Em cartaz nos cinemas brasileiros a partir desta quinta-feira, 28, o documentário Copan penetra de modo original no monstro de concreto em forma de S imaginado pelo arquiteto Oscar Niemeyer e plantado há 60 anos no centro da cidade de São Paulo. Assinado pela cineasta gaúcha Carine Wallauer, o filme constrói uma dramaturgira particular, desapegada de convenções jornalísticas do formato – não há nenhuma entrevista, nenhuma narração didática em off, nenhuma exploração sensacionalista dos personagens e das coisas do Copan. À primeira vista, parece um apanhado aleatório e fragmentário de cenas, situações e conflitos internos no coração do Copan.
O documentário de Carine, moradora do edifício durante sete anos, se constrói acima de tudo a partir da observação (apartentemente) neutra e estática do cotidiano daquela cidadela vertical. Dois dos cinco sentidos saltam à frente na abordagem (aparentemente) distanciada a diretora: a visão e a audição. Imagens inicialmente paradas evoluem sem pressa, enquanto vão dando a perceber detalhes, movimentos sutis, vozes, ruídos, músicas e elementos poluentes que bailam dentro de um quadro (nada) estático.
De início, parece que Copan adotará um vício básico do jornalismo, de rejeitar a banalidade da vida corriqueira e procurar apenas o exótico, o estranho, no limite o infeliz e o desgraçado. Tal como nas páginas do noticiário político e econômico, ninguém parece ser feliz nos primeiros minutos do documentário, mas felizmente esse é um despiste de partida. A vida evolui de modo mais complexo da primeira à última e vertiginosa cena. Logo saberemos que não estamos no território poluído do jornalismo político-policial, do velho Notícias Populares, dos programas televisivos de mundo-cão, do noticiário que pinga sangue quando espremido. Não é um Globo Repórter, muito longe disso.
A diversidade de modos de vida dentro do serpenteante edifício explode na tela enquanto a câmera se põe a observar, silenciosamente, os corredores curvos do imenso bloco B, o trabalho divertido do DJ e rapper KL Jay, uma stripper que se exibe em frente ao notebook, o trabalho de limpeza da galeria térrea na madrugada, a abertura da loja de quinquilharias, o trabalho burocrático na administração, o Café Floresta, a solidão na locadora de DVDs (sim, ainda há uma locadora de DVDs no Copan), o trabalho da arrumadeira do Airbnb, o papo no refeitório dos funcionários, as catacumbas das garagens, a cartomante que joga o tarô, as impressionantes escadas externas em caracol (como na foto que abre este texto), o terraço deserto, a conversa sobre tortura e ditadura no salão de cabeleireiros, a agitação feérica no boteco vizinho Copanzinho…
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O desenho de som se revela uma das vedetes do filme, conforme se percebe a costura inteligente que solda de modo inesperado imagens e sons captados em locais e circunstâncias diversas. Por exemplo, um funcionário inspeciona o terraço ao anoitecer, ao som de um violino que toca o Hino Nacional. As imagens seguintes revelam que quem toca o violino está mais de 32 andares abaixo, no subsolo. É o pintor de paredes do edifício, Alberi Carvalho, que (esta parte já apareceu em reportagens, mas o filme não conta) nas horas, digamos, vagas é também pintor de quadros no ateliê-oficina que ele mesmo montou num vão dos labirintos das garagens – e violinista.

Num dos melhores momentos de Copan, a montagem adota o artifício genial de fundir imagens estáticas de várias portas de apartamentos com sons e assuntos diversos, como se a câmera escutasse trechos saborosos de conversas dos moradores por trás das portas. Se a tabuleta de uma porta adverte que “cuidado: gatinho bravo”, por trás de outra um cachorrinho rosna incessantemente enquanto o morador humano tece queixas (várias queixas): “Todo mundo está estressado nesta casa, até o cachorro”.
Bombardeando mitos e falácias sobre a objetividade e a neutralidade da mídia, Copan adota uma inescapável perspectiva de classe, privilegiando o movimento e as aflições de um exército de trabalhadores do prédio – o audaz limpador dos brises horizontais de concreto que compõem a fachada, o elenco numeroso de porteiros, os encarregados da remoção de dezenas e dezenas de sacos de lixo das entranhas do prédio, bombeiros e vigias das escadarias externas, as lavadeiras do Airbnb etc.
Por falar em Airbnb, a câmera de Carine Wallauer observa a certa distância um inacreditável escritório de recepção do Airbnb no térreo, um “hub” de conexão entre arrumadeiras, hóspedes e lavanderias clandestinas, como se o Copan, além de moradia, fosse (é?) um hotel pós-moderno da era dos aplicativos escravagistas. Ironicamente, a invasão de aplicativos de hospedagem trouxe o Copan de volta à própria origem – a sigla vem de Companhia Pan-Americana de Hotéis e Turismo, a empresa que pilotou a construção do edifício.
Se por um lado a perspectiva de consciência de classe diverge daquela preferida pelo jornalismo corporativo, por outro ela o imita num ponto: a direção invisibiliza as classes sociais ditas elevadas que também povoam o Copan, projetado por Niemeyer para fazer conviver moradores de grandes apartamentos e de quitinetes. O filme não expõe nem investiga os ricos do Copan. Quando muito, espia a dona da floricultura sofisticada da galeria e exibe um frequentador idoso que faz exercícios fisioterápicos no terraço constantemente interditado, com acesso portanto a uma paisagem urbana monumental quase sempre negada à maioria de copanenses, paulistanos, hóspedes do Airbnb, brasileiros e terráqueos em geral. A tal Companhia Pan-Americana de Hotéis e Turismo não tem sido turística a esse ponto.
No desenrolar do enredo, a impressão de mosaico fragmentário se dilui à medida que se delineiam dois fios condutores principais. O primeiro é o já citado recorte de classe. O segundo, que se insinua sutilmente na progressão das cenas, é jornalístico e (aparentemente) obediente aos dogmas de neutralidade do jornalismo: Copan acompanha em paralelo dois processos eleitorais, a reeleição do síndico Affonso Celso dos Prazeres para sua 16ª gestão consecutiva e a disputa presidencial de 2022 entre Luiz Inácio Lula da Silva e seu adversário de inclinações transparentemente fascistas. Parte significativa de Copan foi filmada no dia da terceira eleição de Lula.
O tempo ainda é de pandemia, portanto máscaras passeiam para lá e para cá. Em flagrantes dispersos pelo filme, a câmera de Carine se mistura à assembleia virtual de re-re-reeleição de Affonso, captando bate-bocas, acusações de autoritarismo e corrupção, teorias de conspiração, xingamentos de “ditador” e outras pancadarias virtuais. Affonso aparece discutindo com moradores ao telefone na administração, defendendo sua gestão ao microfone da assembleia virtual e desfilando com sua esposa pela galeria térrea. Ele resiste em Copan como um personagem enigmático, mas frequente, resquício de ditaduras (quase) mortas, num Brasil de mandatos (quase) perpétuos na medicina, na música, no judiciário, na televisão, no jornalismo corporativo, na política…
Se o síndico se perpetua há 16 mandatos, a alternância de poder se desenrola sangrenta na disputa presidencial de 2022, e o filme traça um painel aparentemente neutro da guerra de nervos no Copan. Alterna-se entre camisas verde-amarelas e gritos de “Lula lá” e de “fora Lula”. Ora um manifestante camisa-verde-amarela repete “wonderful Brazil” (em inglês) com a fachada da Igreja Renascer (abandonada há anos e anos) ao fundo, ora a multidão boêmia vai ao delírio com a confirmação da vitória de Lula no Copanzinho.

Noutro ponto alto, o filme flagra a “polarização” instalada entre os trabalhadores do edifício, em debates veementes e afinal na comemoração comedida, mas intensa dos funcionários lulistas. Ao final, Copan não segue o dogma da mídia “neutra” e parece, sim, definir seu próprio lado entre a ditadura e a democracia, entre a direita e a esquerda, entre a “verdade” e a liberdade.
O filme não menciona, mas o controverso síndico-prefeito Affonso Celso dos Prazeres (que segundo muitos “moralizou” o Copan durante mais de três décadas de mandato) morreu no ano passado, aos 86 anos, sem testemunhar a estreia de Copan nos cinemas – mas ainda no poder. Um detalhe reluz sempre que os trabalhadores do edifício protagonizam a obra de Carine Wallauer: todos levam presa num dos ombros uma minúscula bandeira do Brasil. À sua maneira, Copan é, afinal, um documentário jornalístico e político, de boa e viçosa cepa.



