Os policiais começaram a chegar e Giudice fez alguns gestos. Não tinha mais expressão alguma em seu rosto. Os tiras começaram então a recuar, num arrastão coreografado, e me levaram com eles. Quando eu fiz menção de ficar, um policial com luvas de algodão me puxou forte, de um jeito que eu não poderia acusar de descortês, mas também ao qual não poderia resistir. Então eu saí.

Um minuto depois, escutei os tiros. Um, dois, três, quatro, cinco, seis. Os policiais então começaram a voltar ao local, e Giudice retornou pelo janelão vagarosamente. Lembra daqueles westerns antigos, quando o prefeito da cidade, o coveiro, o dono do banco, o dono do armazém e o xerife alcoólatra se reúnem sob uma árvore para justiçar um suspeito de ameaçar a ordem? Divergiam apenas no tipo de nó da forca? Tipo isso. Os tiras iniciaram uma operação silenciosa lá fora, e eu acompanhei o delegado de volta à viatura.

Vinte minutos mais tarde, já no trânsito, eu ainda não acreditava no que testemunhara. Não comentava nada, mas estava estarrecido. O delegado não me pediu para ficar de bico calado, não ameaçou, não disse nada. Sabia que não precisava, o pacto ali fôra feito à minha revelia. Teve uma hora que eu não aguentei.

– “Você o matou como a um cão!”, balbuciei, com a voz meio empastada, depois de regurgitar alguma coisa amarga que chegou até o céu da boca. Minha cabeça doía como se estivesse com uma crise infernal de sinusite, mas eu não tinha mais sinusite.

Ele não disse nada. Limitou-se a ajeitar um imã com uma imagem de Nossa Senhora Aparecida no painel do carro. Só depois de um silêncio eterno é que começou a falar.

– “Sabe qual a diferença entre matar um animal e matar uma pessoa?”, ele me perguntou. Eu fiquei quieto.

– “O animal não sabe que vai morrer. Ele não tem a agonia do medo da morte, porque não conhece a representação da morte. O porco não sabe para que serve aquela faca amolada e o boi morre desmaiado, depois de levar uma martelada na cabeça. Já o homem sofre com o medo da morte. Ele sabe que vai morrer e perde o sono, mija-se todo, tem ataques de úlcera. É por isso que eu, quando mato alguém, deixo o sujeito sofrer um pouco antes com a consciência da morte. Ele sofre e, se eu puder, faço com que sofra um pouco mais”.

– “Eu sou vegetariano, nunca vi matarem animal algum, quanto mais gente”, eu respondi, com os lábios trêmulos.

– “Você precisa ir a um matadouro. É boa didática”, ele disse. Eu notei que o delega estava fora de si, revelando ali um tipo de confusão mental que eu não tinha detectado até então. A morte de Praxedes, uma morte besta numa ação policial ordinária, o empurrou para algum tipo de quarto escuro da mente.

– “Você precisa ver matarem cavalos. Fui a um matadouro clandestino em Jundiaí, um dia desses. Doze horas antes do abate e os cavalos são privados de água e alimento. Dizem que isso amacia a carne. Depois, são conduzidos molhados a um corredor e tangidos com choques elétricos de mais de 200 volts. A seguir, levam uma pancada na cabeça, para tontear. Com o animal ainda vivo, as patas são cortadas com machado para esgotar todo o sangue. Daí o bicho é colocado em uma estufa para suar e com isso eliminar aquele cheiro de tapete molhado que tem o cheiro da carne de cavalo”.

Meu estômago estava embrulhado, e eu pedi para descer na esquina da São João com a Rua Aurora. Desci e rezei para que ele esquecesse de mim.

TRECHO DO LIVRO INÉDITO ‘A MORTE ENGARRAFADA’, UMA FICÇÃO RETRÔ QUE JÁ TEM 8 ANOS DE GAVETA, E ESTÁ MELHORANDO COM O ARMAZENAMENTO NO PINUS

ps: o título do capítulo, e deste post, foi tomado emprestado de jim morrison

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