“Poucos se atrevem”, concordou, rindo, o percussionista e compositor paulistano Ari Colares, de 62 anos, um pouco antes da sua apresentação na noite deste sábado na Casa Odette (Bixiga), ao comentar a rarefeita possibilidade de se ver um show solo de um percussionista no Brasil – além dos lendários Naná Vasconcelos e Hermeto Pascoal, é de fato algo muito pouco usual. Mesmo o mitológico Laudir de Oliveira (1940-2017), ao voltar a viver no Brasil, fazia shows muito esparsamente. Mas Colares, com uma sólida carreira de 45 anos (toca desde os 17, quando iniciou com o Grupo Abaçaí), na qual integrou formações de artistas e grupos como Palavra Cantada, A Barca, Chico Saraiva, Zizi Possi, e tocou com gente como Winton Marsalis, Egberto Gismonti, Cesar Camargo Mariano, Yamandu Costa, Nailor Proveta, Monica Salmaso e Arnaldo Antunes, resolveu encarar.
Mais do que isso: Ari Colares dispôs-se a mostrar o imprevisível alcance da música instrumental que se alimenta da matéria-prima da cultura popular, mas não a enxerga como um monolito de formas petrificadas. Pelo contrário, ocupa-se de alargar sua imanência, sua irradiação e, dessa forma, ajudar o ouvinte a conhecer um pouco mais de si mesmo. Entre candomblé e uns eflúvios de Mendelssohn; reizado, folia de reis e tambor de criola e choro; capoeira angola e síncopes improvisacionais das big bands; entre o udu (uma moringa de barro percussiva com um buraco), o berimbau ou aalfaia, o som de sua apresentação aponta para a cosmogonia, para a assunção de um universo onírico e ancestral.
Ari Colares e a Canoa é o nome do show que ele apresentou nos jardins sob as nuvens da Casa Odette, na Bela Vista. Colares explicou a escolha de usar o título de uma canção, Canoa, como nome da formação de seu grupo de palco. Em geral, disse o percussionista, a tradição do jazz é que regra o batismo dos agrupamentos, tipo Ari Colares Trio, Quinteto Ari Colares, Quarteto Colares, coisas do tipo. “Mas eu não sou jazzista, então não achei que fizesse sentido”. Preferiu uma saída mais abrangente: Canoa foi uma canção, contou, que ele compôs em uma semana “off” durante uma turnê por Canoa Quebrada, no Ceará. Sem compromissos durante 7 dias, ele começou a compor a partir de uma experiência com as tradições da folia de reis e do reisado locais.
As viagens e as revelações dos encontros são parte de toda a jornada. A noite foi aberta com Quilombo, também composição do percussionista, essa nascida de uma experiência do artista em Juazeiro do Norte, também no Ceará. Região de abrangência do reinado de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, é curioso perceber, no som do grupo A Canoa (e também talvez pelo fato de que a fabuosa Ariane Rodrigues tocou um pífano nessa música), que ela parece explicar um universo de sonoridades que viveu uma diáspora do sertão nordestino em direção ao Sudeste em meados dos anos 1940.
Enquanto vai apresentando os números musicais, Ari Colares explica os fundamentos daquilo que está apresentando e a origem daquelas composições, que guardam estreita conexão com sua iniciação nos terreiros de candomblé, algumas delas diretamente ligadas aos ensinamentos de mestres como o ogã Sapopemba (o alagoano José Silva dos Santos, cantor e percussionista que trabalhou como pintor e motorista de caminhão em São Paulo), guardião de matrizes afrobrasileiras, com quem Colares tocou.
Artífice de uma discografia que tem um pé nas tradições de folguedos nacionais, como Danças, Jongos e Canções (de 2003, com a Orquestra Popular de Câmara), ao mesmo tempo em que é educador e estudioso de recursos músico-pedagógicos, Ari Colares montou um espetáculo que mergulha o espectador na vastidão da imaginação brasileira. Ladeando o percussionista, está uma espécie de mestre de cerimônias do conceito, o baixista Ricardo Zoyo, fazendo a marcação do pulso do show, e a sensacional parceria siamesa com Alê Ribeiro (que toca clarinete, clarone e sax). Nascido em São Simão, no interior de São Paulo, Alê Ribeiro, revela o anfitrião da noite, descende de uma família que segura uma tradição de um século e meio de Folia de Reis no coração do Brasil. Do lado direito do percussionista Viviane Pinheiro, no teclado, um instrumento que poderia parecer uma heresia em face do conceito, pontuava tudo com seu toque impressionista.
Espalhando-se pelo Bixiga a partir do jardim do casarão de 125 anos restaurado na Rua Rui Barbosa, o som de Ari Colares e a Canoa aponta para o manancial absurdo da nova música instrumental, aquela que se acostumou a encontrar seus próprios atalhos para seguir fazendo da música brasileira uma das mais ricas do planeta, as nossas verdadeiras terras raras.

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