarado ni Você é um bloco prioritariamente masculino e gay.

É uma São Paulo que se encontra em São Paulo num Caetano que se encontra em Caetano. Que o digam os símbolos (homo)sexuais também pululantes na obra do artista (e, alguns deles, no asfalto do bloco), como o “não saia do meu lado, segure o meu pierrô molhado” de “Chuva, Suor e Cerveja (Rain, Sweat and Beer)” (1971), o travestismo de “Eu Sou a Filha da Chiquita Bacana” (1975) e “Três Travestis” (1982), os choques gays de “Eclipse Oculto” (1983) e da já citada “Queixa”, que “ajoelha e não reza” e desfolha a bandeira no arco teso da promessa d”essa coisa que mete medo pela sua grandeza”.

Ainda que não cause agrado em sóror Yoko ou em São Geraldo d’Opus Dei, o cinema transcendental do bloco Tarado abre o zíper de uma mudança de comportamento que, de alguns carnavais (verões, invernos, passeatas, protestos etc.) para cá, vem transformando de modo estrondoso a cidade de São Paulo. Da cultura de dark room do clube Massivo nos anos 1990 aos (muitos) homens barbudos se beijando na boca à luz do dia no Tarado ni Você, algum tabu se rompeu, algo se quebrou, um aro, um elo.

O fio condutor é longo e dá razão ao que Rodrigo Savazoni defende em seu livro Os Novos Bárbaros – A Aventura Política do Fora do Eixo (2014): a tropicália de Caetano e Gilberto Gil e Rita Lee e Gal Costa Tom Zé e Arnaldo Baptista etc. refloresce cultural-politicamente (de 2002 para cá, diria eu, se é que Savazoni já não disse) em São Paulo, num formidável balaio de muitos e diversos gatos:

Fora do Eixo (do Mato Grosso para São Paulo, porque o BraSil caipira não é só litoral),

black blocs,

Movimento Passe Livre,

movimentos de moradia,

CrioloEmicida, “Não Existe Amor em SP” (2011) e “Crisântemo” (2013),

funk-ostentação,

#ExisteAmorEmSP,

Fernando Haddad Alexandre Padilha,

ciclovias e ciclofaixas,

o Ministério da Cultura de Gilberto Gil-Juca Ferreira e a Secretaria Municipal de Cultura de Juca Ferreira-Nabil Bonduki,

o Parque Augusta,

e, em pleno carnaval, a ocupação maciça das ruas que jamais aconteceria sob os auspícios de Tucanistão e se materializa, Anos Barbudos, no gigantesco cortejo (não apenas) feminino e negro do bloco Ilu Obá de Min (foto abaixo) e no cortejo (não só) masculino e branco do Tarado ni Você.

ilu-oba

Os pós-foliões pré-carnavalescos da cidade sem amor que Criolo acordou estão nas ruas, gourmetizados e caetanizados, para atirar na cara da sociedade careta (#ImpítimanÉMeuZovo) que, se Caetano Veloso é o mais paulista dos baianos, também a praça pública pode ser o lugar onde São Paulo é mais baiana, pernambucana, matogrossense, brasileiramente universal, universalmente braSileira.

É da queda radical de tabus e preconceitos que estamos falando e continuaremos a falar nos próximos muitos anos. É questão de tempo para reconhecermos que a Semana Modernista de (mil novecentos e) 22 há muito virou bisavó e um belíssimo quadro pendurado numa parede que não existe mais.

 

 

 

 

 

 

 

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