pois então. mais ou menos ao mesmo tempo em que roberto carlos molha os olhos de seu biógrafo não-autorizado paulo césar de araújo no fórum paulistano da barra funda, uma história mais ou menos igual, mais ou menos diferente, acontece nos subterfúgios do lado b, no outro lado da moeda dourada do “rei”.

constrangido pelo lamentável litígio entre rc e pc, vou ficando calado o mais que consigo, até mesmo por razões éticas: como é que eu iria poderia usar prerrogativas jornalísticas para abordar imparcialmente esse assunto, se eu próprio também escrevi um livro sobre roberto carlos (& erasmo & wanderléa), e se o meu livro ainda anda circulando por aí, tímido (& atirado) e solto (& aprisionado) como sempre foi?

não tem como, não tem. mas é claro que também tenho lá minhas historietas (quase) de bastidor, e duas delas eu gostaria de contar aqui agora.

a primeira: há uns vários meses, quando erasmo carlos fez um show aqui em são paulo, fui cortesmente convidado a comparecer pela assessora de imprensa gilda mattoso (aquela mesma, do caetano, do gil, do pessoal lá da patota).

lá fui eu, acompanhado da marcia, todo feliz (& assustado). não bastasse, acabei conduzido pela gilda e pelo léo esteves, gentilíssimo filho e empresário do homem, para cumprimentar erasmo no camarim (um ambiente do qual, de resto, costumo fugir como o diabo foge da cruz, com exceções raríssimas – e nem sempre exatamente felizes, eu diria).

era meu primeiro encontro com o “gigante gentil” (como o apelida dona rita lee) depois de ter lançado “como dois e dois são cinco”, imagina se eu não tremi feito vara verde. tremi, ô, se tremi. abracei erasmo tímido, temeroso, bambeando como bambu.

gigante gentil, ele tirou uns baratos com a minha cara, disse que eu devia estar doidão de alguma substância quando escrevi todas aquelas coisas imaginosas lá. mas foi afetuoso, carinhoso, e observou que, se merecera aquele tanto de esforço e dedicação de minha parte, era sinal de que alguma importância ele devia ter nessa tal música popular brasileira (imagina se não, seu erasmo, imagina!).

o contato foi rápido (& envergonhado, da minha parte), mas antes de eu fugir correndo do camarim erasmo ainda chamou o léo para que tirasse uma foto, eu ao lado dele, “crítico” & “artista”, (não-)biógrafo de braços dados com (não-)biografado. não tenho essa foto até hoje (porque não pedi), mas, vixe mãinha, você calcula meu orgulho, não calcula?

pois então, por discrição ou pudor nunca costumo comentar esse episódio, mas, poxa, ele também me pertence, eu tenho o direito, né? e, além do mais, andei lembrando dele por conta da segunda historieta, iniciada há mais ou menos um mês.

foi quando a assessora de imprensa luciana bastos me procurou, por parte da gravadora independente indie records e, de novo, do léo esteves. eles propunham que eu escrevesse um texto para a imprensa (codinome “release”) sobre “erasmo carlos convida – volume ii”, o novo álbum do cara.

o disco já deve estar nas lojas, e essa segunda historieta segue contada com um pouco mais de apuro aí embaixo, no release que aceitei escrever e que republico agora aqui no blog.

[em tempo: estrelas não mudam de lugar por causa dessas pequenas fábulas de fadas & bruxas, mas não é curioso como o mundo continua dramaticamente repartido “em lado a” e “lado b”, como se a esfera terra fosse ainda um antigo bolachão vinil? não é estranho perceber como “lado a” e “lado b” prosseguem sendo inversos complementares e indissociáveis?, roberto carlos penando (& fazendo penar) no proscênio & erasmo do outro lado do espelho, observando tudo calmo e calado?

quanto ao paulo césar e a mim, sinceramente não acredito que pertençamos de modo estanque a lados “a” ou “b” – afinal, somos da (já agonizante) era do cd, pois não? ainda assim, neste momento não dá para negar um certo paralelismo à distância, em relação aos lados ocupados pelos carlos roberto e erasmo, respectivamente…]

enfim, vai aí o texto enviado junto com “erasmo carlos convida – volume ii” aos colegas jornalistas & outros bichos afins:

Sonhos & memórias da música emotiva brasileira, vol. 2

Por Pedro Alexandre Sanches (*)

O bochicho correu solto em 1980, quando Erasmo Carlos lançou o pulo de gato que colocaria em novos termos sua (monumental) importância como compositor (e cantor) popular brasileiro. Erasmo Carlos Convida… dava veludo novo a clássicos do cancioneiro nacional co-escritos por ele, enfileirando duetos ilustres com Gal Costa , Tim Maia, Gilberto Gil, Rita Lee, Maria Bethânia, Caetano Veloso, Jorge Ben, Nara Leão, Wanderléa e, claro, Roberto Carlos. O bochicho: se o caso era chegar perto de completar um “quem é quem” da geração de Erasmo (& Roberto), estavam faltando Chico Buarque, Elis Regina, Milton Nascimento…

As razões para as ausências só ele mesmo pode dissipar, mas hoje, 27 anos mais tarde, Erasmo Carlos Convida – Volume II reata o fio da meada – e, de quebra, volta a oferecer ao Brasil a oportunidade (seguidas vezes desperdiçada) de redimensionar (de novo) a estatura de um dos dois compositores mais populares da nossa história.

Hoje já não há como Elis duetar com Erasmo, mas aqui estão enfim Chico e Milton, duelando respectivamente “Olha” (de 1975) e “Emoções” (1981), as duas originalmente lançadas pelo outro autor mais popular de todos os tempos (você sabe quem). A primeira virou bossa carioca à la João Gilberto; a segunda se transformou em toada jazz-mineira à la Milton Nascimento; e eis-nos aqui instados (outra vez) a entender (se quisermos) que Erasmo & Roberto são a espinha dorsal da música popular brasileira, de toda e qualquer música brasileira.

Em 1980, Erasmo abriu apenas duas exceções a assinaturas de fora de sua heróica (e inúmeras vezes esnobe) geração: chamou também para brincar no primeiro disco coletivo os jovens grupos A Cor do Som e Frenéticas, que eram então pimpolhos mal saídos das fraldas. Hoje, ele inverte a equação. Convida o agora veterano Mu Carvalho, integrante original d’A Cor do Som, para produzir o volume 2. E coalha o CD de convidados que, se não são exatamente noviços, devem muito do quilate pop que possuem a pai Erasmo Carlos.

Quem dá liga especial ao convescote de gerações de 2007 é o trio pop-rock Kid Abelha, em versão desbragada da arrepiante “O Portão”, lançada em 1974 por Roberto Carlos. Recobrando a co-autoria de “O Portão”, o rebelde número 1 da jovem guarda dos anos 60 reafirma: a marca registrada da música emotiva brasileira também é dele, sim, senhores e senhoras.

(A propósito: Paula Toller é a única a participar pela segunda vez de um projeto coletivo de Erasmo: em 1989, ele rendeu homenagem exclusiva à geração 80 em Ao Vivo – Sou uma Criança, cantando iê-iê-iês com Paula, Paulo Ricardo, João Penca & Seus Miquinhos Amestrados e Léo Jaime.)

Em praia vizinha, o roqueiro Lulu Santos retrabalha o samba-rock “Coqueiro Verde”, jóia da coroa riquíssima de lados B de Erasmo. Lulu se vale, ainda por cima, do alucinante arranjo da gravação de 1971 do Trio Mocotó, lado B do lado B.

Em praia mais afastada, mas também egressa dos anos 80, Zeca Pagodinho transforma “Cama e Mesa” num autêntico samba de fundo de quintal. E reinstala a eterna dúvida do ovo & da galinha: “Cama e Mesa” virou samba agora, ou a dupla dos Carlos já escondiam o ouro sambista em 1981, quando Roberto emplacou a melô em favelas & motéis & rádios de todo o Brasil? Por via das dúvidas, não custa reconstruir a provocação: os roqueiros românticos Erasmo & Roberto são, no mínimo há uns 40 anos, dois dos mais certeiros sambistas do Brasil.

Um breque no samba: a geração 90 abre passagem para fazer mesuras de ritmos os mais diversos ao mestre. O Skank se responsabiliza pela tarefa corajosa de recriar um dos mais irônicos e iconoclastas não-sucessos de Erasmo, “Banda dos Contentes” (do genial LP homônimo de 1976).

Marisa Monte encara um Robertão de frente, na canastrona “Não Quero Ver Você Triste” (de 1965), avó materna e paterna de “Amor, I Love You”.

Los Hermanos mergulham no lado B com a pungente “Sábado Morto”, do incrível álbum Sonhos e Memórias – 1941-1972 (1972), numa integração quase assustadora entre as vozes de Erasmo e de Rodrigo Amarante.

Adriana Calcanhotto forra de bom humor e de leveza partimpim o punk pop “Ilegal, Imoral ou Engorda”, surgido em 1976 como um canto de cisne do lado mais malcomportado de Roberto Carlos.

Uma pausa nos saltos entre gerações (cuja diversidade, aliás, está expressa também num time de arranjadores que alterna Vittor Santos, Rildo Hora, Nivaldo Ornelas, Luis Cláudio Ramos, Dadi, Domenico e Kassin, entre outros): quase contemporâneos de Erasmo, Simone e Djavan completam o elenco, em duas canções mui românticas. A primeira tira do baú tudo que sabe sobre suavidade e faz Erasmo se sentir bem à vontade em “Vou Ficar Nu pra Chamar Sua Atenção” (1970), que originalmente integrou o filme Roberto Carlos e o Diamante Cor-de-Rosa. O segundo vem acompanhado de cordas ternas na dramática “De Tanto Amor”, que estourou em 1971 na voz de Claudette Soares.

O dueto com Simone reavalia delicadamente a fase de desamparo que Erasmo viveu ao final da jovem guarda, enquanto Roberto decoloava para longe do rock’n’ roll e se lançava à façanha de ídolo romântico número 1 do Brasil. O encontro com Djavan confirma e reafirma a co-participação de Erasmo na escrita de dez em cada dez sucessos incontestáveis de Roberto Carlos – a quem, afinal, Erasmo Carlos Convida – Volume II é dedicado.

Por fim, antes de terminar: entre dedicatórias e homenagens (às vezes ao avesso), justo seria que Erasmo Carlos caprichasse na homenagem a si próprio. Coladinha a “O Portão” do Kid Abelha, aparece por isso faixa mais irreverente do CD, “Pão de Açúcar (Sugar Loaf)”, recolhida do lado B do LP Amar pra Viver, ou Morrer de Amor (1982), aquele acachapante libelo pop em cuja capa Erasmo apareceria libertando uma pomba branca de dentro do próprio peito em carne viva.

“Pão de Açúcar” renasce povoado de scratches modernos e de levadas em samba-rock, mas também das exímias harmonias vocais do grupo Os Cariocas. É o único momento em que pai Erasmo reverencia os mais velhos, numa confissão terna de amor à pré-bossa nova e ao elo perdido de vocalizações perfeitas (à moda daquelas que o próprio Erasmo, apesar de muito tímido, sempre construiu) de conjuntos vocais como Bando da Lua, Anjos do Inferno, Garotos da Lua (de onde saiu João Gilberto) ou, bem mais tarde, MPB 4.

Pode se tratar de um breve tributo do cantor a seu próprio passado, mas é mais que isso: há mais de uma década, um dos maiores amigos de Erasmo, Tim Maia, gravou um disco inteiro com Os Cariocas (Amigo do Rei, 1996). Um remoinho de tempos & espaços se condensa em “Pão de Açúcar” – Carmen Miranda, Os Cariocas, João Gilberto, Erasmo & Roberto & Tim Maia, samba-rock, hip-hop… E esse é mesmo o sentido deste novo (e amorosíssimo) ajuste de contas (ou melhor, de notas musicais) de Erasmo Carlos com o passado, o presente e o futuro.

(*) Jornalista militante em críticas, entrevistas e reportagens, nunca pensei seriamente que algum dia fosse escrever o release de um disco. Não simpatizava com esse tipo de “intercâmbio” entre imprensa e indústria fonográfica, nem muito menos com o tom tipo “Erasmo Carlos está no melhor momento de sua carreira!!!” que esse gênero de texto volta e meia acaba adotando. Mas essa convicção contrária durou até o dia em que Léo Esteves, empresário e filho de Erasmo, fez chegar até mim o recado de que queriam que eu escrevesse este texto.

Balancei no ato: não se tratava tão-somente daquele que é, em minha opinião, um dos maiores artistas populares (e nem sempre devidamente reconhecidos) que já conhecemos aqui neste Brasilzão. Tratava-se, além disso, de Erasmo Carlos, nada menos que o co-protagonista do meu livro Como Dois e Dois São Cinco – Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa) (editora Boitempo, 2004)! Nem preciso dizer, mas digo mesmo assim: seu convite me enche de orgulho, dá aura de legitimidade a cada uma das palavras que ali deixei escritas, enobrece meu trabalho e me faz ficar muito, muito, muito feliz.

Releio então as minhas mal traçadas linhas neste release, e até receio que afinal ele esteja, sim, um tantinho bajulatório. Mas (que saco, eu não sou de ferro!), não, não é sacrifício nenhum reconhecer que, mesmo que Erasmo não esteja no ápice, estou diante de um belo disco, de um belíssimo, gigantesco artista. Ora, esse não é o dever de qualquer “crítico” que se preze, ainda que seja uma criança e não entenda nada? Então é isso, “seu” Erasmo… Meus sinceros parabéns, e obrigado por mais (este disco e) esta lição.

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