Financeiramente-Pobre.pngNa capa do álbum Financeiramente Pobre (2003), o rapper Slim Rimografia aparece de pé dentro de um ônibus. A divertida faixa de abertura compila conversas e ruídos típicos que se ouvem dentro de um busão. Por fim, o artista em pessoa assume o discurso, proferido em entonação decorada, bem conhecida de todo mundo que viaja de transporte coletivo:

“Boa tarde, senhores passageiros, desculpem atrapalhar a viagem de vocês. Eu sou mais um músico da cena do hip-hop undereground brasileiro e venho lhe trazer o meu primeiro trabalho solo, chamadoSlim Rimografia, o Homem-Improviso em Financeiramente Pobre, um CD com 16 faixas, onde você encontra o mais puro hip-hop real, os cinco elementos. Eu não tenho gravadora, não tenho empresário e não tenho patrocinadores, mas eu prefiro estar aqui, vendendo o meu CD de mão em mão, do que estar em alguma grande gravadora, sendo explorado, fazendo músicas sem nenhum conteúdo e sem qualidade alguma. Um CD sai a R$ 10, eu faço três CDs por 25. Aceito passe de ônibus, metrô, trem e ticket-restaurante. Agradeço a atenção de todos, tenham uma boa viagem e que Deus abençoe”.

Os passageiros caçoam do vendedor: “Olha, eu não sei não, viu, com essa voz, imagine cantando, deve ser o fim”. O disco começa, com um rap funkeado, sacudido, discotequeado chamado “Compre Meu Disco”. “Minha mãe me achava um vagabudo e dizia ‘trabalhe, trabalhe!’”, canta o vendedor de arte, ressaltando a opção de “traficar” rimas em vez de cocaína. A indústria musical não deixa de nos intoxicar, ele sabe e nós sabemos.

O decorrer de Financeiramente Pobre revela um rapper de fala acelerada, preocupado com poesia e especializado no freestyle – a improvisação do hip-hop, tributária da matriz norte-americana, mas também de toda uma tradição de repentistas, cordelistas e artistas populares brasileiros. “Não sou manequim nem modelo/ me preocupo mais com a minha rima que com meu visual, cara de mau, pose ou cabelo/ (…) não adianta colocar silicone/ sou viril/ meu hip-hop é made in Brazil/ venho das ruas e não dos valores do programa do Raul Gil”, diz “Ensaio”. Logo mais vem o rap “Falido”, explícito: “Eu tô falido, eu tô fodido e mal pago/ eu faço rap e não ganho nenhum tostão furado”.

No excelente Introspectivo… (Amor, Vida e Música) (2006), Slim volta mais irritado (“sem esquema tático pra fazer meu disco vender/ o álbum tá aí, se vai querer comprar ou não, foda-se”, exclama “MC“) e (auto)crítico em relação à “Gozolândia” do hip-hop. E traz suas reflexões a outros patamares, ainda hoje valiosos para compreendermos tanto as manifestações por tarifa zero do ano passado quanto os atuais rolezinhos, inspirados pelo funk-ostentação e movidos por uma nova e peculiar geração de jovens periféricos.

Diz “Novos Tempos“, um rap-soul que se vale do texto da Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU e se coloca literalmente contra a ostentação e o consumismo: “Em meio ao barulho de carros, motores e celulares/ em todos lugares na grande selva de edifícios é quase impossível ouvir o pulsar/ do coração do ser humano que hoje vive sem caminho nem direção, escravo do seu ego/ e da sua própria vaidade e confunde necessidade com ostentação/ pois o que ontem era suficiente hoje é pouco demais”.

“Quem foi que disse que o amor existe hoje em dia?”, perguntava Slim em “Novos Tempos”, cinco anos antes de seu colega Criolo seguir-lhe a pista e desorientar seus conterrâneos (e fazer sucesso) com o provocativo rap-canção “Não Existe Amor em SP”.

Essa é pá Tocar no Rádio”, sonhava outra faixa em tempo de samba-rap-rock de Introspectivo…, que não tocou no rádio. Uma que dificilmente tocaria em rádio ou na TV era a afro-rap “Zumbi“: “Sabe quem Zumbi foi?/ aquele que lutou, morreu por você, foi/ (…) estar com o micro na mão é um compromisso e não brinco em serviço/ por isso honro quem um dia por mim/ derramou seu sangue antes mesmo de eu vim pra cá/ para que eu pudesse estar longe das correntes muita gente teve que derramar seu sangue/ (…) não vejo o rosto dele nos stands/ não vejo nos livros da estante/ não vejo em carros importantes/ então pare um instante/ e reflita comigo, por que não citam Zumbi como herói nos livros que oferecem para nos educar?/ apagaram a história, ensinaram a ignorar (…)”.

Em seguida, veio Mais Que Existir (2011), dividido por Slim com o parceiro Thiago Beats e aberto para experiências pop como as de “Epifania” (“morre mais gente na favela que em campo de concentração”), da hispânica “Hinovação” e do sampler de Vanusa em “Sai da Fossa“. Versos afiados despontam em faixas de prosódia rapper-periférica, daquelas que vão direto ao assunto, como o funk-rap-dance “Postura”: “Foco e disciplina é mais que jogar a mão pra cima/ é erguer sua cabeça e levantar sua auto-estima/ é diversão e conscientização/ não quero mãos que miram o céu se os olhos miram o chão/ eu sou a voz de quem por voz lutou/ eu sou os bisavós que por nós lutou/ eu sou os preto véio que batucava o tambor”.

Após tentativas otimistas como “Canto da Vitória“, em dupla com Emicida, o álbum termina com o desabafo “Me Sinto Só”: “Ao redor vários neguim amigo entre aspas/ é tanto brilho e holofote, a escuridão ainda é vasta/ frustração devasta, meu coração já grita basta/ sem dó/ paciência só quando há esperança de um futuro melhor/ me sinto só mesmo no caos da multidão”.

Os ligeiros comentários acima, referentes a trabalhos musicais lançados em 2003, 2006 e 2011, podem parecer extemporâneos para 2014. São tardios e movidos menos pelo talento e merecimento de Slim que pelo fato de ele ser, desde a terça-feira 14 de janeiro, um habitante do Big Brother Brasil. Sua presença no programa da Rede Globo atraiu apoios, mas também repreensões e críticas por parte de companheiros ligados ao hip-hop (e de penetras), muitos deles eternamente imersos na controvérsia sobre se o movimento tem ou não o direito de se “vender” para o “sistema”.

Slim, representante solitário das peles brasileiras não-brancas na 14a edição do “reality” show global, foi o primeiro indicado pela primeira líder ao primeiro paredão, o que está longe de ser uma novidade na história do programa. Teremos de acompanhar, agora, se os “brothers” e as “sisters” de Slim se unirão para permitir sua permanência ou para criticar um suposto passo em falso do parceiro – ou se não se unirão, de maneira alguma, e entregarão mais uma vez o ouro aos “inimigos” que querem ver slims de várias gerações o mais longe possível da televisão, do aeroporto, do shopping, do rolezinho, de direitos quaisquer.

Talvez Slim Rimografia não dure mais que uma semana sob os olhos do Grande Irmão Moedor de Carne Humana. Talvez nem haja tempo para descobrirmos o que o autor de “Ensaio”, “Falido”, “Postura”, “Novos Tempos” e “Me Sinto Só” teria a dizer para a turma “guerreira” do BBB e para os que preferem o programa de calouros de Raul Gil ao hip-hop e à música independente brasileira.

Ainda que seja assim, sua passagem pela tela de Rede Globo terá sido exemplar. Nosso país jura acreditar que aqui não existe racismo, que ninguém aqui é racista. O Big Brother é exibido por uma rede de TV que tem entre seus principais mandachuvas o jornalista Ali Kamel, autor de um livro chamado Não Somos Racistas.

(Texto publicado originalmente no blog Ultrapop, do Yahoo! Brasil.)

9 COMENTÁRIOS

  1. O cara não quer vender sua arte para nenhuma gravadora, mas Ok vender a cara pra Globo… contraditório, não ?! Quer respeito parceiro, não é no BBB que vai conseguir !! É repulsivo achar ruim que ter pouco preto no BBB, não é pra ter nenhum !!

  2. Boa parte dos negros assistem a globo por motivos obvios.Falta concorrencia.Acredito que boa parte dos que acessam este site tenham tv paga,mas gostaria que tentassem analizar todos os canais da rede aberta,e chegariam a conclusão de que a globo é a que mais se esforça para apresentar uma programação de qualidade.O fato de haver apenas um negro na edição 14,não deixa de ser um reflexo da nossa sociedade.Se entrarmos em um banco,em uma redação de jornal,em uma loja,em qualquer local onde seja necessário implícitamente boa aparencia física ou escolaridade,não encontraremos negros.Não é só a globo que tem que mudar,é o pensamento da sociedade.Olhar a cor das pessoas
    em determinados locais e perceber a ausencia de negros é um bom começo para se questionar.Não nos esqueçamos de que a globo reflete a vontade da maioria.

    • Querida, a maioria dos brasileiros é negra e parda. Não se engane! A Globo dita como a maioria deve se comportar, mas não a ouve. O triste é que a maioria não sabe que é maioria, e acha que deve se manter no lugar que destinam a ela: as periferias e a margens dos brancos.

      • Eu acho que as pessoas no Brasil precisam primeiro estudar as características raciais dos brasileiros para depois elaborar programas de TV e políticas. Eu defendo a diversidade étnica, porque vejo que enquanto brasileiros somos diversos. Um exemplo, eu sou afrodescendente, eurodescendente, e indiodescendente. Por isso, não posso defender uma descendência em detrimento da outra, porque todas me completam geneticamente, apesar de que fisicamente algumas características são mais destacadas. Vale lembrar, no entanto, que defender a classificação nosso povo pode criar raças que não existiam, ou pior, um apartheid real. Neste sentido, em defesa da diversidade racial brasileira não acho justo e real com o povo brasileiro mostrar apenas características de uma raça. Obviamente, existe racismo em todo mundo, principalmente contra os negros, quem disser ao contrário, está equivocado. Mas não é só a Globo que está errada, pessoas que defendem a reafirmação do negro estão influenciadas pelo pensamento racial americano. Neste contexto, é preciso ficar claro que a quantidade de negros puros geneticamente similar ao africanos no Brasil é pouca comparada aos pardos multicores espalhados nesse Brasil. Oras, são eles que precisam ser representados. Slim é pardo e Pelé é negro. Essa é a diferença. Negros como o pelé são um minoria perto da quantidade de pardos e brancos no Brasil. Não confundam!

  3. E o que o Farofafá está fazendo dando audiência e visibilidade ao BBB? Vamos falar de outra coisa, tirar o foco do assunto… Sempre que vejo alguém metendo a boca no BBB faço a mesma observação. Eu nem sabia o que estava acontecendo por lá, vc me trouxe a notícia inútil e deu mais visibilidade a um programa que merece ser esquecido!
    Os programas que não atingem o Ibope esperado sai do ar, simples assim… mas já são 14 edições não é! A Globo não estaria mantendo um programa se o povão não aplaudisse. A mídia tem sua culpa? Até tem. Mas tá na hora do povo brasileiro refletir sobre suas atitudes e escolhas, ninguém mais quer BBB o programa de maior audiência em seu horário. Contraditório isso não?

  4. O pior é que, com certeza, grande parte desta audiência do BBB é formada por negros, que acabam aceitando a ideia de que é normal que eles sejam sub-representados na mídia. Nunca vi nenhuma estatística sobre o assunto, mas acredito que se analisarem a quantidade de atrizes principais das novelas da Globo, a proporção entre negras e brancas também deve ser parecida, ou até pior.

    Ultimamente tenho pensado sobre essa questão de músicas que tocam nas rádios. Embora não tenha conhecimento suficiente para saber como as rádios funcionam, é meio óbvio que existe muita politicagem e muito dinheiro correndo por trás, entre as emissoras e as grandes gravadoras. Quando eu era adolescente, todas as rádios jovens tocavam as mesmíssimas músicas, com um rol muito homogêneo. Não tem como esse tipo de coisa ser uma mera coincidência. Mesmo que as pessoas tenham preferência por este ou por aquele artista, são basicamente as gravadoras que escolhem o que é que vai fazer sucesso no próximo verão. E é uma coisa cíclica, porque o natural é que todos gostem justamente dos artistas que têm mais exposição na mídia.

  5. Assim que começou o BBB a 1a coisa que falei foi “Não colocaram nenhum NEGRO e nenhum Branco”

    Soh depois do 1o dia é que percebi que o tal SLIM era o representante negro da casa! Pois de bone e roupas largas pra mim ele é mais moreno do que negro propriamente dito, ou seja, escolheram um negro mais perto de moreno/branco o possível…

  6. Eu acho que as pessoas no Brasil, precisam primeiro estudar a pele dos brasileiros para depois elaborar programas de TV. Eu defendo a diversidade étnica, porque vejo que enquanto brasileiros somos diversos. Um exemplo, eu sou afrodescendente, eurodescendente, indiodescendente – Não posso defender uma em detrimento de outra, porque todas me completam biologicamente, apesar de que fisicamente algumas características negras são mais destacadas em mim. Neste sentido, não é justo e real com o povo brasileiro mostrar apenas uma etnia. Existe racismo em todo mundo, principalmente contra os negros, quem disser ao contrário, está equivocado. Mas não é só a Globo que está errada, pessoas que defendem a reafirmação do negro estão influenciadas pelo pensamento racial americano, a quantidade de negros etnicamente e geneticamente similar ao africanos no Brasil é pouquíssima comparada aos pardos multicores espalhados nesse Brasil: eles que precisam ser representados. Slim é pardo e Pelé é negro. Essa é a diferença. Negros como o pelé são um minoria perto da quantidade de pardos e brancos no Brasil.

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