luiz prado/
AE

o skinhead ao meu lado e o outro skinhead, amigo dele, que está na outra poltrona do lado direito do ônibus, são cordiais e bons de conversa.
dizem que quase não existe mais banda boa para skinhead no brasil. mas algumas permanecem pegadoras, como a virus 27. fico calado porque não lembro mais dos nomes das bandas de skin. mas os dois querem ir ao ac/dc, e eu também quero.

viajamos 10 horas lado a lado num busão, eu e os dois skinheads, e eles parecem estar meio nostálgicos, acham que o “movimento” está morrendo, tem pouca gente digna do nome hoje em dia. “é forte na alemanha, na argentina, na suíça, mas está dividido no brasil”, conta um deles.

um dos meus companheiros de viagem tem 40 anos, é de aracaju, está há 24 anos no “movimento”. o braço dele parece mais grosso que o meu tórax, e noto que eles têm uns “travesseirinhos” musculares na nuca. o outro skin, o que está do meu lado, usa óculos e tem uma cara boa, cara de rapaz de boa família. tinham ido passar o feriado na casa de um colega.

– “os novos skinheads que você vê por aí, barbarizando, não passam de uns nóias trouxas. não têm ideologia. viu aqueles que jogaram dois moleques pela janela de um trem aqui em sp? uns estúpidos, não sabem de nada, só porque põem um coturno e raspam a cabeça pensam que são skin. e os jornalistas são sensacionalistas, precisam ter algo sangrento para mostrar, senão não tem notícia. veja aí a record e a band, é o tempo todo crime crime crime…”
não tenho como discordar dele.
– mas qual a diferença entre o que os jovens skinheads fazem hoje e o que vocês faziam quando tinham a idade deles?
– “a gente afirmava nosso nacionalismo. manifestava nossa insatisfação contra a política, os drogados, os homossexuais. essa coisa agora de pedofilia, por exemplo: para mim, todo pedófilo é homossexual, você não acha?”
– provavelmente há pedófilos que são homossexuais, mas não creio que todo homossexual seja pedófilo, não acredito nisso…

algumas coisas que ele diz me deixam sobressaltado e com náusea – que bicha e puta e drogado vagando pelo centro de sp à noite não podem ser gente boa, que merecem apanhar. que o pessoal do mst e os índios querem terra, e merecem terra. por cima deles. “índio bom é índio morto”.

ele faz uma pausa. conto que estive no “dezembro oi” de 1993, em ermelino matarazzo, como jornalista (foi quando o chapa luiz prado fez essa magnífica foto aí em cima).
ele revela que também esteve lá. eu cobria como jornalista, eles batizavam de porrada os jovens aspirantes a skin. “não é para quebrar costela, é só para confraternizar. é o batizado”. hoje em dia, me diz o viajante, os moleques nem passam mais pelo batismo oi, são uns fracotes.

o garoto lembra que o glauco matoso também esteve lá em ermelino, em 1993 (um outro skin, antes do embarque, contou meio sem graça que o glauco, pedólatra contumaz, chegou mesmo a fazer um molde do seu coturno com um lápis).
durante a viagem, skin e skin não perturbam ninguém, são só trabalhadores comuns em fim de feriadão. falam de problemas com o modelo do celular, de botas doc martens, da impermeabilização das marginais, da ineficiência da polícia argentina. mas sabemos, eu e eles, que sua fidelidade ao que chamam de “ideologia” e a minha fidelidade ao que chamo de “independência” nos coloca em trincheiras distintas.

a conversa foi didática, interessante para saber onde andam os skinheads. estão ativos, embora em grupos menores e pulverizados. glorificam a família e a amizade e estão preparados para qualquer treta. há alguma diversidade em seu grupo: uns fumam e bebem, outros só água e flexão.
relacionam-se em grupos menores (“antes, tinha 90 skin na minha turma, e hoje eu só tenho amizade com três, quatro. esses três, quatro, têm amizade com outros três, quatro, e aí você tem uma turma bem unida”).
descubro que o mais velho skinhead de são paulo já passou dos 60 anos, mora na zona leste e ainda sai para beber e barbarizar com seus iguais. vou tentar encontrá-lo para uma entrevista.

chegamos a são paulo de manhãzinha. a marginal está parada e o telefone celular toca dentro do busão. é a mãe do skinhead de óculos, meu vizinho de poltrona.
– mãe, tá embaçado aqui! vou chegar só mais tarde. não se preocupe, eu vou sobreviver, só vou atrasar um pouco.

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