a primeira garota tinha pressa, e marcou sua passagem com essa urgência.
mas sobrou tempo para ensinar-me a me vestir com ambiciosa suavidade, estabeleceu o valor da surpresa e do ritmo e depois sumiu com a mesma velocidade que chegou.
a segunda garota trouxe ordem, delicadeza, calma, caminhões de sinceridade & muito jeito com as plantas. espalhou patuás e chás-de-cheiro pela varanda. cheguei a imaginar que ficaria para sempre, mas não há o para sempre.
a terceira garota estava confusa, e espalhava consequentemente caos e delícia. olhava o mundo com desconfiança e hostilidade, e me pareceu uma alma gêmea. não tinha a menor paciência, não fingia compreensão nem piedade. rezo para que encontre o refúgio com o qual sonha.
e eis agora você, que não tem o menor receio ou nóia e chegou quando nem havia mais ninguém na portaria para recebê-la.
entrou sem a menor cerimônia.
quando cheguei, já estava instalada na minha sala de estar – tranqüila, saudável e envolvente como a voz de cat power.
tem frescor de cachoeira.
dorme que nem nenem em berçário.
adivinha meus movimentos. adivinha minha vontade.
cura com as mãos.
está se divertindo comigo agora, é fácil de ver.
como diria o mundo livre S/A, é o meu playcenter.
tudo está sempre recomeçando, e é por isso mesmo que vale tanto a pena.
então do que é que você tem medo, cabrão?

(texto que tem óbvio débito para com chico buarque; um dia, todos pagaremos)

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Jotabê Medeiros, paraibano de Sumé, é repórter de jornalismo cultural desde 1986 e escritor, autor de Belchior - Apenas um Rapaz Latino-Americano (Todavia, 2017), Raul Seixas - Não diga que a canção está perdida (Todavia, 2019) e Roberto Carlos - Por isso essa voz tamanha (Todavia, 2021)

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