O ex-secretário de Cultura Mário Frias com o atual diretor presidente da Ancine, Alex Braga Muniz

Em postagem na tarde desta segunda-feira, 25, em sua página no Twitter, o secretário Especial de Cultura do governo Bolsonaro, Mario Frias, admitiu pela primeira vez que atuou pessoalmente para evitar o financiamento ao filme Marighella, de Wagner Moura e produzido pela 02 Filmes. “Achou que ia pegar verba comigo para esse lixo panfletário?”, afirmou o secretário, que chamou o diretor Wagner Moura de “psicopata” e acusou a produção de idolatrar um “terrorista abominável”.

Evidentemente, a fala de Frias, dada sua escassa credibilidade como figura pública, pode ser encarada como um blefe, porque o processo de admissibilidade de financiamento público a um projeto audiovisual é primazia da Agência Nacional de Cinema (Ancine) e deve seguir critérios eminentemente técnicos. Mas os acontecimentos que cercam a trajetória de “Marighella” dentro da máquina burocrática da Ancine parecem, infelizmente, dar razão a Frias e confirmar a ação política subterrânea como fundamento do boicote ao filme, que foi concluído em 2019 e desde então aguardava autorização para exibição comercial nos cinemas brasileiros (já foi visto em todo o mundo).

Ao escrever no Twitter, Frias aparentemente reagia à entrevista de Wagner Moura ao jornal “O Globo”, na qual o ator e diretor chamou Jair Bolsonaro de psicopata e vaticinou que o destino do presidente, acusado pela CPI da Covid de 10 crimes, é a prisão. Então, agindo mais como se fosse um capanga do que como servidor público, o secretário tomou as dores do mandatário e saiu disparando virulências.

Não é a primeira vez que Mario Frias admite ingerência em processos públicos para exercer o poder de forma discriminatória e despótica. Na semana passada, furioso com um artigo do cineasta Cacá Diegues no mesmo O Globo, que afirmou que a gestão federal da cultura está coalhada de “playboys milicianos”, Frias se doeu e afirmou que vai processar Diegues “civil e criminalmente” pelo artigo. Mas não ficou nisso. Acusou o cineasta de pegar dinheiro de um filme (não disse qual) e “(…) ao invés de gastar com divulgação do filme, você torrou em hotel de luxo”. Mesmo que haja prestação de contas que aponte alguma irregularidade em alguma produção de Cacá Diegues, essa informação é sigilosa e do âmbito da Ancine, que tem autonomia de gestão em relação ao governo federal e não pode ceder informação interna para uso político. Isso é crime. Para demonstrar sua proximidade com a direção da agência, Frias postou foto no último dia 21 ao lado de Alex Braga Muniz, presidente da Ancine, com uma citação do escritor inglês G.K. Chesterton: “A lealdade perdura inclusive na derrota, ou até mesmo na desgraça”.

Em entrevista a Pedro Bial, da Globo, Wagner Moura disse: “Não tenho nenhum problema em dizer que nós fomos vítimas de censura. Não a censura que havia durante a ditadura em que você tinha que mostrar trabalho para o censor […] Mas uma censura que inviabilizou a existência do filme”, ponderou. “Quando os pedidos (de financiamento público) foram negados, os filhos de Bolsonaro comemoraram na internet […] Bolsonaro parou a vida dele de presidente pra gravar um vídeo falando mal do filme, de mim”, afirmou o ator. À revelia de todas as dificuldades, o filme Marighella está previsto para estrear no próximo dia 4 de novembro em salas do Brasil.

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