zabé da loca e seu conjunto põem fogo no pátio da igreja do seminário, em olinda

as 84 anos, seus olhos com a íris embranquiçada miravam os afrescos no teto da igreja do seminário como se olhassem para além da nave. não ouve mais quase nada do que lhe dizem, mas quando seu segundo pifeiro, rivers douglas, começa a tocar, ela já se encaixa no acompanhamento, o sopro bem fraquinho, o corpo muito franzino se mexendo como se seguisse um cão-guia.
é zabé da loca, que tem esse nome porque viveu numa gruta (ou “loca”) no sertão da paraíba durante 25 anos.
criou os filhos na caverna.
gosta demais de uma cachaça, predileção que tem de ser barrada de vez em quando.
ela toca o pife, a flauta de pvc que é característica das bandas de pífano nordestinas.
eu a vi e a fotografei em pernambuco, há duas semanas.
ela e seu grupo começaram tocando no interior da igreja, e depois terminaram no pátio externo, com a platéia fazendo roda em volta do grupo.
boa parte do repertório era dela mesma, mas ela também tocou luiz gonzaga (sala de reboco) e até o hino nacional brasileiro.
nada menos que emocionante.
bom, a notícia é que, no dia 7 de outubro, às 17h30, no theatro municipal do rio de janeiro, zabé da loca vai receber, das mãos do pernambucano luiz inácio lula da silva, a comenda da ORDEM DO MÉRITO CULTURAL.
medalhas não dão de comer a ninguém, mas se tem alguém que merece uma, é zabé.

AnteriorMEG BOCA DE CAÇAPA
PróximoKASSABARTACKMIN
Jotabê Medeiros, paraibano de Sumé, é repórter de jornalismo cultural desde 1986 e escritor, autor de Belchior - Apenas um Rapaz Latino-Americano (Todavia, 2017), Raul Seixas - Não diga que a canção está perdida (Todavia, 2019) e Roberto Carlos - Por isso essa voz tamanha (Todavia, 2021)

DEIXE UMA REPOSTA

Por favor, deixe seu comentário
Por favor, entre seu nome