Há quase 20 anos, a cantora norte-americana Stacey Kent veio ao Brasil pela primeira vez, impulsionada pelo êxito de um disco singular, Breakfast of the Morning Tram (Blue Note Records, 2007), pelo qual foi indicada ao Grammy como Melhor Cantora. No território do jazz, “êxito” é uma palavra que deve ser usada com cautela. Mas ela cantou para uma plateia de 7 mil pessoas em São Paulo, o que atestou uma sedução consistente. Depois daquela viagem, veio quase todos os anos ao País, como revelou, em entrevista ao FAROFAFÁ esta semana. Seguiu estudando português, aulas que já frequentava devido a sua paixão por João Gilberto.
Lançando seu 13º disco de estúdio, A Time for Love, com um saldo de um bilhão de streamings de sua voz em discos anteriores, a cantora estreitou os laços com o Brasil e aprendeu plenamente a falar português. Colaborou com Marcos Valle, Roberto Menescal e diversos outros, além do célebre quarteto francês, o Quatuor Ébène. Mas o desafio nunca cessa, como ela mostra nessa conversa.
FAROFAFÁ: Olá, Stacey. Faz bastante tempo, quase 20 anos. Da última vez, você falou duas frases em português e prometeu que, na próxima, falaria apenas em português. E está cumprindo a promessa.
STACEY KENT: Uau. Não estava mentindo, não é?
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QUERO APOIARFAROFAFÁ: Quanto tempo faz que você não vem aqui cantar?
STACEY: Ah, eu fui muitas e muitas vezes. Só não no tempo da Covid. Logo depois da Covid também foi um pouco complicado. Eu estava fazendo uma turnê longa, tive de interromper, mas é difícil lembrar de um ano em que não estive no Brasil. No ano passado, cantei com Danilo Caymmi, porque estamos trabalhando juntos num projeto celebrando a música de Jobim.
FAROFAFÁ: Me diga uma coisa: esse projeto com o Danilo Caymmi está em processo?
STACEY: Sim, ainda está. Danilo gravou um disco com a música de Jobim, Danilo Caymmi canta Tom Jobim (Universal Music, 2016). É muito lindo esse disco. E ele me convidou e também a meu marido Jim (Tomlinson, saxofonista, produtor e arranjador). Então, cantamos juntos a Estrada do Sol. É de manhã, vem o sol e os pingos da chuva que ontem caiu. Danilo me pediu de começar um projeto que se chama Um tom sobre Jobim. E fizemos esse projeto o ano passado na Europa, nos Estados Unidos, no Brasil. E foi incrível. É uma colaboração tão linda que Danilo, e o time dele, pediu para nós continuarmos neste projeto. Então, vamos continuar no ano que vem (2027).
FAROFAFÁ: E agora você tá lançando esse disco novo, A Time for Love. A Time for Love é uma música do repertório do Tony Bennett, não? Tony foi uma influência para você?
STACEY: É isso mesmo. Sim, Tony foi uma influência. Mas a música, as letras… O Paul Francis Webster (compositor da faixa) é parte da minha sensibilidade.
FAROFAFÁ: Entendi. Você vai mais pelo caminho da canção do que do intérprete. Ela te diz o caminho.
STACEY: Se eu tivesse que escolher uma influência, teria que escolher João Gilberto.
FAROFAFÁ: Ah, sim. Você me falou uma vez muito sobre Amoroso, o disco, né?
STACEY: Sim. É ainda é um dos meus preferidos. Amoroso, voz e violão, muitas coisas… O João Gilberto, em 2007, era o músico mais importante para mim. Se eu fosse escolher uma pessoa só, e tem muitos, muitos, claro, o número 1 na lista é João Gilberto. Foi assim em 2007 e continua a ser assim em quase 2027.
FAROFAFÁ: E me diga uma coisa: por que João Gilberto? Cada pessoa tem uma explicação, né? Tem muita gente que tem explicações técnicas, porque João Gilberto era uma busca da perfeição, um tipo de obsessão pelo pelo som perfeito. Mas no seu caso, o que tem João Gilberto que te fascina tanto?
STACEY: Bom, claro, podemos falar sobre isso, as coisas técnicas. O fato que ele pode cantar e tocar ao mesmo tempo como se fosse duas pessoas diferentes. Mas vamos voltar àquela garota, aos 14 anos, que não pensava em nada sobre coisas técnicas, simplesmente ouvindo a voz e o violão desse artista, somente ouvindo. Oh, my god! O que é isso. What is that? Porque eu ficava completamente capturada pela voz e violão daquela pessoa. As coisas que eu amava naquela época, e que eu amo ainda, que me tiram do chão, são o fato que ele pode cantar numa maneira tão humana, baixa, como se fosse uma conversa entre mãe e bebê, mas ao mesmo tempo com uma intensidade, uma intensidade absolutamente sem drama. E eu ficava lá escutando essa voz, pensando: como ele pode me pegar, capturar asim? Fazendo tão pouco assim?
FAROFAFÁ: Com tão poucos elementos, não?
STACEY: Com poucos elementos. Nós usamos uma palavra em inglês, eu não sei a palavra em português, você pode ensinar hoje mesmo. É “triage”. A palavra que você usaria lá no hospital para separar a gravidade dos pacientes.
FAROFAFÁ: É a mesma coisa, triagem.
STACEY: É. Uma triagem musical. Sim. Na qual você usa simplesmente os elementos que precisa, e nada mais. É econômico, mas não é uma questão de economia.
FAROFAFÁ: É uma questão de essencialidade, talvez?
STACEY: Sim, mas essencialidade de emoção, e com isso ele pode nos pegar. É uma explosão, só explosão. E eu sentia isso, aos 14 anos, sem saber nada sobre a música. Era uma coisa simplesmente do coração. Eu sentia, e eu sabia que queria me tornar parte daquele universo. Eu quero aquilo que eu gosto. Só duas pessoas faziam isso em mim quando moça. Primeiramente, Louis Armstrong cantando Stardust. Oh my God. Eu ouvi aquilo e eu disse: “Eu quero ir aonde ele está”. A segunda pessoa foi João Gilberto. Tem, claro, muitas outras pessoas. Mas toda vez que eu estava lá, escutando a música, quando garota, e eu começava a chorar. Porque eu sou essa pessoa. Eu chorava o tempo todo escutando a música. Era assim, era minha maneira de viver. Mas, com João, e é muito interessante o que você disse, que as pessoas, os adultos, estão falando numa maneira mais técnica. Mas eu prefiro falar daquela moça de 14 anos ouvindo pela primeira primeira vez. It’s very telling.
FAROFAFÁ: Significa muito, né?
STACEY: Aham, aham, aham. Sim, sim, sim, é muito importante, é, porque é outro tipo de captura.
FAROFAFÁ: E, dessa vez, eu tava ouvindo o seu disco novo aqui, numa plataforma, e tem uma coisa brasileira que é mais remota assim do que João Gilberto, que é Pixinguinha. Você sabe, o Pixinguinha estava na ativa já na virada do século 19 para século 20.
É.
FAROFAFÁ: É curioso que você tenha chegado a ele agora. Qual é a história disso?
STACEY: Nós todos somos parte do mundo. O ser humano não muda nada entre as épocas. Eu adoro o fato de que ficou parte da cultura daquela época, de algo de muito antes de de nossas vidas. Ele já estava lá levando algo lá para compartilhar conosco aqui. Pixiguinha naquela canção, mesmo antes das letras, porque eu sei que a canção, Carinhoso, chegou muito antes da letra, A letra veio muitos anos depois. Mas na música mesma, ga ga ga ga ga ga ga ga, ela construía as emoções só de forma instrumental. Já é uma história com caminho, mesmo sem letra. É por isso toda vez que eu canto essa canção, lá nos países onde não falam português, elas podem compreender, mesmo sem serem capaz de compreender. Eu explico um pouco a música, mas elas podem compreender sem serem capaz de compreender. Eu eu, mesmo antes de compreender a língua portuguesa, sentia essas emoções. Acredito que se passa exatamente a mesma coisa com meu público. Todos nós somos estrangeiros, mas podemos compartilhar essas sensações, né?
FAROFAFÁ: É uma música que já carrega o sentido em si, né?
STACEY: É. Então, finalmente, quando a letra chegou, falando desse desejo enorme, intenso, o que eu amo na música – geralmente, eu estou sempre procurando músicas assim – é que a protagonista pode falar com ela mesma, e eu estou lá, falando com o amante que não está lá. E essa é minha maneira de achar uma maneira de seguir adiante. E também de comunicar, né?
FAROFAFÁ: E o italiano Bruno Martino? Como ele surge no repertório do seu novo disco? Não sei se você sabe, mas João Gilberto, um dos grandes sucessos dele, quando ele gravou um disco com algumas letras estrangeiras, foi uma canção do Bruno Martino, que é Estate.
STACEY: Sim, Estate. Exatamente. É bem fácil explicar que eu, João Gilberto, Bruno Martino, todos ficamos lá sobre amesma fronteira, no Venn diagram do universo (nota do redator: o Diagrama de Venn é uma representação gráfica que usa círculos sobrepostos para mostrar relações lógicas, semelhanças e diferenças entre conjuntos de dados ou itens). Faz sentido total. Eu, antes de estudar a língua portuguesa, estudei italiano, latim, francês e alemão. A língua italiana faz parte da minha vida ainda mais mais cedo do que o português. É interessante isso, porque é um mesmo caminho, que explica como eu escolhi La Chiamano State. Mas Estate é linda. É demais, é demais. Então, todas as canções que Jim eu escolhemos para esse disco fazem parte daquele universo que queríamos criar. Com o título A Time for Love. Love para uma amante, para a mãe natureza, qualquer tipo de amor, precisamos de amor. Mas com essa intensidade, um pouco joãogilbertiana, se podemos dizer, né? Com a triagem. Foi exatamente o que eu quis fazer com esse disco. Fico muito orgulhosa com isso, porque eu queria fazer com Jim, meu marido e meu amigo e parceiro, e o pianista Art Hirahara. Art lá no piano, é uma visão. E vamos continuar.
Ouça A Time For Love: https://staceykent.bfan.link/atimeforlove






