Um gato de duas faces aparece na soleira de uma porta logo nas primeiras cenas do filme O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho. À condição congênita de um gato que nasce com duas faces, na medicina veterinária, deu-se o nome de “gato Janus”, referência ao Deus romano Janus, o deus das portas, das transições. A dupla face de Janus simboliza a capacidade de enxergar o futuro e o passado simultaneamente.

O Agente Secreto é um filme incomum, especialmente para os padrões do cinema de multidões. Não é um filme sobre o herói tradicional, como o é, por exemplo, Ainda Estou Aqui, cuja dramaturgia se ergue sobre uma provação, uma resistência sobrenatural do mais fraco contra o poder superior do Estado criminoso. O filme de Kleber tem uma pretensão ainda mais abrangente, que é talvez sociológica, antropológica. Assim como Joaquim Nabuco, lá no século 19, com ironia, definiu um País moldado pela escravidão, que “espalhou por nossas vastas solidões uma grande suavidade”, Kleber Mendonça, com O Agente Secreto, abordou dramaturgicamente o novo País que se ergueu a partir do convívio indiferente com a ditadura militar, um País de ameaçador colaboracionismo e uma ética perigosamente masculina. Não é um filme de dualismos, de inimigos visíveis ou de contornos definidos. E isso é sua singularidade (e também, me parece, o motivo de parte da incompreensão sobre seu papel).

O passeio na viatura dos agentes da repressão (os do Recife encontrando os de São Paulo) é a cena mais assustadoramente reveladora do filme. Todos homens, todos irmanados por um consenso silencioso de violência, exceção, misoginia, homofobia, um consenso que vai se perpetuar para além daquele momento histórico, como se fosse um bastão passado a sucessores em uma corrida de revezamento. As mulheres, personagens etéreos do filme, são somente vultos cujas identidade, personalidade e motivações ficam sempre sem esclarecimento – desde a avó a que chamavam de “Índia” e foi obrigada a se casar aos 14 anos à mulher executada num porta-malas e jogada no mar em um saco.

O que possibilita esse status quo canalha é menos a têmpera daqueles patriarcas armados na van da Secretaria de Segurança Pública do Recife do que a indiferença conveniente do futuro – não por acaso, o filho do cientista perdido não demonstra interesse em ouvir a voz do pai no pen-drive da pesquisadora. Ele agora é médico, está confortável em sua posição social, não quer saber de coisas demais que possam bagunçar sua rotina.

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No meio de tudo isso, dessa busca por esse Brasil que não se importa (ou, pior, que coopera com seus algozes), que não quer saber das implicações de suas escolhas, é evidente que o cineasta acha espaço para tratar também de diversas anomalias éticas. A barbárie que levou um menino de 5 anos a cair no fosso de um elevador no Recife, negligenciado pela patroa da mãe, é reencenada pelo filme. Assim como a atuação corporativa no coração da repressão, com uma menção explícita ao empresário Henning Albert Boilisen, que financiava o boicote ao Brasil dentro do aparelho público do próprio Brasil (aqui, um parêntese para saudar a atuação monstruosa de Luciano Chirolli, melhor coadjuvante em qualquer premiação do planeta nesse instante).

Kleber Mendonça faz um filme sarcástico, utilizando interrupções calculadas para driblar as expectativas do espectador. Na sequência tarantiniana do massacre, quase ao final do filme, ele parece querer dizer ao público: olha, nós também sabemos fazer uma porradaria, sabemos brincar com a teratologia do cinema de pancada. Mas aí ele suspende subitamente o tiroteio e fica todo mundo esperando um heroi tradicional surgir com seu Colt 45 em punho para liquidar a fatura, mesmo que seja um serial killer como o de Onde Os Fracos Não Têm Vez. Isso satisfaria a necessidade de explicação embalada a vácuo do cinema tradicional, mas não vai acontecer.

Com um emparelhamento das mitologias clássicas às modernas (o mito da perna cabeluda, que por sinal também é moralista em sua ação terrorista), o filme não é apenas um veículo para o destaque personalista de atores extraordinários, embora não seja possível deter Wagner Moura. Por isso, agiganta-se o elenco de atores amadores ou desconhecidos, cuja naturalidade, seja espantando cães de um cadáver ou datilografando papeis inúteis em uma repartição de fórmica, é a chave para a entrada para um Brasil que não canta e nem é feliz e é o que nós temos hoje.

A pergunta do título desse artigo, evidentemente, não tem uma resposta só. Desconfio que é o investimento prévio em divulgação das produções, que muitas vezes é uma decisão estatal (como foi o exemplo do sul-coreano Parasita), e muitas vezes é uma capacidade autóctone de investimento (mais rara, como Ainda Estou Aqui). A questão é que, no caso específico de O Agente Secreto, o filme entra em competição com uma vantagem muito grande: ele não tem mais como perder competição alguma. Sua contribuição vai muito além das assinaturas da Netflix, ele já garantiu o seu futuro.

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