“80% dos brasileiros, pelas pesquisas, consideram o governo Lula bom ou ótimo. Não é curiosíssimo que a mídia não faça outra coisa senão dizer que este é o pior governo do mundo? Então que valor tem a opinião pública? Que valor têm esses 80% de opinião pública? Nenhum. A mídia não tem nenhum respeito pela verdadeira opinião pública, que é a opinião dos cidadãos.” Assim falou a filósofa Marilena Chauí, num dos manifestos que tornou públicos – coerentemente, não pela mídia tradicional, mas por intermédio do anárquico e caótico YouTube.

Entre várias das falas dela, esta foi a que calou mais fundo dentro de mim – apesar de esse tema, a manipulação por parte dos controladores daquela que é a minha profissão (o jornalismo), frequentar obsessivamente meus pensamentos e sentimentos e reflexões nos últimos muitos anos (oito, no mínimo).

Calou fundo em mim porque o raciocínio que ela faz é muito, muito, muito simples. Essa fala de Marilena demonstra que a sanha sanguinária da “grande” mídia a que ela se refere contra Lula não é dirigida especificamente a Lula, a ao cidadão-presidente Lula. A espuma antilulista que baba da boca da “grande” mídia vem cuspida contra 80% dos brasileiros (me incluo entre eles). Dirige-se, em última instância, ao Brasil como um todo. É, pois, uma fúria suicida.

Exemplo quente e eloquente é o desenlace recente da relação entre Maria Rita Kehl e o “Estado de São Paulo”, logo depois de ela ter publicado naquele jornal o texto “Dois pesos…”. Lúcido, sóbrio e oposicionista (quero dizer oposicionista ao Partido da Imprensa, atualmente travestido de demotucanato), o
artigo deflagrou todo um processo freudiano no seio da “grande” imprensa paulista.

Não à toa, Maria Rita Kehl é psicanalista, e não jornalista – fez por nós, jornalistas, o que não tínhamos coragem e força, sozinhos, para fazer, intimidados que somos cotidianamente diante de nossos patrões. O processo psicanalítico (sim, o Brasil está deitado no divã, se é que ainda cabe essa imagem-clichê) é tão interessante que trouxe notoriedade merecida à formidável profissional que é Maria Rita. “O que tem de legal é que, por exemplo, este meu artigo foi mais lido que qualquer outra coisa que eu jamais tenha escrito. Se ele tivesse ficado apenas no ‘Estadão’, ele teria sido lido, mas jamais deste jeito. Isso é uma coisa muito legal”, afirmou ela em entrevista à minha querida (e dissidente) “CartaCapital”, num texto denominado “A campanha eleitoral assumiu um tom fascistóide, diz Maria Rita Kehl”.

O bonito nesse imbroglio todo é que o “Estadão” acabou por ser honesto, mesmo em querer, quando trouxe à tona, via desligamento da colunista, a ditadura que segue em vigência no interior da “grande” mídia brasileira em pleno 2010, nada menos que 25 anos após o término oficial do regime autoritário/repressivo civil/militar instalado no Brasil em 1964.

Não sou nenhum especialista em Freud, mas não seria esse vacilo do “Estadão” o famosíssimo expediente do “ato falho”, o mesmo que levou José Serra a cometer outro dia um “eu nunca disse que sou contra o aborto, porque eu sou favor “, quando queria dizer exatamente o oposto? O ato falho se aprofundou nos dias seguintes, porque a exposição maciça do artigo via internet levou o texto de Maria Rita (e do “Estadão”) ao conhecimento de gente que se considera “informada”, mas por outros expedientes jamais teria tido acesso às ideias (simplíssimas, assim como as de Marilena Chauí) nele contidas.

O caso expôs nu e cru, em síntese, o estrangulamento ditatorial e a falta dramática de liberdade em que se encontra todo e qualquer jornalista, de qualquer coloração ideológica, que se encontre hoje trabalhando no conglomerado para-oficial GloboVejaFolhaEstado.

Mas quem milita no “Estadão” sabe que o corte sumário de Maria Rita após a publicação (e repercussão) do artigo deu origem a uma avalanche de cancelamentos de assinaturas. E quem trabalha no “Estadão” sabe o clima de caça às bruxas que vigora lá dentro por esse caso, mas também além e independentemente dele.

Em 2006, por causa da chamada “crise do ‘mensalão'”, eu havia feito o mesmo com minha querida “Folha”, meu ninho de nascimento, desenvolvimento e ascensão como jornalista. Eu já havia saído da “Folha” para a “CartaCapital” em dezembro de 2004. Em 2006, cancelei minha assinatura após 16 anos de leitura e devoção consecutivas e ininterruptas – por muitos motivos, mas inclusive pela teimosia de não querer desembarcar, diante das primeiras adversidades, do presidente no qual eu havia votado, também ininterruptamente, desde 1989. Todo mundo sabe que o processo de cancelamento de assinaturas tem sido uma sangria constante, e maciça, desde pelo menos o malfadado “mensalão”. Quem trabalha na “Folha” hoje sabe o que é viver o constrangimento de se identificar como jornalista de lá e, não poucas vezes, ser xingado de “reacionário” ou “fascista”. Funcionários do antigo sonho dourado de todo jornalista hoje têm de conviver com a vergonha de trabalhar na “Folha”, coisa impensável até, pelo menos, os anos tucanos de FHC.

Quem trabalha na “Veja” vive os mesmos dissabores, de forma mais dramática e há muito mais tempo, a ponto de às vezes não ser possível dissociar a “Veja” (e sua editora, a Abril) de quem trabalha como jornalista lá dentro.

Sobre a(o) Globo nem me atrevo a lançar palpite, tão distante é a (ex-)”vênus platinada” do meu dia-a-dia. Mas Hildegard Angel (colunista social, ex-global, mas também irmã e filha de gente assassinada pela ditadura civil-militar) falou, dia desses, algo sobre funcionários da rede terem de assinar contrato com cláusula impedindo-os de se pronunciarem politicamente – não posso afirmar que é verdade, mas, supondo que seja, alguém conhece forma mais explícita de ditadura que a mordaça político-ideológica?

São, todos esses, casos exemplares de comportamento suicida. Tudo isso é suicídio. Ou, no mínimo (e aí não se espante nem se diga surpreso quem anda sangrando e perdendo assinantes por segundo), há aquela frase de Joseph Pulitzer (1847-1911), inúmeras vezes reproduzida no Twitter ultimamente: “Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma”.

Mas não entremos nesse mérito apavorante, prefiramos acreditar que essa grande tragédia se trata mais de suicídio que de mercenarismo. Se for assim, o que temos assistido no Brasil nestes anos 2000 é resultado do ódio dirigido pela “grande” mídia a si própria, espelhada em (no mínimo) 80% do Brasil, rebatida na figura-ícone de Lula.

Quero dizer com isso que a “grande” mídia deveria pular para dentro do barco de Lula, tornar-se adesista, jogar a toalha, ser submissa a Lula como a imprensa paulista é subserviente a José Serra e a imprensa mineira é capacha de Aécio Neves? Não (até porque, admito meio maquiavelicamente, esse ódio todo tem sido responsável por parcela interessante do desabrochar, do desenvolvimento e do bom desempenho de Lula – e de no mínimo 80% de nós, e do Brasil perante o Brasil e perante o mundo). Bastava não espumar ódio. Bastava criticar e combater (se era mesmo o caso de a “grande” mídia ser, em peso, partido de oposição, como chegou a defender publicamente a atual presidente da Associação Nacional de Jornais, Judith Brito, egressa da “Folha”) com comportamento racional, sóbrio, equilibrado, justo, coerente.

O ódio contra 80% do Brasil é um ódio suicida. Os poderosos-chefões que acreditam, esúupida e ignorantemente, combater a figura de Lula estão combatendo o país que pariu a eles próprios (ou seriam esses poderosos-chefões estrangeiros camuflados, ou agentes-laranja de estrangeiros clandestinos enciumados do Brasil, ou temerosos de perder os royalties bilionários do pré-sal?). Se são brasileiros, estão combatendo a eles mesmos. Suicídio.

Faço todo esse passeio para chegar a concluir o que calou fundo em mim na fala de Marilena Chauí, essa nobre filósofa não por acaso detestada apaixonadamente (ódio É amor?) por nove entre dez poderosos-chefões (misóginos, eu ouso acrescentar) da “grande” – e envelhecida – mídia.

Nós, brasileiros (e especialmente nós, jornalistas), não queremos a sua morte, senhora dona persona. Não queremos o seu fim, senhora “grande”, tradicional e cerimoniosa mídia. Há tempo hábil para que a senhora desperte desse sono narcotizado e entenda que não está lutando contra Lula e a candidata dele (nossa) – mas sim contra o país que pariu a senhora (ou devo excluir desse rol a poderosa-chefona Globo, fundada sob capital oculto da Time-Warner, sobre alicerces norte-americanos clandestinos?). Nós precisamos da senhora, senhora dona “grande” mídia, e não vemos a hora em que venha a merecer novamente o adjetivo, sem aspas, de Grande, quiçá nossas assinaturas de volta. Até daqui a pouco.

P.S.: Não é por mera coincidência que Marilena Chauí e Maria Rita Kehl são mulheres, assim como a candidata Dilma Rousseff. A “grande” mídia, apesar dessa denominação feminina travestida, tem sido exclusivamente do sexo masculino, do descobrimento do Brasil até o dia de hoje. Amanhã, ninguém sabe.

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