Uma mulher sem dentes, na Estação da Luz, andava pela calçada com uma marmita de alumínio e berrava: “Não olhem para mim comendo! Quem olhar para mim comendo eu jogo o prato de comida na cara!”.

A primeira Virada Cultural da era bolsonariana embutia duas preces. A primeira, que não se permita que haja uma segunda edição sob esse signo da falência da razão. A segunda, que a criação artística possa voltar a não se preocupar com a repressão, a censura e o estrangulamento das vias de circulação, financiamento e produção.

O número de homens, mulheres e crianças de rua era assombroso. Não há estatística para referendar um comentário dessa natureza, até porque houve gestões anteriores, como as de Serra e Kassab, que atuaram de forma higienista nesses dois dias, expulsando os moradores de rua do centro. Mas, comparando-se ao período Haddad, já foi um choque. Um Brasil sem esperança gemia nas calçadas, pedia nas barracas, grunhia nos becos.

Sintomático que a mais evidente vítima dos desarranjos desse período tenha sido o Compadre Washington, do É o Tchan, assaltado e espancado perto do Largo do Arouche, no centro de São Paulo. Washington providenciou diversão para as multidões durante quase duas décadas frente ao seu grupo, mas também amarga uma reputação de manipulador, de ambiguidade comportamental.  

Há um tom de desforra no ar, e ele não está só na declaração de Caetano Veloso (“Dia 30 vai ser maior ainda”). Foram 5,5 mil pessoas abordadas pela polícia, e 43 presas durante as 24 horas do evento. Parece que não apenas a violência, mas a vontade de dar o troco, de revidar, está nas mentes e corações.

O cantor Silvio Brito lamentou publicamente que, na retrospectiva dos anos 1970 da Globo, tenha sido escanteado. Seus megasucessos, como “Tá Todo Mundo Louco” e “Para o Mundo que Eu Quero Descer”, foram solenemente ignorados, reclamou. Ele conclamou a plateia a cantar consigo como na sala de sua casa, esquecendo as listas e as tendências “ditadas pela mídia”. Nesse intento, cantou até “Love of My Life”, do Queen.

Por alegada falta de dinheiro, no palco Tributo a Raul Seixas (em pleno ano em que se chora o 30º aniversário de sua morte), a Prefeitura cortou duas das quatro atrações programadas, reduzindo drasticamente a celebração para manter o tempo adequado das atrações principais, como Pitty e Sepultura.

Na Avenida Paulista, ao meio-dia de domingo, a multidão saía do Sesc Paulista pela calçada afora para ouvir um Brasil que não tem como ser derrotado: Maria Alcina, ladeada pelas gêmeas Célia e Celma, revisitava o repertório consagrado por Inezita Barroso. Como se os Sescs tivessem se tornado bunkers de segurança e imunização contra as ignorâncias, as plateias lotaram os centros culturais, os auditórios e as praças.

Na Luz, o reggae da banda One:20 esquentava a tarde para o novo one hit wonder do Brasil, Vitor Kley, com quase sucessos como “Me Leva”. “Lembra?/ a gente vivia por dois/ era tão lindo/ lembra?/ grana acabando/ e a gente sorrindo”.

Poucos artistas foram mais incisivos, pareciam desanimados. Mas a diva do tecnobrega, Gaby Amarantos, não caiu na tendência. Chutou o balde com notável desenvoltura: “Que a nossa arma seja a música. Que a nossa arma seja a cultura. Que a nossa arma seja a educação”.  Gaby cantou a música tema do filme Serial Kelly, do alagoano Renê Guerra, rodado em 2017 e ainda sem tela. “Psycho Kelly” é sob medida para esse tempo de machistas, misóginos e racistas que vivemos agora, ela diz. No filme, ela vive uma cantora de forró que se revela uma assassina justiceira durante uma turnê por Alagoas, exterminando machistas e homofóbicos. De novo, a pauta da desforra justa.

Apesar de Gaby ter celebrizado o refrão “eu vou samplear, eu vou te roubar”, a nova canção “Psycho Kelly” obteve permissão de David Byrne para usar a base de “Psycho Killer”, dos Talking Heads.  “Respeitem as minas. Respeitem as bichas”, cantava Gaby.

Na Virada Cultural de 2018, havia um uníssono em torno do “Fora Temer”. Era um desejo comum, ejetar um usurpador sem projeto, um golpista ocasional, cuja única pretensão era salvar a própria pele e a de seus cúmplices. Na Virada Cultural de 2019, a falta de projeto parece ter momentaneamente vencido. Todo mundo parecia estar emergindo de um sono profundo.

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