“carta capital” 448, de 13 de junho de 2007, pra não dizer que a gente-mídia fala do cd novo (e fofo) da paula toller, né?… (e o prince, hein?, te contei?, não?…)

CHÃO DE ESTRELAS
Impulsionados pela tecnologia, artistas “tomam posse” das ruas e avenidas para fazer shows, gravar e vender CDs

POR PEDRO ALEXANDRE SANCHES

Os dois homens sobem no ônibus, sem passar pela catraca do cobrador, sob permissão silenciosa do motorista. Pedem desculpas por perturbar a viagem. Vários passageiros se mexem desconfortáveis nos bancos, à espera do início de história triste de desemprego ou discurso decorado sobre problemas de saúde.

Mas o caso será outro nessa manhã paulistana. Os dois homens começam a batucar energicamente no pandeiro. Levantam as vozes no burburinho. Em pouco tempo, o ônibus está tomado pela embolada nordestina.

Em rimas construídas com rapidez de corisco, os pernambucanos Pardal da Saudade e Ivan Embolador elaboram em poucos minutos uma crônica arguta sobre tudo que está acontecendo ao redor. Essa doutora tá olhando/ essa daqui é madame/ é a prefeita de Miami/ veio aqui só passear, Pardal provoca uma dama carrancuda, sob gargalhadas gerais.

Pardal puxa da sacola uma amostra do CD gravado pela dupla, ou melhor, por ele com outro embolador, Verde Lins da Voz, conterrâneo que a essa altura trabalha com outro parceiro, nalguma praça da zona sul paulistana. O disco foi bancado por eles, e é distribuído pela MD Music, a mesma que espalha pelo Brasil CDs e DVDs da Banda Calypso, Frank Aguiar, Calcinha Preta, Forrozão Tropykália.

A versão que está na mão de Pardal é “genérica”, ou pirata, segundo a terminologia policial. Ele mandou copiar e vende no ônibus por 5 reais. Contribuições menores também são aceitas, em troco da alegria proporcionada. Em breve, sairá o primeiro DVD, gravado ao vivo no largo 13 de Maio, Santo Amaro, porta de saída e entrada para a periferia sul.

O repórter compra um exemplar, outros quatro ou cinco passageiros também. Após agradecer a atenção, na mais pura linguagem tradicional do canto falado nordestino, os dois descem na avenida Paulista e se dissolvem na paisagem da cidade. O ônibus prossegue mais leve, sorridente.

Passado o encontro fortuito, não é fácil localizá-los outra vez. “Esse pessoal não tem telefone, não”, diz o funcionário da MD. Pela Internet, descobre-se que Verde Lins trabalhou na Orquestra de Músicos das Ruas de São Paulo, com o erudito “compositor e decompositor” Livio Tragtenberg. E que estrelou um documentário europeu em companhia do politizado grupo de hip-hop Z’África Brasil. Quem faz a ponte é o rapper Gaspar, paulistano filho de nordestinos que sabe o número do celular de Pardal.

“Respeito os emboladores porque não esperam nada de gravadora, de indústria fonográfica. Só contam com a saúde para sustentar a família. Vendem CDs na rua, isso é o que respeito e acho bonito”, entusiasma-se Gaspar. “A mídia brasileira é a reprodução da cultura norte-americana, então a gente que é do rap ainda aparece um pouco. Mas os tiozinhos, não, só uma vez ou outra no programa da Inezita Barroso.”

Sabedor dos muitos pontos em comum que ligam o rap ao repente (o canto-fala improvisado na viola, e não no pandeiro, como a embolada), Gaspar revela familiaridade com a venda artesanal de CDs: “Também saio ‘mangueando’ para vender nossos CDs. Estou duro, vou ‘manguear’, pago meu almoço. Artista que faz CD tem que ir para a rua”.

Outra referência, para Gaspar, é o repentista Sebastião Marinho, paraibano que migrou em 1976. “Quando cheguei, São Paulo me surpreendeu, fiquei com nojo. Pensava que os prédios eram banhados a ouro, e só vi cachorro vira-lata. Mas os nordestinos daqui se emocionavam com minha cantoria, senti necessidade, fiquei.”

Marinho diz preferir o palco às ruas, mas relata as agruras da chegada. “No começo não tinha muito campo para trabalhar, e fui ser zelador num prédio na rua das Palmeiras. Foi o único emprego que tive fora do repentismo.” Em 1º de maio de 1988, fundou a Ucran, União dos Cantadores Repentistas e Apologistas do Nordeste. “Fizemos um manifesto, 48 repentistas abraçando a praça Ramos, para que a polícia não levasse mais os cantadores para a delegacia por vadiagem.”

No contato telefônico, Pardal da Saudade logo aceita a proposta de se deixar acompanhar por CartaCapital durante uma jornada de trabalho. Repórter e fotógrafa são incorporados à crônica improvisada, que fagocita com agilidade todas as etnias e tipos sociais que passem pela frente. Se Pardal diz que a passageira oxigenada é baiana como Carla Perez, Ivan retruca que, não, ela é gaúcha e se parece com a Xuxa. Os passageiros são informados da presença dos jornalistas: Tão fazendo entrevista/ pra deixar tudo completo/ levar pro (programa policial da Globo) Linha Direta/ que é pra gente se ferrar.

Provocam um viajante que vai descer: Esse aqui quer descer/ será que ele é do PT/ e quer correr pra não pagar? Ivan conta que votou em Lula. Pardal diz que também votaria, mas não transferiu o título ainda. Lula é o presidente/ ele é meu conterrâneo/ e o Brasil tá se afundando/ vai pegar fogo já, já.

Vendem CDs numa média de 20 viagens diárias de domingo a domingo. Mas não na segunda-feira 4, quando primeiro armaram uma roda matutina de embolada no largo 13 de Maio. Em uma hora e meia, venderam todos os 40 CDs genéricos que traziam na sacola.

– Tem, não, um dinheirinho para colaborar? – pergunta Ivan a alguém.

– Não.

– Tá desempregado?

– Tô.

– Caçando emprego aqui? Não vai dar certo… – e a roda toda cai na gargalhada.

Na praça, as rimas são mais pesadas. Atravessam cruelmente preconceitos e estigmas sociais, contra mulheres, negros, nordestinos, homossexuais, deficientes, “pinguços”. Os estigmatizados ao redor se alternam entre sorrisos amarelos e gargalhadas. O que me deixa irritado/ é vocês se gargalhando/ e eu, um corno cantando,/ ainda não vi ninguém pagar.

“Na praça é mais liberal, a gente solta a franga, faz a ‘fuleragem'”, Pardal classifica. “No ônibus não pode. É como se fosse casa de família, o pepino pode ir para o motorista. Ali cantamos correto, sem dizer palavra errada.”

Pardal contabiliza 7 mil exemplares “oficiais” do CD vendidos nas ruas. Dos “genéricos”, não sabe dizer: “Piratas a gente não conta, acho que uns 7 mil também”. É mais do que anda vendendo muito pop star famosíssimo.

Ele troca de idéia quando perguntado sobre a justeza de se referir ao próprio disco como “pirata”: “Sendo meu, acho que não é pirata”.

Localizado noutro celular, Verde Lins, o ex-parceiro, se queixa da política de preços do colega: “Ele vende por 5 reais, fica difícil, queima a praça. Eu vendo a 10 reais, na loja custa 12. O meu é pirata, também estou fazendo”. Verde Lins foi quem primeiro gravou Futebol no Inferno, que depois viraria sucesso com a dupla Caju e Castanha, a mais conhecida do País, que lança discos pela Trama.

As queixas não vão longe: “A vida para mim é boa. Prefiro cantar na rua que em outros lugares para ganhar nome. A gente vive de dinheiro, não de divulgação e conversa. Tem que vir de baixo, a casa precisa do primeiro tijolo. Os apresentadores de tevê e locutores de rádio me conhecem mais do que eu conheço eles. Me chamam, se derem cachê eu vou”.

Afirma que não recebeu direitos autorais pela cantoria com os rappers no vídeo The Session, realizado em 2005 pela artista plástica sueca Annika Eriksson e exibido em circuitos europeus de arte. A história se assemelha à de outra dupla de cantadores, Peneira e Sonhador, focalizada no documentário francês-brasileiro Saudade do Futuro, de Marie Clémence e César Paes.

“Mandaram um DVD, eu vou copiando e vendendo. Não deram direito autoral, só pagaram a gravação”, diz o pernambucano Peneira.

Peneira é um dos 15 músicos liderados por Livio Tragtenberg na Orquestra de Músicos das Ruas, formada em 2004. “O que mais estranhei foi passar da rua para o palco. Na rua a gente canta solto e livre. Na orquestra é pouco e na hora certa”, separa Peneira, que adota nome de passarinho como apelido, assim como a maioria dos cantadores, de Pardal a Patativa do Assaré.

Tragtenberg critica a camada de exotismo com que são vistos os artistas das ruas: “Me dizem ‘muito bom o trabalho que você fez com morador de rua’, mas não há nenhum morador de rua na orquestra. Não é só a crítica, o público também quer lavar a consciência pesada, passar a mão na cabeça, ‘eles são bonzinhos’, ‘você está tirando da rua’. É um modo de não reconhecer o valor artístico deles”.

Ele concentra o conceito no termo que nomeou o primeiro CD do grupo, Neuropolis, editado pelo Selo Sesc: “Neurópolis é a cidade dos nervos, que estão dentro do corpo, ninguém vê, mas são a alma de tudo. Faço uma analogia com os músicos, que circulam pela cidade meio invisíveis e a mídia não vê”.

Distribuída entre migrantes nordestinos e imigrantes estrangeiros, a orquestra reúne desde paraguaios que tocam música mexicana no restaurante El Mariachi até a japonesa Reiko Nagase, de 65 anos, e a nissei Yuko Ogura, de 76, responsáveis pelos instrumentos orientais koto e sanguen na babel musical de Tragtenberg. O piauiense Emerson Boy, por exemplo, fez teatro de rua no Brasil e na Europa, participou da banda de rap abrasileirado Tiroteio e faz shows pela Vila Madalena a bordo do “jegue elétrico”, uma Brasília antiga com um palco improvisado. “Se não tenho espaço privado para mostrar meu trabalho, vou para as ruas.”

Dona Yuko, também professora de koto, fala do ineditismo de estar ao lado de cantadores nordestinos: “Nunca convivi, só com japoneses. No começo a gente sofreu, porque não sabia como fazer”. “Fica cada um na sua, ninguém entra no estilo do outro. Convivemos bem com as japonesas, elas são muito boazinhas, estão sempre sorrindo. Os repentistas a gente não entende muito bem, porque falam muito rápido. É um sarro”, descreve Ruben Vera, mexicano criado no Paraguai.

Tragtenberg toma partido dos artistas semi-invisíveis da “neurópolis”: “É mais fácil trabalhar com essa turma que com músico tradicional. Eles não têm preconceitos, são sobreviventes. E são profissionais, não é papo de ONG music, inclusão social. É um trabalho musical. Venho intoxicado de tanto artista e babaquice do circuito cultural, onde só tem nego reclamando, para mim é oxigênio puro”.

Segundo ele, a era da Internet propicia, para os músicos das ruas, uma tomada de posse do próprio trabalho. “Ali na rua o CD não ficou obsoleto. Estão dando uma lição tremenda no mercado. E o público reconhece, compra como gesto de solidariedade. Isso se perdeu totalmente na classe média, em que artista é só símbolo de status, de ir ao Credicard Hall.”

Ladrão rico vive muito porque sabe planejar/ e ladrão pobre morre logo porque não sabe roubar, cutucam Pardal e Ivan nas ruas. Na jornada da segunda 4, esgotaram o CD e arrancaram gargalhadas e trocados. Reagiram com humor à desconfiança de passageiros que, descrentes de estarem diante de artistas “de verdade”, não reconheciam Ivan na capa do CD. Entraram em ônibus amistosos e hostis, inclusive um no qual não conseguiram nenhum centavo. Obtiveram montante suficiente para garantir a féria média mensal entre 1,2 mil 2 mil reais cada um.

Esperam receber em casa os exemplares prometidos de CartaCapital, assim que a reportagem chegar às ruas. Desta vez, ninguém vai aparecer no Linha Direta.

A CÉU ABERTO
Os músicos que viveram o relento antes de se tornarem profissionais

Hoje conhecidos nacionalmente, os emboladores pernambucanos Caju e Castanha cumpriram trajetória acidentada desde que, ainda crianças, foram focalizados no documentário Nordeste: Cordel, Repente, Canção, de Tânia Quaresma, de 1975.

Chegaram em São Paulo há 20 anos, e fizeram via sacra antes de conseguir aparecer pela primeira vez no programa Som Brasil, de Rolando Boldrin. “Dormimos embaixo de viaduto, embaixo do Minhocão. Fazíamos cantoria na Sé, no Viaduto do Chá, atacamos em tudo quanto é lugar. Passamos seis anos sem ter casa, dormindo na praça, morando às vezes em casa de amigos em Santo Amaro”, lembra Castanha.

A fama só cresceu a partir de 1997, quando o conterrâneo Lenine usou na música A Ponte um trecho dos dois no documentário de 1975. A Trama os contratou, e o cineasta Walter Salles filmou o curta-metragem A Saga de Castanha e Caju contra o Encouraçado Titanic, exibido em Cannes. O Caju original morreu, e foi substituído pelo Caju atual, ou Cajuzinho.

Embora a trajetória se assemelhe, até geograficamente, à dos cantadores de hoje em dia no largo 13, a vivência de rua não é exclusividade de emboladores e repentistas. Ao contrário, é familiar a muitos artistas de MPB, a maioria dos quais não costuma falar publicamente do assunto.

Exceção à regra é o músico goiano Odair José, que, numa entrevista a CartaCapital, em 2006, falou sobre a vida nas ruas quando chegou ao Rio, nos anos 60. “Eu dormia na praia, depois comecei a dormir na escadaria do Teatro Municipal. Aí descobri o aeroporto Santos Dumont, dormia no banheiro. O cara que fazia limpeza sabia que eu ficava ali num canto”, disse.

Relato mais contundente é o de Seu Jorge, que viveu nas ruas cariocas bem antes de ser ator em Hollywood: “Nego não sabe o que é ter que fazer cocô e xixi na rua, não sabe o que é dormir num papelão” (CartaCapital 384).

Nos anos 70, antes de ser revelado com o grupo Secos & Molhados, Ney Matogrosso sobreviveu de artesanato, em feiras hippies do Rio. Alguns artistas colocam fragmentos da experiência em letras de música, como é o caso do cearense Belchior (o sol não é tão bonito para quem vem do norte e vai viver na rua, em Fotografia 3×4) ou do paraibano Zé Ramalho (em Garoto de Aluguel).

Os nômades e mambembes remontam às origens da música moderna, como atesta a trajetória de Orestes Barbosa, morador de rua quando menino, jornalista e compositor quando adulto, autor para sempre de versos como a porta do barraco era sem trinco/ e a lua furando nosso zinco/ salpicava de estrelas nosso chão (de Chão de Estrelas). – PAS

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Editor de FAROFAFÁ, jornalista e crítico musical desde 1995, autor de "Tropicalismo - Decadência Bonita do Samba" (Boitempo, 2000) e "Como Dois e Dois São Cinco - Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa)" (Boitempo, 2004)

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