E que tal falar(-ouvir) um pouquito sobre música brasileira nova? Ou vamos continuar discutindo(-escutando) parassempre chicoecaetano?

“CartaCapital” 572, de 18 de novembro de 2009.

Ouvir para Crer

Os novos autores populares seguem livres das tradições, mas ainda voam longe do grande público

POR PEDRO ALEXANDRE SANCHES

Edu Krieger. Lulina. Ronei Jorge e Os Ladrões de Bicicleta. Lucas Santtana. Desconhecidos da maior parte do público, esses são alguns dos nomes que levam a (boa) música brasileira adiante e têm feito de 2009 um ótimo ano em termos musicais. Em terra aplainada pela pulverização via internet e pelo esfarelamento das gravadoras multinacionais, esses e outros nomes partem de uma relação zerada com seu ofício, mas ainda voam longe do sucesso de massa.

O cenário é de grande transformação e de muitos intercâmbios. Exemplar dos cruzamentos operados na música brasileira atual é o compositor e cantor carioca Edu Krieger. Filho do compositor erudito catarinense Edino Krieger, ele preferiu enveredar pela combalida MPB a seguir o pai na música de concerto. Mira as correntes de MPB, bossa nova e samba, mas desafia seus dogmas em prol de despretensão, leveza musical, guitarras, sanfonas, programações eletrônicas, cuícas como instrumentos harmônicos.

“Misturar cavaquinho com guitarra ainda é visto com certa reserva. Ouço comentários do tipo ‘este samba é lindo, mas eu gostaria de ouvir com formação tradicional’”, conta. Sobre influências ainda predominantes, o artista diverge em parte de seus pares: “Não é preciso seguir necessariamente o que João Gilberto fez. Ele é genial, mas desde que surgiu revolucionando tudo apareceram tantas outras formas de tocar violão. Acho limitador seguir João só porque os outros vão achar o máximo”. Krieger acaba de editar seu segundo álbum, Correnteza (Biscoito Fino), onde pratica essa distensão de conceitos de modo discreto, avesso a confrontos diretos ou rupturas. A carreira individual segue escoltada pela adesão de cantoras como Maria Rita e Roberta Sá, que levam sua música a públicos amplos.

Mais radical na demolição da MPB como a conhecíamos é Lucas Santtana, ativo militante da cultura digital, cujo ímpeto provocador deve estar inscrito no código genético, pois é sobrinho de Tom Zé e filho do também baiano Roberto Sant’Ana, produtor musical ligado às origens do grupo tropicalista. Lançado em julho, seu Sem Nostalgia (ybmusic) tornou-se um dos discos de ponta de 2009, pelo trabalho de desconstruir (e reconstruir) a importância, a sombra e o peso do violão brasileiro, por intermédio de trechos instrumentais “sampleados” (de modo não raro imperceptível) de Dorival Caymmi, Baden Powell, Jorge Ben, Gilberto Gil, Tom Zé e Novos Baianos.

A banda Ronei Jorge e Os Ladrões de Bicicleta participa da vanguarda musical destes primeiros anos 2000, seja por injetar algum amor pela MPB no rock’n’roll, seja por praticar rock’n’roll em terra até há alguns anos colonizada quase exclusivamente pela axé music. “Comecei em 1994, época da explosão da música baiana, do axé. Aqui era meio deserto, a gente não tinha uma grande profissionalização, e a música de carnaval tomava a frente de tudo”, diz, de Salvador. “Até hoje é meio assim, mas diminuiu.”

No recém-lançado Frascos Comprimidos Compressas (Gira Independente), o grupo distende a relação tensa com a hoje enfraquecida axé music. A letra de Aquela Dança, por exemplo, dialoga com os ex “inimigos”, e Ronei comenta: “Alguns do rock torceram o nariz. Os mais jovens adoram, são muito mais abertos que nossa geração”. Como a ecoar o título farmacêutico do CD, o cantor e compositor recebe como opressora a alegria hegemônica do axé. “Se você não fizer parte, fica parecendo que é meio doente. E às vezes é uma alegria meio tensa, alguns artistas ficam meio dopados na alegria. Ninguém é assim sempre”, afirma.

Se ninguém é sempre alegre, tampouco deve ser triste sempre (como o rock independente costuma induzir). “Quando a tevê daqui faz reportagem sobre rock, é todo mundo de preto, morcego, tachinha. Não tem relação com a música pop. A gente tenta trazer um discurso de leveza e as bandas mais jovens são muito mais relax”, opina. “A relação entre o rock e o carnaval é de ódio e de amor. A gente odiava, mas todo mundo corria para ver Pepeu Gomes e Armandinho tocando guitarra. Hoje revisitamos Gerônimo, Luiz Caldas, Moraes Moreira. A gente está mais à vontade.” Ronei concorda que a distensão se relaciona à morte de Antonio Carlos Magalhães e ao declínio do carlismo na Bahia: “Se estivéssemos em período de Antonio Carlos, seria impensável a diversidade. Hoje se apresentam aqui a Mariana Aydar, o (coletivo experimental paulista) Instituto. Abriram-se editais, antes nem sabia o que era isso”.

Terra de frevo e maracatu, o vizinho Pernambuco não teve seu axé, mas viveu uma contrapartida ao comercialismo desenfreado baiano, na figura do cultuado, experimental e nem sempre muito comunicativo mangue bit. Se há distensão por esse outro lado, um de seus nomes é Lulina. Cantora e compositora imersa em anos de gravações caseiras (e do emprego principal em agências de publicidade), ela acaba de publicar um brilhante álbum de estreia, Cristalina (ybmusic), em que a doçura se faz matéria principal de dezoito canções pop daquelas de decorar as letras após a segunda audição e cantar junto.

Lulina explica como recebeu, ainda adolescente, o advento do mangue bit: “Fui só uma vez a um show do Chico Science, um dos últimos dele. Ele era vizinho da minha tia-avó, vi o carro batido, a relação era mais com a pessoinha que com a música. Eu era mais garota revoltadinha, na onda Nirvana, Sepultura, camiseta com caveira”. Mas nem Nirvana, nem mangue bit, nem o samba (que também diz admirar) deram cartas em seu som. Ela descreve sensação parecida à de Ronei Jorge na Bahia, quanto ao predomínio de um ou outro gênero musical: “Era difícil a banda que não tocasse regional ter espaço. Se você não faz regional com rabeca, ciranda ou mangue bit, não é Recife”.

O disco é composto de versões retrabalhadas de músicas que já havia gravado em CDs artesanais. “Só Meu Príncipe eu guardei para estrear no Cristalina”, conta. O tal príncipe foge a quaisquer padrões MPB (ou mesmo mangue bit), e é definido por ela como “o troco da Amélia”, a personagem submissa do samba de Ataulfo Alves. Meu príncipe (…) limpa o banheiro/ Eu trabalho o dia inteiro/ Ele lava a roupa suja/ E eu bebo, bebo, bebo, diz a letra, em característico estilo “lulinês”.

“Sempre fiquei com muita vergonha de mostrar minhas músicas. É muita metáfora com barata e minhoca, nem todo mundo está acostumado com isso”, descreve o próprio temor em se assumir artista pop. E explica: “Metáfora é uma forma de disfarçar sentimentos, de se esconder. Minhoca fala de morte. Barata é se sentir como um inseto que vai ser pisado”.

A crônica do dia-a-dia é o mote de Lulina, que diz transformar em doces canções suas tristezas, insônias (para livrar-se de uma, compôs Narcolepsia), gastrites e bolhas na pleura (Blebs fala de tal doença, que ela teve de fato). “Novalgina era meu remédio favorito da infância, docinho, sabor morango”, brinca, num apartamento cheio de números 13 espalhados, um “museu do extraterrestre” instalado no banheiro e uma bebida verde chamada Sangue de ET (que também virou música). “Estava ficando tão obcecada pelo 13 que comecei a ficar com raiva do 14, aí fiz um disco caseiro, Aceitação do 14”, diverte-se.

Lulina radicou-se em São Paulo há sete anos e sua música faz jus a uma habitual identificação musical entre pernambucanos e paulistas, à base de humor cáustico. Uma prova é Bosta Nova, humorada declaração de horror aos festejos de réveillon. “Eu até gosto de bossa nova, é que não conheço muito. Tenho várias homenagens à bossa, uma chama João Gilberto É Mariana.”

Pois São Paulo não sai ilesa de sua doçura e timidez. A deliciosa Balada do Paulista ousa cutucar a fera e emerge como uma retumbante gozação aos sotaques e gírias da terra adotiva. “Um menino do meu trabalho falou essa frase: ‘Puta, meu!, tipo, nossa, cara!, então, eu fui lá e…’ A frase mesmo só começava no ‘eu fui lá’. Eu pensei, nossa, isso é uma música”, conta a gênese do amontoado de gírias que pronuncia “putameutiponossacaraentão”, sem tentar despistar o próprio acento pernambucano.

Cada um a seu modo, o que esses artistas têm feito é tentar derrubar as ditaduras musicais. “O problema é a monocultura. Se estivesse numa cidade onde só houvesse rock, eu ia odiar o rock”, sintetiza Ronei Jorge. “Nos anos 1980, quem não era do rock no Brasil é que estava mal.”

O ponto frágil ainda por superar, para artistas como esses, situados das classes médias para cima, é o da comunicação com públicos mais amplos. “Posso marcar um show na quadra da Mangueira na hora que quiser. Mas não tenho vontade, porque minha impressão é a de que vou ser mal compreendido ali”, defende-se Krieger a princípio, diante da discussão sobre a muralha que nas últimas décadas separou a MPB da música popular produzida por funqueiros, sertanejos e tecnobregas.

Discorre sobre a contraposição entre os pais “loucos” dos anos 1960 e os filhos “certinhos”, temerosos de excessos. “Já reparou que as cantoras da minha geração surgem todas com vestidos compridos? Acredito que é pensado, é a preocupação de não chocar ninguém no País- que já foi e é significado de bunda, de É o Tchan.” E então ele depara com o próprio temor de se comunicar com mais espectadores: “Ao mesmo tempo que tenho medo de como meu trabalho vai ser recebido na periferia, Maria Rita me prova o contrário, com a visibilidade popular que me dá cantando minha música”.

Curioso é notar que a filha de Elis Regina, lembrada por ele, tem abarrotado casas de shows com um repertório de sambas cantados em coro pela plateia. Um deles se chama Corpitcho, que Maria Rita tem apresentado com minissaias comparáveis à da jovem aluna da Uniban. Parafraseando Paulinho da Viola, as transformações da MPB estão no mundo, só é preciso enxergá-las.

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