Graças ao tição aceso pela “Caros Amigos”, comecei a ler “Espelhos – Uma História Quase Universal” (L&PM, 2008), do escritor uruguaio Eduardo Galeano (autor, cê sabe, do clássico “As Veias Abertas da América Latina”). E me deparo com um livro maravilhoso, monumental, de tirar o fôlego pelo discurso que vai construindo, lentamente, num sem-número de microcontos (ou coisas que os valham) repletos de intenções.

Por enquanto, que ainda não cheguei à página 100, fico com um trecho da entrevista concedida a propósito pelo Galeano à “Caros Amigos” 152, de novembro de 2009, quase tão universal e emocionante quanto o “Espelhos” no qual me miro.

É mais ou menos assim. Diante da pergunta “O que falta para a América Latina ser completamente independente?”, diz Galeano (com meus muitos grifos entusiasmantes e itálicos indesejáveis):

Romper com o velho hábito da obediência. Em vez de obedecer à história, inventá-la. Ser capaz de imaginar o futuro e não simplesmente aceitá-lo. Para isso é preciso revoltar-se contra a horrenda herança imperial, romper com essa cultura de impotência que diz que você é incapaz de fazer, por isso tem que comprar feito, que diz que você é incapaz de mudar, que aquele que nasceu, como nasceu vai morrer. Porque dessa forma não temos nenhuma possibilidade de inventar a vida. A cultura da impotência te ensina a não vencer com sua própria cabeça, a não caminhar com suas próprias pernas e a não sentir com seu próprio coração. E penso que é imprescindível vencer isso para poder gerar uma nova realidade“.

Logo a seguir, Galeano adentra por histórias da história, aquelas que raramente frequentam telas como as de Hollywood, da Fox e da Globo, ou páginas como as da “Veja” e da “Folha”:

“Atualmente os EUA possuem 850 bases militares em quarenta países. A metade do gasto militar mundial corresponde aos gastos de guerras dos EUA. Esse é um país em que o orçamento militar se chama curiosamente orçamento de defesa por motivos, para mim, misteriosos e inexplicáveis. Porque a última invasão sofrida pelos EUA foi em 1812 e já faz quase dois séculos. O ministério se chama de defesa, mas é de guerra, mas como que se chama de defesa? O que tem a ver com a defesa? A mesma coisa se aplica às bases na Colômbia, que também são ‘defensivas‘. Todas as guerras dizem ser ‘defensivas‘. Nenhuma guerra tem a honestidade de dizer ‘eu mato para roubar‘. Nenhuma, na história da humanidade. (…) Os pretextos invocados para a instalação dessa base dos EUA na Colômbia não são só ofensivas contra a dignidade nacional dos nossos países, como também ofensivas contra a inteligência humana. Por que dizer que serão colocadas lá para combater o tráfico de drogas e o terrorismo? Tráfico de drogas, muito bem… 80% da heroína que se consome no mundo vem do Afeganistão. 80%! Afeganistão é um país ocupado pelos EUA. Segundo a legislação internacional, os países ocupantes têm a responsabilidade sobre o que acontece nos países ocupados. Se os EUA têm interesse de verdade de lutar contra o narcotráfico, têm que começar pela própria casa, não pela Colômbia e sim pelo Afeganistão, que faz parte de sua estrutura de poder (…)”.

E, por fim:

“Foi em nome o livre comércio que o Paraguai foi aniquilado no século 19. Foi em nome do livre comércio que a China foi obrigada a consumir ópio. A rainha Vitória (da Inglaterra) era narcotraficante. E foi em nome do livre comércio que a indústria têxtil da Índia foi exterminada. Ou seja, o livre comércio tem uma história horrível e está claríssimo que se os EUA tivessem aplicado o livre comércio logo após sua independência continuariam sendo colônia da Inglaterra. Portanto, essa identificação da liberdade do dinheiro com a liberdade das pessoas é mentirosa e inimiga da liberdade humana“.

Arrepiante, não?

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Editor de FAROFAFÁ, jornalista e crítico musical desde 1995, autor de "Tropicalismo - Decadência Bonita do Samba" (Boitempo, 2000) e "Como Dois e Dois São Cinco - Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa)" (Boitempo, 2004)

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