Um estande na Bienal do Livro de São Paulo, no espaço dedicado ao autor (chamado Travessas Literárias), custa R$ 4.150,00. É uma área de 4 m2 e pode ser usada pelo “inquilino” entre os dias 22 a 31 de Agosto, durante a feira. O valor, segundo me informou a organização, compõe área + montagem + taxas e pode ser pago até dia 11 de agosto.
É um investimento e tanto para um escritor, ainda mais para um independente.
Por isso, me chamou a atenção um pacotinho que recebi hoje vindo pelo correio, remetido do Bairro Altiplano, em João Pessoa, Paraíba.
Era do cordelista, cantor e violeiro Beto Brito.
Ele só conversa em verso metrificado. Me enviou o livro Bazófias de um Cantador Pai-D’Égua; o disco Correio da Noite e a caixa de cordéis A Métrica Perfeita, com 12 textos.
Num bilhete dentro do pacote, Beto me contou: “Sou o primeiro escritor independente da Paraíba a comprar um estande em uma feira desse porte e me aventurar sozinho em divulgar minhas obras, tanto literárias quanto musicais”.
Fiquei intrigado. Ouvi o disco, e Beto Brito tem voz idêntica à do Raul Seixas. Resolvi entrevistar o homem.
Eis o papo:

Quantos anos você tem e como começou a carreira de cantautor?
Na estrada do repente
Já estou pela metade
escrevendo e recitando
desde a minha mocidade
tô feliz, atrás da sorte
com cinquenta e dois de idade
Comecei nas feiras livres
do Nordeste Brasileiro
o meu pai vendia fumo
eu vendia fogareiro
mas de olho nas histórias
do Cordel aventureiro
Me mudei pra Paraíba
comecei minha carreira
pelos idos de noventa
descambando na ladeira
da Rabeca e da viola
pra cantar a vida inteira

Você diz que Bazófias é o Maior Cordel do Mundo. Mas eu achava que era A Pedra do Reino, de Ariano Suassuna…
O Romance de Ariano
pode até ser o Melhor
mas é prosa, simplesmente
meu Cordel fica Maior
se contar todas as rimas
o Romance é bem Menor

Um estande na bienal custa R$ 4 mil, segundo me informou a organização. Não é muito investimento para um autor independente? Quantos cordéis você precisaria vender para pagar esse investimento?
Do Cordel Universal
umas cem Caixinhas paga
vou levar também CDs
pra compor a minha saga
o meu lucro é um sorriso
igualzinho fez Gonzaga

Você vende cordéis de fato? Quantos já produziu?
Vendo Cordéis e Canções
vinte e quatro, estou levando
além do Maior do Mundo
três mil estrofes, contando
nos volumes Um e Dois
oito discos, vá somando

Sua música me lembra muito a de Alceu Valença. Tem também um pouco de Zé Ramalho. É isso ou você acha que tem mais influências?
Zé Ramalho foi meu guia
seus refrões, as minhas deixas
escutei Alceu demais
Caetano e suas gueixas
entre todas as vertentes
meu guru foi Raul Seixas
Apesar das influências
dos artistas brasileiros
Como Chico, Gil e Zé
alguns outros estrangeiros
minha obra é toda feita
no refrão dos violeiros!

Ouvindo melhor o disco, fica óbvio que eu estava enganado: não é Alceu Valença, é Raul Seixas a primeira imagem que vem à mente. Você já fez cover dele?
Ainda não tive o prazer
mas me cobram todo dia
o Projeto me cutuca
só me alta a ventania
pra subir pela cabeça
Raul Seixas na porfia..

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Jotabê Medeiros, paraibano de Sumé, é repórter de jornalismo cultural desde 1986 e escritor, autor de Belchior - Apenas um Rapaz Latino-Americano (Todavia, 2017), Raul Seixas - Não diga que a canção está perdida (Todavia, 2019) e Roberto Carlos - Por isso essa voz tamanha (Todavia, 2021)

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