Na semana passada, a empresa CareerCast divulgou uma lista das 10 profissões mais ameaçadas de desaparecimento. Carteiro, fazendeiro, leitores de relógio de luz e água, agente de viagens, comissário de bordo: essas são algumas das carreiras em risco iminente. Repórter de jornal está em 5º lugar na lista. Vi um debate sobre isso na Globo News. Um apresentador se apressou a dizer que estava tentando rapidamente “se familiarizar com o novo jornalismo digital”. Foi muito engraçado, uma espécie de stand up comedy em ritmo de jornalismo. Acho esse debate sempre muito engraçado. Pensando sobre isso, achei que seria um tema bacana para uma crônica farsesca. O resultado é o que você lerá adiante.



Encarou quatro cafezinhos em apenas 6 minutos, um padrão alemão de overdose jornalística. Mais perdido na redação que a zaga da seleção brasileira frente a Schürrle, Müller e Schweinsteiger. Andou para lá e para cá e não achou ninguém, nem um boy jogando Candy Crush. Dava para ouvir o ar-condicionado tossindo no teto, bem em cima da combalida mesa de fórmica do lendário repórter de polícia – que, por reverência do housekeeping, tinha ficado ali como uma relíquia dos tempos dos pacotes econômicos.

A foto de Hunter Thompson atirando numa máquina de escrever enfiada na neve, que ficara colada com durex na tela do seu computador por 18 anos, agora estava segura na sua carteira. 

Como não haveria chefia, abusara e tinha estacionado em vaga reservada a editores executivos. Ainda assim, tinha medo de aparecer um segurança com um monitor para lhe mostrar a imagem do delito e constrangê-lo frente aos seus pares. Mas que pares?
Não viu ninguém na editoria. Na verdade, na redação toda só tinha vindo o cara que atualizava os indicadores econômicos – vão continuar a fazer isso até o Juízo Final. 
Lembrou da música de Raul Seixas, adaptando-a na mente num mash up particular: “E o pauteiro não saiu pra trabalhar, pois sabia que o repórter também não estava lá”.
Do pauteiro então, nem fumaça. Esperou e nada. Após fuçar um pouco, achou um post it amarelo sobre seu desktop bojudo, com uma mensagem: “Faça uma varredura nos principais portais de internet e escolha sua última pauta. Se preferir, escreva um artigo. Nos vemos no sindicato. PS: Não esqueça o cartão do PIS”.

Só lhe faltava essa. Tinha uma dúzia de dossiês bem apurados sobre a mesa, porque faria algo assim? Varredura em portais? 
Old fashion “de raiz”, julgava um insulto usar reportagem de internet como “fonte”. Como costumava dizer, aquele era um tipo de jornalismo que “para agradar a todos, contempla 6 mil versões numa só reportagem e, portanto, não contempla nenhuma”.
“Não há assertivas nesse tipo de jornalismo, porque ele encerra o debate, ele se pretende neutro. Porra, neutro é sabão de coco! Por isso é que essas postagens são muito mais adequadas à cobertura de séries de TV e celebridades em férias do que à informação”, grunhiu, falando alto como um bravateiro de boteco – não havia ninguém para retrucar mesmo.

Rasgou o post it e pegou uma de suas pastas dossiês. Armou-se de um bloco de anotações usado e uma BIC azul. Esperou pelo elevador menos de 3 segundos. Parecia que o treco já o esperava. Encontrou apenas dois motoristas no Tráfego, um deles com a incumbência exclusiva de buscar quentinhas para os vigias da portaria. O outro dormia e ele teve de acordar o sujeito. Que o olhou espantado quando exibiu a guia de reportagem. “Mas vai publicar aonde?”.
Ainda assim, saíram.

A recepcionista sorriu quando se identificou na portaria do Instituto Médico Legal. Parecia pensar: “Ótimo, um repórter de jornal! Só falta depois dessa me aparecer um taxidermista!”.
O legista mastigava M&Ms com voracidade. 
O repórter: “Posso ver os corpos da noite passada?”.
O legista mascando: “E para quê?”.
“Intuição”.
“Olha, aqui não seguimos a intuição, o que manda é a decomposição. Não teve nada relevante. Nada desmembrado. Nada em série. Três a tiros, dois com facadas, um suicida que pulou do Viaduto Santa Ifigênia. O que o leva a vir até aqui nesse dia tão fraco de atividade da Indesejada das Gentes?”
Intuição? Devaneio? Solidariedade para com o ancestral hábito de Gil Gomes de fuçar necrotérios? Não tinha, na verdade, uma explicação.

Como que para acentuar sua confusão mental, nenhuma história emergiu daquele cenário eviscerado. No auge da amargura, agarrou-se à ideia de levar dali um souvenir, algo para lembrar o ofício no futuro. Só o suicida mantinha algo intacto na camisa esfacelada, um broche. Estava escrito lá: “Failure is the condiment that gives success its flavor” (O fracasso é o tempero que dá ao sucesso seu sabor). Pediu o treco e o legista, enfastiado, fez um sinal de “vá em frente”.
Colocou o broche na lapela e passou ainda pela Prefeitura e pelo Ministério Público. Angariou três piadas e dois olhares de reprovação de promotores e assessores.
O carro rodou pelo Largo do Paiçandu e embicou para os lados da Rota, na Tiradentes. Depois, finalmente deu a volta e regressou à base. O motorista o olhava pelo retrovisor, encafifado.

Ficou um tempo batucando no teclado, até que teve uma ideia (ou algo similar a isso): pegou a senha do antigo secretário de produção da redação, que estava anotada na parte de baixo do teclado da secretária dele (todos sabiam disso, era segredo muito devassado) e acessou o Centro de Documentação. Ninguém viera mesmo.
Com a autorização digital, abriu um antigo artigo traduzido de Gay Talese na Esquire, aquele que continha o seguinte trecho: “Frank Sinatra está resfriado. E Frank Sinatra resfriado é Picasso sem tinta, Ferrari sem combustível – só que pior”.
Tirou do registro o nome Gay Talese e assinou o seu. Riu feito um louco e tomou outro café.

Depois, ainda com a senha afanada, entrou no layout de uma antiga primeira página do jornal e extirpou dali o anúncio das Lojas Marisa que pagara seu salário e o de dezenas de colegas naquele ano distante. No lugar do anúncio, colocou uma imagem do Mussum caracterizado como Audrey Hepburn dizendo: “Bonequinhis de Luxis”.

Riu mais uma vez, dessa vez como um louco manso, e iniciou penosa caminhada em direção à saída, detendo-se de vez em quando para passar a mão carinhosamente no galão de água e no contêiner de lixo reciclável no corredor, como se acariciasse velhos amigos. Falso: nunca usara nem um nem outro.

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Jotabê Medeiros, paraibano de Sumé, é repórter de jornalismo cultural desde 1986 e escritor, autor de Belchior - Apenas um Rapaz Latino-Americano (Todavia, 2017), Raul Seixas - Não diga que a canção está perdida (Todavia, 2019) e Roberto Carlos - Por isso essa voz tamanha (Todavia, 2021)

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