Tem disco novo do Tom Zé na praça. Um meio álbum, já que o artista acaba de liberar cinco primeiras faixas de “Tribunal do Feicebuqui”. Não é genial, mas tem sua graça

“Tribunal do Feicebuqui”, lançado nesse 22 de abril de 2013 (513 anos depois do descobrimento do Brasil), é uma resposta do tropicalista Tom Zé à patrulha ideológica que sofreu um mês atrás por conta de sua participação em um comercial da Coca-Cola. Não uma “grosseira”, como fez questão de frisar no texto que acompanha o semi-disco liberado para download em seu site, mas uma resposta cheia de significados.
Tom Zé convidou um grupo de músicos paulistas (Emicida, Filamônica de Pasargada, Tatá Aeroplano, O Terno e Trupe Chá de Boldo) para gravar o disco, com quem assina os arranjos. Considerou a eles e mais o produtor musical Daniel Maia como os padrinhos da obra. A paternidade do disco é de Marcus Preto, a quem também responde pela direção artística e que o baiano de Irará diz ser ainda o “detetive-chefe”. Preto é jornalista e curador da Virada Cultural paulistana.
O texto de “Tribunal do Feicebuqui” (que ele também chama de “Imprensa Cantada – 2ª edição, disco de 2003) traz algumas notícias importantes. A primeira é que o tropicalista baiano decidiu doar o cachê da polêmica propaganda da Coca-Cola para à Lítero Musical 25 de Dezembro, banda de música de sua terra natal. A segunda é que o disco inteiro deve estar pronto em julho ou agosto, indicando que bastam cinco ou seis meses para que um músico da categoria de Tom Zé produza uma nova produção artística. #ficadica para quem reclama de falta de criatividade.
Há quem vá dizer que o disco é genial, fruto de um artista indignado que usou de suas melhores armas para fazer a própria defesa. Outros vão desdenhar, dizendo que é mais do mesmo ou que nem se compara a outras obras de Tom Zé. “Tribunal do Feicebuqui” é um álbum feito com raiva, mas respondida com bom humor, ironia e deboche. Tom Zé vira mané, bundão, babão, americanizado, traidor, corrompido, mentiroso, enfim, um vendido, já na faixa título. E ele próprio dá sua sentença: “Que é que custava morrer de fome só pra fazer música?”
A canção “Taí” recebeu de Marcelo Segreto mais 2 estrofes, uma roupagem com pegada funk (se Roberto Carlos pode, por que Tom Zé não poderia?) e uma música que faz questão de reverenciar “Pra Você Gostar de Mim”, imortalizada na voz de Carmem Miranda: “Taí, eu fiz tudo p’rá você gostar de mim/ Ah! meu bem, não faz assim comigo não!” Trata-se de outra revelação do disco: 40 anos antes dessa contenda feicebuquiniana o músico já havia composto essa canção para a propaganda de um guaraná da Cola-Cola. Na época, não havia internet.
Com lenço e com documento, o baiano de Irará recorre, musicalmente falando, ao seu conterrâneo Caetano Veloso, fazendo uma remissão a “Alegria, Alegria”, porém agora com sinal invertido. Caetano dizia: “Eu tomo uma coca-cola/ Ela pensa em casamento/ E uma canção me consola/ Eu vou…” Já a canção “Papa Francisco perdoa Tom Zé” diz: “Sou a garotinha ex-tropicalista/ Agora militando em um movimento/ Já não penso mais em casamento/ Mas se tomo Coca-Cola acho que estou me vendendo” E, claro, ao final o papa argentino só pode perdoar o mané, bundão etc e tal “no Feicebuqui da Sé” porque acabaram de inventar um novo tipo de pecado, o imperialismo pagão.
Tom Zé afirma que respeita e agradece “a opinião de todos os feicebuqueiros”, e que ouviu igualmente tanto quem o criticou como quem o defendeu. As primeiras cinco faixas só dizem respeito ao primeiro grupo, o dos patrulheiros do personagem. Um pouco difícil de acreditar que o recado do álbum completo agrade aos seus defensores e fãs. Não importa, o músico prefere não entrar em bola dividida. Ou como diz em sua segunda faixa: “Aqui copa coca acolá/ Fazendo propaganda do Tom Zé/ Zé a zero fim de jogo.”
Mas fica a pergunta: será que, desta vez, Quanto Mais Tom Zé Melhor?

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