Você deve se lembrar de um programa que a Globo passava em tempos pré-históricos, chamado Zorra Total. Era uma atração dita humorística, e ia ao ar aos sábados à noite, quando só havia em casa pessoas sem programa (extratelevisivo) para aquela noite (ou seja, um monte de gente). Os “humoristas” de programa, desde os mais inexperientes até o monstro artístico (e musical) Chico Anysio, passavam o tempo todo zoando loiras burras, gays afetados, maricas, pobres, pretos e outras minorias. Lembra? A gente assistia, desligava a TV e ia dormir. Entubava os preconceitos, fingia que o mundo era assim porque era assim.

No outro dia tudo estava do mesmo tamanho no mundo lá fora.

Hoje os tempos são outros, todo mundo sabe. A diversão semanal foi deslocada para outro canal (Bandeirantes) e outro dia da semana (a árdua segunda-feira, também à noite). Chama-se CQC, abreviatura de Custe o Que Custar. O programa é franqueado de versões equivalentes produzidas em outros países (o CQC é uma multinacional). E não lembra em nada os tempos já mortos do “humor” preconceituoso do saudoso Zorra. É humor inteligente, ufa!, estamos salvos da barbárie das gracinhas peçonhentas do século XX.

CQC é diferente – e, er, edificante -, porque existe para zoar políticos, e não loiras burras, bichas loucas, sapatões, pretos, travestis, pobres, mães em fase de amamentação & outras minorias. Cai como luva para tempos que os redatores do Zorra chamariam, iracundos, de “politicamente corretos”, afinal políticos não são minorias maltratadas e merecem ser zoados, quem ousaria discordar dessa máxima universal?, quem na sociedade se disporia a defender tais tristonhos bodes expiatórios?

Entoemos, pois, em coro: Viva o CQC, viva o humor inteligente do século XXI!

Pois bem. CQC existe e vai bem, obrigado. Quer dizer, mais ou menos bem. Por alguma razão misteriosa, esse tipo “novo” de “humor”, mais “inteligente”, tem atraído a ira de cada vez mais (ex-)espectadores aqui na filial brasileira. Até defensores da classe política contra o desrespeito CQCista aparecem volta e meia. Ou apareciam, porque o CQC anda meio decadente como “humor” político.

Ultimamente, os rapazes que conduzem o programa têm se tornado especialistas em produzir discórdia e revolta de (ex-)espectadores mais turrões, e na maior parte das vezes não é por bulir, bullyingar, a política. Não, os motivos colaterais é que têm causado alvoroço nos pantanosos solos CQCistas.

Numa semana, os “piadistas” “inteligentes” caem na boca do sapo por darem voz ao mais homofóbico dos seres viventes em terras brasilis (é um político, mas isso vem menos ao caso que o combo homofobia-misoginia-racismo explícito exibidos pelo ditocujo, amplificados pela CQCista e remetidos dessa para este Brasilzão velho sem porteiras).

Noutra, o mais imaturo dos bebezões crescidos gera confusão por fazer troça do estupro, tal qual faria, espanto!, um Paulo Maluf retornado da tumba vizinha à do finado Zorra.

Na “polêmica” desta semana, descrita magistralmente no blog linkado acima (e de novo aqui), pela cearense-catarinense (acuma?, perguntaria Didi Mocó) Lola Aronovich, os rapazes vestiram a túnica do pudor mais castiço e desaprovaram, em coro, o ato essencialmente “subversivo”, “terrorista”, “imoral” e “antiestético” de uma mulher amamentar seu bebê em público, as tetas à mostra. (Os adjetivos acima não saíram das bocas dos rapazes, pois não causariam risadas “inteligentes”, quanto mais gargalhadas “burras”).

Uau, o CQC não era um programa “humorístico” “inteligente” dedicado a infernizar e desmoralizar políticos? O que foi que aconteceu com a música popular brasileira?

CQC nos faz bem. Por trás da roupagem moderninha-almofadinha de seus polichinelos, é o velho e bom (ou ruim?) Zorra Total redivivo: “piadas” “engraçadíssimas” sobre loiras burras, mulheres feias, gays, homens carecas, mulheres estupradas, vacas leiteiras (da espécie humana) etc. etc. etc. Repaginado, plasticado, botocado, ainda assim CQC é tão parecido com o Zorra quanto a Salomé do Chico Anysio de hoje se parece com a Salomé do Chico Anysio dos anos 80. A carcaça, pelo menos, é a mesma. E, obviamente, não é por isso que o CQC nos faz bem.

CQC nos faz bem porque é um programa que prega a contestação. Quer desmascarar políticos, desvendar os podres por trás e por baixo de seus ternos ajeitados, acabar com o descalabro nas contas públicas. Quer ridicularizar o bigode do José Sarney.  E, nesse meio tempo, quer fazer muita propaganda de Coca-Cola ou Pepsi ou Skol ou Itaú ou Bradesco ou quem chegar mais rápido e pagar mais bufunfa. (Há quem jure que os rapazes fazem tanta confusão exatamente com essa finalidade: faturar mais audiência e tudo que vem atrás dela. Como nos tempos da Zorra.)

Mas por que CQC nos faz bem, mesmo sendo tão ruim? Nos faz bem porque, exigindo tanta “moralidade”, “retidão”, “decência” (a bênção, TFP, pelo uso das três palavrinhas), convoca seu público a exigir o mesmo, dos políticos (e demais ninguém, por favor, senão periga o coreto bagunçar).

E não é qur seu público, tão inteligente como o CQC e bem mais exigente que o público da velha Salomé, aprende a lição de casa das noites de segunda-feira e passa a exigir do… CQC?! O fenômeno é tal que há gente que nunca assistiu Zorra, não assiste CQC, jura que os rapazes só fazem isso tudo para ganhar dinheiro e… mergulha gostosamente na “polêmica” mais bonita (ou melhor, feia) da semana.

Eis aí o que nos faz bem no CQC. A política, bem tão precioso há tanto tempo para o principal apresentador do programa, rapidamente cedeu lugar, nos “trending topics” CQCistas, às monstruosidades sobre com-por-ta-men-to e so-ci-e-da-de proferidas semanalmente por seus apresentadores, em conversas “informais” assim como se fossem de mesa de bar – mas testemunhadas por aqueles mesmos para os quais eles, pastores pregadores “humoristas”, exigem i.n.d.i.g.n.a.ç.ã.o e m.o.r.a.l.i.d.a.d.e peremptórias.

O Zorra Total ainda existe, bem sabe você. Continua fazendo rir e dormir, todo “santo” sábado. Seu filhote botocado, idem, mas esse chafurda no desconforto que ele próprio adoraria causar (nos outros). O desconforto é a mola propulsora de tudo que cai na vala comum das “polêmicas” CQCistas – o desconforto “deles”, que em seguida é transferido para “nós”. Nós somos eles.

Na caixa de comentários da Lola, um (“macho”) confessou o desconforto pudico de ver uma mulher dando de mamar a quem tem fome – ora bolas, um seio afinal é “instrumento” de prazer ou de alimentação?). Outro (“macho”) chegou ao píncaro de defender prisão por atentado ao pudor à quem (“fêmea”) amamentar à luz do dia – “instrumento” de prazer, indubitavelmente, e o que aquele moleque recém-nascido está fazendo dependurado naquela “indecente” zona erógena feminina? Uns & outros (“machos”, até “fêmeas”) compararam amamentação pública e masturbação pública, valei-nos, dr. Sigmund Freud!, o complexo de Édipo está gritando cá na Terra! Outros vários (“machos”), inclusive no CQC, solicitaram que mulheres fossem amamentar em banheiros, junto a cocôs, xixis, espermas, escamas de pele & outros dejetos humanos.

CQC trouxe à tona, em suma, o pudor “macho”, um camundongo que teima em não sair da toca-armário nem nos dias mais quentes (o pudor “fêmeo” já é mais conhecido das donas Pombinhas e senhoras de Santana em geral; mas não venham dizer que não há mulheres embaraçadas pela visão da amamentação). Olha só o bem que CQC nos faz. Pensa que é fácil manter o ar durão dia e noite, 365 dias por ano? Não é, os meninos de programa de segunda-feira que o digam.

Enfim, CQC acende debates que são importantíssimos para a nação, do choque da homofobia e.l.e.i.t.a pela p.o.p.u.l.a.ç.ã.o ao duelo do direito à amamentação versus o complexo de Édipo, do corpo livre versus a misoginia. Alguém já imaginou esse debate de pernas e sovacos cabeludos eclodir à luz do dia em arenas públicas (virtuais, e dali para as praças) do Brasil? Alguém já imaginou o Zorra Total provocando tais rinhas de galos & galinhas? CQC nos faz esse bem, fazendo chorar em vez de fazer rir.

Alguém duvida que debates sobre o direito feminino ao cabelo naturalmente grisalho e ao sovaco peludo (opa!, esses ainda não começaram) permaneceriam dormindo um sono milenar se não existissem segundas-feiras, CQCs, internets, redes sociais e Lolas? Hoje, a gente que (não) assiste CQC na segunda-feira à noite amanhece a terça-feira querendo discutir, debater, protestar, exigir – ora, foram eles mesmos que pediram, não se pode dizer que o público brasileiro não seja obediente.

Obrigado pelo bem que nos fazem, srs. CQCs, mas a vida não será fácil para vocês daqui por diante.

 

P.S. 1: Obrigado ao @neyhugo, por pilhar este texto.

P.S. 2: Segue à esquerda mais um radinho de pilha, uma seleção de doze músicas para amamentar:

1. Carmen Miranda, “Mamãe, Eu Quero Mamar (I Want My Mama)” (1940) – Carmen queria mamar, mas não estava para brincadeira: “Eu tenho uma irmã que é fenomenal. Ela é da bossa e o marido é um boçal”.

2. Angela Maria e João Dias, “Mamãe” (1956) – Angela e João mandam a real sobre o que é ser mãe (sob concepção misógina): “Ela é a rainha do lar/ (….) eu te lembro, o chinelo na mão,/ o avental todo sujo de ovo…”.

3. Bob Nelson, “Eu Tiro o Leite” (1949) – O caubói Bob Nelson ensina o jeito “certo” de obter leite, sem causar constrangimentos a mamães ou a papais: tirando da teta da vaca.

4. Rita Lee & Tutti Frutti, “Com a Boca no Mundo (Tico-Tico)” (1976) – Rita Lee faz como o tico-tico (no fubá) quando quer mamar: bota a boca no mundo.

5. Erasmo Carlos, “Sou Feliz com Mamãe” (1966) – Édipo à solta na jovem guarda: mamãe é para namorar, não para amamentar.

6. Wilson Simonal, “Mamãe Passou Açúcar em Mim” (1966) – O leite já vem adoçado da teta, no modo de ver debochado da pilantragem.

7. Tom Zé, “Mamar no Mundo” (1984) – Tom Zé e o modo tropicalista de mamar: no mundo.

8. Nara Leão, “Mamãe Coragem” (1968) – No disco-manifesto da tropicália foi Gal Costa quem gravou; esta é a mansa versão de Nara para a brechtiana ruptura mãe-filho imaginada por Caetano Veloso e Torquato Neto.

9. Zeca Baleiro e Chico César, “Mamãe Oxum” (1997) – Nem toda mãe é santa: mamãe Oxum se diverte na cachoeira do candomblé.

10. Itamar Assumpção & Orquídeas do Brasil, “Tua Boca” (1994) – Depois que cresce, o menino quer desfrutar da boca feminina para outros prazeres…

11. Tetine, “Betty Faria (Eu Tô Aberta)” (2005) – Eis o que mamãe tem a dizer, quando pode ela mesma botar a boca no mundo.

12. Gal Costa, “Vaca Profana” (2002) – Sim, “dona das divinas tetas, derrama o leite bom na minha cara, E O LEITE MAU NA CARA DOS CARETAS” [Valeu pela lembrança, Marcos Faria!]

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