O poeta Luis Turiba em 1979 durante o happening "Concerto Cabeças", 312 Norte, Brasília Foto de Juvenal Pereira

meu coração é uma uva

pulsa explode abusa pluga

meu coração é rebelde

vive ameaçando greve

Safenado em 2010, o poeta pernambucano (criado no Rio) Luis Turiba usou a circunstância da cirurgia, dos problemas cardíacos recorrentes e a saúde frágil para fazer (ainda) mais poesia. Chamou o bisturi do cirurgião de Bisturiba. A sequência de poemas que manufaturou com esse tema é deliciosa.

tenho três fecho-escleres no corpo

um no peito

outro no pulso

o terceiro na panturrilha esquerda

o do peito, abro-o três vezes ao dia

para dar corda aos mecanismos

o da panturrilha é só para as emergências

quando necessito pegar no tranco

ando ando ando

até ligar os tamancos

quanto ao do pulso

me faz sentir um ser avulso

desses que não estão em liquidação

por 1,99 o coração

Além de poeta e jornalista de faro, Turiba era compositor e sambista (chegou a disputar um samba-enredo na Beija-Flor de Nilópolis com o codinome de Tutuca da Cuíca). E como será que se sai um poeta como assessor de imprensa? Pois bem: Turiba também encarou essa atividade por algum tempo: foi da equipe de comunicação do ex-ministro Gilberto Gil. Mas era um assessor muito heterodoxo. Não raro, alertava que a pauta que estava vendendo era irrelevante. “Cumpro minha obrigação, mas não seja tolo, não perca seu tempo”. Por outro lado, quando o assunto era realmente fundamental, ele se transmutava, virava o próprio fato.

Um dia, em 2004, Turiba ligou para desafiar os repórteres mais ensandecidos a rumar para uma aldeia da etnia Bororo nas imediações de Rondonópolis, no Mato Grosso. Gil tinha se decidido a colocar seu ministério a serviço de ações voltadas a projetos de resgate e apoio à cultura e à cidadania indígena. De noite, em torno de um projeto de uma oca modelo e fogueiras e danças, Gil discursou para os Bororo. “Essa é a face do futuro”, exultava Turiba. A aldeia estava na mesma rota da viagem que o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss tinha empreendido quando escreveu Tristes Trópicos, nos anos 1930. Figura elétrica e cheia de planos, Turiba ajudou o governo, enquanto esteve lá, a formatar um projeto cultural celebradíssimo, os Pontos de Cultura.

Como poeta, sua ação é de se estudar em escola. Ele editou em Brasília, em 1985, a fenomenal revista Bric-à-Brac, de poesia visual, ao lado de Lúcia Leão, João Borge e Resa. Publicava Leminski, Nicolas Behr, entre dezenas de outros visionários. Frasista incorrigível, ele cunhava boutades e neologismos à mão cheia. “Ou a gente se Raoni ou a gente se Sting”, disse certa vez (conforme lembrou hoje o editor e amigo Sergio Cohn). Como jornalista, trabalhou em O Globo e Manchete no Rio, depois na Gazeta Mercantil, no Jornal do Brasil e no Correio Braziliense, em Brasília. Ganhou dois prêmios Esso, um regional e outro cultural. Cobriu a construção da Transamazônica e o garimpo de Serra Pelada. Ao final da experiência com Gilberto Gil, editou um livro com os discursos do cantor baiano intitulado Do-In Antropológico, além do musical Gil na ONU.

Luis Turiba nasceu Luiz Arthur Toríbio. Convenhamos que Turiba é muito mais legal. Amava Vladimir Maiakovski, rabada e vatapá. Tinha 18 anos em 1968, tempo em que oscilava entre a militância política e o chamado de Dioniso. “minha primeira foice martelo guitarra tamborim”, escreveu. “minha opção pela luta armada, depois de um beijo na namorada”. Acabou traficando poesia no coração da política.

Nesta quarta-feira, 26 de agosto, em Salvador, o coração do poeta Luis Turiba finalmente lhe pregou uma peça definitiva e estancou.

coração, órgão bomba

bicho-doido solto sombra

involuntário da pátria

que horas são coração?

coração mais sem graça

faz veneno sangue bom

vai bombando toda ação

nem avisa as ameaças

vem coração sem trapaça

vem dar tua artéria à tapa

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