Fisicamente, Léo me lembrou Nelson Gonçalves.
Para ser apresentado a ele, me disse meu anfitrião, o requisito era que eu tivesse alguma qualidade prévia que ele reconhecesse.
– “Léo, foi esse cara aqui que escreveu aquele encarte do disco do Trio Mocotó com o Dizzy Gillespie”.
Léo então abriu um sorriso e me estendeu a mão.

Estamos no Bar do Léo, em São Luís do Maranhão.
Fica no bairro de Vinhais, dentro de um mercado de frutas, peixes e alimentos de diversos tipos. Fica longe, mas ninguém acha isso um impedimento.
O próprio Léo foi empregado de uma daquelas lojas do mercado, e ao longo do tempo, me contaram, foi comprando quiosques até ocupar um corredor inteiro com seu bar.

Logo de cara, os alto-falantes, que parecem de quermesse de igreja do interior, começaram a ecoar Último Desejo, de Noel, com Gal Costa (e o violão de Marco Pereira no acompanhamento).
Um gole numa Skol, outro gole numa tiquira – uma pinga de mandioca azulada que é popular na região -, e está iniciada a conversão.
Sobrevém uma primeira sensação de vertigem, que acho que vem da vontade de ver em uma única panorâmica todos os objetos pelas paredes, objetos magnéticos que fazem o olhar virar num sobe e desce contínuo.

Os objetos nas paredes pareciam descrever a mim mesmo (mas eu não serei o primeiro nem serei o último a ter essa sensação ali): trenzinhos de madeira, mandalas pagãs, paneleiras, bonecos de argila, taxímetros antigos, telefones, trombones, violinos, cowbells, remos, máquinas de escrever, o teto coalhado de discos de vinil, uma torre de velhos rádios, a foto de Altemar Dutra, um autógrafo de Elomar, a foto de Nara Leão, reproduções de pinturas de Almeida Júnior.
Há uma réplica de um míssil de submarino pendurada acima das cabeças.
Os lustres são de redes de pesca.
Coisas despidas de utilidade. Coisas reinvestidas de utilidade. Muitas delas contando a própria história pessoal do Léo, como um bote com o nome da filha adolescente, Helena.

O bar é o oposto da propriedade privada: nenhum bar te pertence e, se tu abrires um, não o amarás mais. Há nele um ar de transitório, de provisório, e o jeito de se aconchegar se dá pelos resíduos, não pelo que promete de permanência.
Daí o sentimento de liberdade que o bar dá, que é anterior ao primeiro gole: não queres possuí-lo, queres no máximo reparti-lo com os que ama e que saberiam apreciar aquela grandeza.

Ali no Léo voltei a ouvir muitas músicas das quais já tinha me esquecido, ou outras das quais nunca tinha nem mesmo ouvido falar (mas poderia jurar que tinha). Algumas ele procura em fitas cassete, algumas em vinil, outras em CDs. Muitas vezes ele coloca até três vezes a mesma música com intérpretes diferentes. As canções, para ele, funcionam como âncoras culturais, não é um DJ da vaidade alheia.
Assim, sua programação musical é um relicário de afetos.

As garçonetes todas mulheres, a porção de tripa, a generosidade da carne de sol afundada na cebola e em miúdos pedaços de tomate. Os últimos jornalistas boêmios. Os últimos jornalistas. Os novos poetas que dominam o texto & o delírio, os quais acabara de ouvir declamando no Mirante dos Poetas e agora bebiam comigo.
“As primeiras lápides com hashtags”, declamou Caco Ishak, de Belém do Pará, e aquele verso ficava rimbombando na minha cabeça.

O Bar do Léo parece potencializar a experiência-relâmpago maranhense: as Farmácias do Povo; a palafita que a maré deixa ora esguia ora romária; o tambor de crioula que hipnotiza os franceses; o carroceiro que esquece o cavalo e a carroça no sol, o cavalo aflitivamente com o queixo carcomido pelo freio de aço.

Não queria escrever sobre o Léo porque acho meio superficial falar dos lugares e das coisas com um olhar de turista, um olhar de passante.
Mas me lembrei de Baudrillard e do livrinho América, e também de Sartre e seu New-York, Ville Coloniale, retratos extraídos de uma única viagem, e achei desculpa para arriscar também meu relato.

Contra o dinheiro curto, a memória curta, a última conta que não tinha como pagar, ainda assim o saldo foi de três bares lindos na lembrança: o Léo, o Chico Discos (uma maçonaria psicodélica num grande sobrado misterioso) e o bar sem nome que havia no enclave da pequena cracolândia do centro histórico – bar em que Roseana Sarney, Ivete, cédulas e moedas coladas na parede formavam uma espécie de altar ao Deus Dará.

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