então, a campanha à prefeitura de são paulo finalmente esquentou. e com riscos evidentes de descambar para a baixaria. e com o pt numa posição perigosa, de viés aparentemente moralista, em nicho sempre antes ocupado por malufs e pfls.

a pauta, posso falar com todas as letras?, é se kassab, o candidato do pfl, é ou não é homossexual. na campanha petista e nos jornais “aprendemos” que a questão é se ele é ou não casado, se tem ou não filhos, e o que dizem a respeito dele esse ter-ou-não-ter, esse ser-ou-não-ser.

mas, ai, ninguém aqui é idiota, não precisamos ficar aqui fingindo que a coisa não é o que é, precisamos?

pois então, terreno minado, zona de trincheira, confusões entre público & privado…

mas, que seja. parece fofoca maldosa (e dependendo do tom fica sendo mesmo), mas lá no fundo estamos diante de um debate interessantíssimo, importantíssimo, de altíssima relevância. peitemos. peitemos?

a questão subjacente talvez seja: é fatal, um dia o brasil terá um-a governante (prefeito-a, governador-a, presidente-a) homossexual assumido-a, resolvido-a, tranqüilo-a consigo mesmo-a, disposto-a a dar exemplo positivo nessa questão tão delicada.

(e, atenção, o termo-chave aqui é “assumido”, pois historicamente as bocas fofoqueiras nunca foram de se calar – alô, dona luiza, alô, seu aécio, alô, seu orestes).

pois então, um dia o brasil terá governantes abertamente gays (e bissexuais e isso e aquilo e aquilo outro), como já aconteceu e acontece em vários lugares do mundo (não custa lembrar, nós vivemos um momento histórico espetacular, de inúmeros governantes que são representantes de, er, “minorias” – alô, seu evo, seu hugo, seu luiz inácio, dona michelle, dona cristina, quiçá seu barack).

teremos dado mais um pulo célere rumo ao futuro, quando acontecer conosco, a saída do armário dos políticos de identidade sexual minoritária.

é irônico que, neste momento, pertença ao partido mais conservador do brasil, à direita da direita, a possibilidade de ocupar pioneirismo nesse campo (isso se kassab for de fato gay, bem entendido). e que marta fique fula da vida também por isso, a sexóloga esclarecida e liberada tendo de aturar o enrustimento covardão do outro (obrigado por esse insight, gabriel!).

sim, soam espúrios os ataques petistas. vão-se atrás os tempos em que era o seu maluf que dizia “estupra, mas não mata” e era o sr. josé (o filho da dona serafina) quem tecia armações escrotas (machistas? sexistas?) contra dona roseana (alô, sra. dilma?!, está na fila?!). e, fazendo-de-conta, er, que o prefeito seja mesmo homossexual, nem parece muito justo que o flanco mais vulnerável desse iceberg seja, “coincidentemente”, o daquele indivíduo que, “melhor” que vários de seus pares passados e presentes, não se casou para manter aparências, não fez fachada, não contratou esposa ou namorada de aluguel, não providenciou filhotes adotivos (ou legítimos) para apresentar à sociedade durante a campanha, aquele enfim que teria escolhido omitir, mas não fingir.

mas aí, putzgrila, você abre a página virtual do jornal da dona serafina e vem lá o “outro lado” do candidato, o lado obscuro da lua, a mentira tosca, fugidia, desidentitária (se é assim quanto à identidade, não será também nos fronts político, econômico, ético etc.? é esse ponto, aliás, que a adversária tenta tatear subliminarmente, talvez desastradamente):

“Segundo a Folha apurou, o prefeito se preparou para entrar no assunto quando for questionado. A resposta é que não se casou porque não houve oportunidade e também porque a vida pública tomou uma proporção que deixaria uma vida familiar em segundo plano”.

não, se for assim, não será do seu kassab, nem do “dem”, nem do complexo tucanopefelista a primazia de inverter paradigmas, de se reinventar, de humanizar a “direita”. continuará somente no colo feminino da dona marta o tranco de tomar de frente toda a saraivada moralista anti-divórcio (ou eu deveria dizer anti-desquite?), anti-recasamento, anti-amor-na-maturidade, anti-direito-de-livre-gozar. ela se diz magoada, e não é para menos.

mas, magoada, quer magoar?, “me fere de lá que te machuco de cá”? ou tem direito de reivindicar do adversário (ou melhor, do homem que pode vir a governar sua cidade) a mesma fibra de identidade que sempre possuiu?

afirmar identidade ou camuflar identidade? taí todo um edifício para a reflexão, o pensamento, o debate, a discussão. cada um (de nós) que faça suas apostas, com seu próprio imaginário no cangote.

eu sou pela identidade, sempre, mas isso é só opinião, lugar-no-mundo, torcida, sonho. é ideologia, não é (ou tomara que não seja) dogma. mas, deixa eu falar? se o-a homem-mulher público-a deve ser cobrado-a em sua honestidade, retidão, capacidade etc. blablablá, não vejo porque não deva também ser cobrado-a em sua sinceridade, identidade, tranqüilidade, bem-estar-consigo-mesmo-a, responsabilidade política (o que inclui, evidentemente, o sexo, o amor, a afeição, o afeto, o ódio, o rancor, a mágoa, alô, seu roberto, o carlos).

o que estou querendo dizer, o tempo todo: por trás da malha da intriga e da cortina de fumaça da fofoca, estamos diante de uma discussão de suma importância, que talvez só o mundo pós-“big brother” pudesse mesmo proporcionar. tomara que esse debate prossiga em nível mais elevado, e, de todo modo, bem-vindos sejamos ao futuro, portanto!, viva nós!

p.s.: estranho como, em meio a isso tudo, são paulo caminha para algo parecido com as prévias hillary versus obama, mulher versus negro/muçulmano, minoria contra minoria (só para variar). essa talvez seja a parte menos ruim, mas são paulo não sai daquela nóia datada de querer imitar os eua, ser os eua, evidenciar o que tem de reacionária (alô, dona “veja”!), naquela medida dos fanáticos fundamentalistas do capitalismo dos desestados desunidos da desamérica. ô, sina (ou eu poderia “relaxar”, “gozar” e usar em vez de “sina” a palavra “desejo”?), será que são paulo não encontraríamos referenciais mais saudáveis e criativos para encontrar nosso lugar no mundo?

atualização às 19h07 de quarta-feira 15 de outubro:

parte do texto acima já foi desatualizada pelos fatos. kassab já foi à sabatina da serafina declarar que não é gay [o itálico aí eu usei para parodiar o ambiguíssimo título daquele livro do ali kamel, “não somos racistas”, o “somos racistas” impresso em negro e o “não” destacado em vermelho; sempre fiquei intrigado com essa jogadinha e nunca a entendi, mas acho que agora comecei a entender…]. e que “existem mil garotas querendo passear comigo”, ou coisa parecida. não vou dizer que roberto carlos completava dizendo “mas é por causa do meu calhambeque”. mas, confesso, sou um alcoviteiro, e, sim, eu queria saber se ele quer casar com mil e(ou) uma garotas…

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