foto: jotabê medeiros/estadão

NEW ORLEANS, ABRIL DE 2007

Mas T-Bone Burnett e Van Morrison foram o chantilly de um bolo muito saboroso. Muitos velhos ídolos do rock, de quem a gente não tinha notícia faz tempo, marcaram presença em algum dos 10 palcos do JazzFest de Nova Orleans. A mais inusitada presença foi a do compositor Bobby Charles, de 69 anos, o autor da famosa canção See You Later, Alligator, gravada por Bill Halley e Seus Cometas. 

Bom, mesmo compositor consagrado, Bobby Charles virou um esquisitão ali pelo meio dos anos 70. Em 1976, tinha feito sua ultima aparição pública com o grupo The Band, na turne Last Waltz. Virou um recluso crônico. No ano passado, ameaçou aparecer no JazzFest, mas deu cano na última hora. E dessa vez também não era garantido. Ele disse a um jornal local, horas antes do show: “Eu sonhei que estava no JazzFest e um cara apareceu manuseando uma pistola. Eu disse a ele: jogue isso fora antes que você machuque alguém. E então o cara atirou duas vezes na minha perna”, disse Charles, que estava considerando isso um sinal para evitar multidões.

       Outro que tinha evaporado era Richie Havens, de 66 anos. Ele, um dos símbolos do mítico festival de Woodstock, nos anos 60, ressurgiu no meio da tarde mais calorenta de domingo, vestindo uma bata azul, barba igual aquela do guru dos Beatles, o Maharishi, anéis gigantes nos dedos e com um único músico ao seu lado, outro violonista. Mandando bem nos blues e no folk, em canções como Planet Earth, com a voz límpida e poderosa, Richie parecia mais em forma do que nunca, dando uma leitura soul a cada uma das canções da jornada. Não parecia de verdade, era uma visão, um transe, uma coisa que embaralhava os sentidos naquela tarde de poeira & botas.

Mais adiante, parecendo um corretor de imóveis, Johnny Rivers voltava a enlouquecer uma plateia nostálgica com seus velhos hits, e fechava sua apresentação com a inabalável Secret Agent Man.


Trecho de reportagem que enviei de New Orleans em abril de 2007. Richard P. Havens morreu hoje de ataque cardíaco

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Jotabê Medeiros, paraibano de Sumé, é repórter de jornalismo cultural desde 1986 e escritor, autor de Belchior - Apenas um Rapaz Latino-Americano (Todavia, 2017), Raul Seixas - Não diga que a canção está perdida (Todavia, 2019) e Roberto Carlos - Por isso essa voz tamanha (Todavia, 2021)

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