É compreensível o desprezo que Caetano tem pelo jornalismo musical, que ele definiu lá atrás em seu blog como “o lixão da imprensa”. Ele talvez se refira à bovina concordância com que a maioria da imprensa musical, nos últimos tempos, acena para com qualquer coisa que ele, Caetano, diga, faça ou fale. Ele é adulado por essa maioria (pareceu-me até que tinha como favas contadas que desfrutava de unanimidade). Consequentemente, assustou-se com a prova da existência de uma minoria que é independente e não se sujeita ao seu cabresto de influências.

Modestíssimo, diz que escreve em resposta à minha crítica porque se preocupa com “a afirmação das glórias nacionais” (ele, é claro, incluindo-se nessas glórias). Glórias nacionais não podem ser questionadas, n’est-ce pas?
É tudo muito engraçado, de fato. Morro de rir com a confusão que ele faz entre o jornalismo de Folha, Estado e Veja. Ele tem na cabeça uma imagem cristalizada do que sejam alguns profissionais dessas empresas, confunde esse comportamento individual com o de toda a empresa e tenta enquadrar todos nessa sua expectativa. Infelizmente para ele, não estou em sua cartilha. Meus editores não pensam que são seus amigos. Nem tampouco sou um jornalista da categoria outdoor de Times Square. Nem queria polarizar com ele, tenho trabalho a fazer.

Mas não posso deixar de ler nas entrelinhas do teatro de Caetano. Ele não é tão inofensivo assim, não está apenas brincando de clown tropicalista. Seu jogo é um pouco mais pesado. Ele não se contenta somente em tentar desqualificar minhas rústicas ferramentas profissionais. Vai além: pede minha demissão duas vezes. Primeiro, sugeriu que meu editor tome providências a meu respeito, que não me deixe escrever com tanta liberdade. Depois, que os leitores do jornal no qual trabalho façam Justiça em seu nome (talvez pedindo minha cabeça?).
“Nos Estados Unidos, um texto semelhante poderia provocar a perda do emprego”, diz o valente herói tropicalista na segunda parte. É uma deslealdade: eu não poderia sugerir o mesmo ao banco que o contratou para fazer um concerto de segunda classe, poderia?

Ele se mostra arrogante e presunçoso. Um autêntico coronelzinho da MPB, cercado de vassalos de toda natureza, prontos a tomar suas dores. Sugere que já fez isso anteriormente, que já pediu cabeças de desafetos, e é bem provável que tenha sido bem-sucedido. Confia que sua poderosa rede de contatos de amigos apresentadores, amigos editores, amigos colunistas e amigos blogueiros lhe assegure uma confortável unanimidade.

Caetano Veloso preza tanto a democracia que, no mesmo blog de onde dispara suas intempestivas setas envenenadas, não permite que sejam postados comentários que lhe sejam desfavoráveis. Todo mundo o ama naquele pedaço. Mas, mesmo no fabuloso mundo de Fahrenheit 451, algo pode fugir do seu script.

Digo com convicção aos meus 7 leitores: não se preocupem, não esqueci de responder ao restante do Manifesto Gramatical do Professor Raimundo Caetano. Depois do almoço, CONTINUA…

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