
Uma eleição permite muitas comparações, mas muitas vezes não as fazemos por falta de tempo ou oportunidade. Agora, com a inevitável comparação entre os feitos dos candidatos à presidência, é possível perfeitamente ver que o cerne da questão nem é a prodigalidade da ação governamental de Luiz Inácio Lula da Silva, já que persiste um empate técnico de sondagens públicas entre ele e o adversário (que só tem um projeto aprovado em 8 anos de mandato como senador da República).
Como não parecem suficientes as comparações de ações públicas entre os candidatos, imaginei que poderia tentar pular uma casa e comparar os vices de cada candidatura. Temos, de um lado, Geraldo Alckmin (PSB-SP), e do outro o deputado Alberto Gaspar (União Brasil-AL).
Alckmin, só com sua folha corrida de ex-governador de SP (de 2001 a 2006 e de 2011 a 2018), seria um candidato de peso para postular qualquer cargo público. Nos anos 2000, Alckmin inaugurou o trecho oeste do Rodoanel de São Paulo, crucial na malha viária nacional. Construiu a segunda pista da Rodovia dos Imigrantes, um alento para o paulista que segue em direção ao litoral. Criou o Poupatempo, que quem procura normalizar sua documentação sabe a importância. O programa Bom Prato, que oferece restaurantes a preços ultrapopulares. Criou a Bolsa Eletrônica de Compras, sistema digital de compras do governo. Reduziu a evasão escolar em São Paulo. Melhorou a expandiu significativamente a rede de Fatecs (as Faculdades de Tecnologia do Estado de SP), criando unidades em diversas cidades do Estado, como por exemplo Cruzeiro, Carapicuiba, Itaquera, Campinas e Cotia. Seu investimento nas ETECs (Escolas Técnicas Estaduais) resultou num expressivo crescimento da rede pública de educação profissional (o número de ETECs saltou de 126 para 219 unidades durante a última década de sua gestão). Criou o Centro Paula Souza, um gigantesco complexo educacional integrado à ETC Santa Ifigênia. Fez construir a Linha 4 Amarela do Metrô de São Paulo.
No atual governo, Alckmin atuou em diversas frentes, uma delas para fazer recuar o primeiro tarifaço do governo Trump contra os produtos brasileiros, flagelo articulado pelo condenado Eduardo Bolsonaro (em fuga no momento nos Estados Unidos). Mas também, à frente do Ministério da Indústria e do Comércio, que acumula com a vice-presidência, ajuda a negociar um marco legal para a taxação do streaming estrangeiro no Brasil.
Já o candidato a vice na chapa do senador filho do condenado Jair Bolsonaro, Alfredo Gaspar, tem três projetos de lei aprovados em sua carreira parlamentar. Um deles, aprovado em junho deste ano, cria a Rota Turística das Cidades Coloniais Alagoanas, que inclui 7 municípios. A rigor, a rota não trouxe benefício algum para nenhum dos municípios incluídos. Outro projeto de lei de Gaspar criou o Dia Nacional do Policial Penal, festividade que talvez não possa ser transmitida ao vivo quando comemorada, por estar o profissional em questão em prédios de alta segurança. Há ainda uma terceira, com medidas para tentar reduzir impactos das enchentes do Rio Grande do Sul no turismo.
O União Brasil de Alfredo Gaspar está no foco da Polícia Federal nesse momento. A PF prendeu no último dia 15 um dos seus expoentes, Márcio Canella, ex-prefeito de Belford Roxo (RJ) e o segundo deputado estadual mais votado do estado nestas eleições. Canella foi preso durante a oitava fase da Operação Unha e Carne, sob acusação de participação em organização criminosa armada e lavagem de dinheiro. Em abril de 2026, o candidato Flávio Bolsonaro (PL) publicou um vídeo declarando “apoio integral, 100%” à pré-candidatura de Canella ao Senado pelo Rio de Janeiro, chamando-o de “amigo” e “competente”.
Recaía sobre Alfredo Gaspar, como se sabe, um feito que ganhou mais relevo face a tão expressiva ação pública: ele era acusado de ter engravidado uma menina de 13 anos em seu Estado Natal. Ele alegava que o crime era responsabilidade de um primo seu. Este mês, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes, arquivou um pedido de inquérito contra o deputado por conta daquela acusação.
Como se vê, é muito fácil decidir.
Tem gente que se preocupa (em geral, falsamente) com a idade e a saúde de Lula, alegando que o presidente não teria gás para governar mais quatro anos. Esse “wishful thinking” do Mal também defende que o adversário de Lula, com 45 anos, representaria uma promessa de vigor num eventual governo. Bom, apenas para lembrar: quando concorria à presidência, Eduardo Campos tinha 49 anos. O avião dele, como sabemos, caiu com o candidato. Sua vice seria Marina Silva, uma escolha política tão à frente do seu tempo que o eleitor de 2026 não entendeu e, em seu lugar, votou em um troglodita de carreira para o Senado.
Mas se é esse o argumento do seu vizinho, então ele está duplamente equivocado: além de Lula ter uma saúde de ferro, seu vice é a garantia da continuidade de um governo comprometido com a democracia e que ouve os diferentes setores da sociedade para definir suas direções.
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