Na lista de “erros crassos” que Caetano levantou a respeito do meu texto (desesperado esforço de me desqualificar como analista do seu trabalho), alguns itens dispensariam comentários.
É o caso de ele ter assinalado que a palavra necrópsia, como eu grafei, estaria errada: não seria acentuada. Equivoca-se de novo: é uma palavra com dupla prosódia (como biópsia ou biopsia; autópsia e autopsia; boemia ou boêmia; catéter ou cateter). O Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira de Letras poderia ajudá-lo em suas tarefas.
Entretanto, nesse ponto da “necrópsia”, ele entendeu aquela que talvez fosse a ironia mais cruel do meu texto (não sou cruel por natureza, mas confesso que me excedi aqui): a bossa nova doente que eu descrevo está desenganada, é na verdade moribunda, e a escalação de dois totens da MPB (que não são os mesmos Roberto e Caetano do show, mas seus mitos) destina-se a dissecar o seu cadáver. Estão a postos ali no palco, esperando que ela desencarne.

O cantor aferra-se a picuinhas para tentar readquirir seu orgulho ferido. Como aqui, citando-me:
Roberto e Caetano fizeram de tudo para Tom Jobim: bajularam-no, superlativaram-no, choraram-no. “Como o autor justificaria o uso da preposição ‘para’ com os verbos (seguidos de pronomes átonos) que vêm depois dos dois pontos?”, indaga o mestre.
Ora, professor, é fácil: é só usar um pouco de perspicácia (algo que qualquer leitor mediano consegue) para saber que há um verbo oculto ali, um verbo subentendido. Algo que se deduz facilmente pelo contexto. Eu poderia sugerir a Caetano alguns verbos para seu uso pessoal ali: “ordenhar”, “puxar o saco”. Mas é melhor não fazê-lo.

Mais adiante, Caetano pergunta: “Afinal o tom criticado era de solenidade ou de paródia? E ‘gesto imitador’ vem para ilustrar uma ou outra? O período resulta incompreensível”.
Não vejo por que me estender muito aqui: a paródia a que assistimos naquela noite tornava-se ainda mais patética à medida que os dois medalhões mostravam-se mais solenes e compungidos. Tínhamos, então, uma paródia solene, algo aberrativo enquanto expressão, mas assustadoramente real.
A imersão apressada e desconexa na obra de Jobim só podia dar nisso. Creio que Chico Buarque teria demonstrado mais sensibilidade e presença de espírito ao tratar de Jobim, cuja obra ele conhece mais profundamente do que Caetano e Roberto.

No mais, Caetano não gostou de naftalínico, eu também não gosto de djavanear. Neologismos nem sempre agradam a todos.

Tem muita baboseira em seu arrazoado, trata-se de procurar o famoso pêlo em ovo. Há dois problemas reais (por conta do ritmo industrial de um jornal, às vezes temos pouco mais de duas horas para redigir; Caetano teve uma semana para cozinhar seu ressentimento).

EM TEMPO – Mais uma coisa: o jornalismo americano, que mr. Veloso idealiza tanto (sempre se deu muito bem com os jornalistas do New York Times), aquele jornalismo que não cometeria o erro de publicar um texto como o meu, em sua opinião, é o mesmo que acobertou durante anos o trabalho sujo de Jayson Blair e Janet Cooke. Entre outros.

CONTINUA…

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Jotabê Medeiros, paraibano de Sumé, é repórter de jornalismo cultural desde 1986 e escritor, autor de Belchior - Apenas um Rapaz Latino-Americano (Todavia, 2017), Raul Seixas - Não diga que a canção está perdida (Todavia, 2019) e Roberto Carlos - Por isso essa voz tamanha (Todavia, 2021)

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