Tenho a impressão de que estão criando mais uma onda artificial de indignação.
“Ela o chamou de gay!”, esbravejam uns.
“Logo ela?”, acrescentam outros (o que está por trás desse “logo ela?”; seria a afirmação de que Marta é uma libertina? Ou uma “vagabunda”, como já cansei de ouvir em eleições passadas?).
“Pisou na bola”, diz o cidadão, que no entanto não sabe dizer direito em que bola ela teria pisado.
Um site lança enquete em que busca saber: “Para o eleitor, é importante saber se Kassab é casado e tem filhos?”
Ou seja: se a resposta for “Não, isso é irrelevante”, Marta teria sido indelicada. Leitura mais radical: talvez (mesmo considerando-se que saber ou não disso seja irrelevante) Marta tenha até atiçado o preconceito latente na sociedade contra os gays. Seria Marta secretamente homofóbica?
Noto que a maioria dos indignados pisa em ovos, evitando dizer tacitamente que avalia aquilo como uma insinuação de homossexualismo.
Falam que ela não devia se interessar pela “vida pessoal” do candidato.
Leio um microdebate em uma coluna social que joga com diversos eufemismos para evitar grafar a palavra “gay”. Trata mineiramente o subject da polêmica como “a solteirice de Kassab”.
Como eleitor, vou destoar da maioria dos colegas jornalistas com quem converso: eu acho importante a pergunta sobre a vida pessoal de Kassab.
Por favor, não risquem meu carro nem joguem pedra no meu quintal por causa da minha opinião diversa.
Por que eu acho isso?
Vamos imaginar o seguinte cenário: Marta Suplicy, mal entrada na Prefeitura de São Paulo, nomeia o seu namorado, Luiz Favre, para ocupar uma nova secretaria que ela criou somente para ele. Pode ser algo do tipo… Secretaria da Repaginação Visual da Capital. Ou então Secretaria Excepcional de Desburocratização. Algo assim.
Um escândalo, certo?
Marta talvez se tornasse objeto de um pedido de impeachment, certo?
Lembro que, desde que se tornou público que Marta Suplicy tinha um novo namorado, um gajo que iria ocupar o lugar que um dia foi de Eduardo Suplicy, foi um auê.
Apresentado oficialmente, Favre foi pintado, em algumas publicações, como uma espécie de Rasputin que estaria buscando, de todas as maneiras, locupletar-se na administração pública. Não podia ser apenas interesse afetivo.
Favre foi investigado em quase todo veículo de imprensa.
No caso do atual prefeito, e se houver mesmo alguém? Uma companhia insuspeitada? Estaria essa pessoa lotada na administração pública? Teria benefícios? Isso não interessaria ao jornalismo investigativo?
Uma vez, um chofer de um festival em Ouro Preto apanhou a mim, ao Danilo Miranda e ao Luis Mott, do Grupo Gay da Bahia, para levar ao aeroporto.
Luiz Mott, divertido e inteligente, falou de personalidades importantes da História que, em sua avaliação, teriam sido gays, como Zumbi dos Palmares.
Falamos também de um famoso apresentador de TV que, tudo indica, também seria gay, mas não só não gosta de tratar do assunto como parece que não tem a menor intenção de sair do armário. Um direito dele, é claro. Ninguém tem nada a ver com a vida dele.
Mas o Mott murmurou, meio que resmungando:
“Se essa biba assumisse, estaria prestando um favor para todos os homossexuais. Com sua credibilidade, ele ajudaria milhares de jovens enrustidos a assumirem suas preferências, ajudaria a libertar muita gente oprimida, que esconde suas preferências por medo”.
Concordei imediatamente com o Mott.

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Jotabê Medeiros, paraibano de Sumé, é repórter de jornalismo cultural desde 1986 e escritor, autor de Belchior - Apenas um Rapaz Latino-Americano (Todavia, 2017), Raul Seixas - Não diga que a canção está perdida (Todavia, 2019) e Roberto Carlos - Por isso essa voz tamanha (Todavia, 2021)

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