Raulzito por Dan Dickason

Não, não se trata de mais um a vir desancar publicamente o desafortunado Ed Motta por conta de seu desastrado statement contra Raul Seixas no seu canal do YouTube. A afirmação do título acima é de ordem léxica: Ed é um ignorante simplesmente porque desconhece, ignora. Sustento isso porque a fala de Ed, à parte as questões de cunho moral e ético que levanta contra Raul, sem sustentação em fatos (“É um mau caráter”), a fala dele trai uma visão simplista sobre a obra de Raul Seixas que merece algumas ponderações. No geral, a sentença essencial de Ed sobre a obra do Raul (que define como um artista de canções simplórias) parece ter como base apenas uma ideia concebida na audição apressada de hits como Maluco Beleza, o que é um erro colossal.

A prodigiosidade da produção de Raul Seixas é difícil de alguém dar conta, mesmo ouvindo muito seus discos. Raul fez rock’n’roll, música conceitual, reggae, baião, samba, rock, valsa, gospel, burilou algo do hip-hop, da soul music, fez tango sobre a morte. Sua música continha informação tanto da vanguarda de Frank Zappa quanto do ethos de Astor Piazzolla, tanto da energia iridescente dos Beatles quanto da anarquia rítmica de Jackson do Pandeiro.

Mas a fala de Ed Motta, por estar prenhe de arrogância, atiçou os ânimos e levou a uma atitude reativa análoga à boquirrotice do próprio cantor carioca. Entre réplicas e tréplicas, muitos já apontaram que sua definição de Raul, “funcionariozinho de gravadora”, que busca desqualificar o trabalho de produção nos intestinos da indústria musical, é frágil e cai por terra à simples menção de nomes como Quincy Jones e George Martin (e quase esqueço do Roberto Menescal), que também foram empregados de companhias de discos. Também já foi lembrado, jocosamente, que a própria noção de superioridade musical de Ed desabaria em qualquer exame de DNA da sua obra na Rede TV, que a palafita de seus hits de enólogo connaisseur balança em cima da apropriação (sem crédito) de canções dos grupos Steely Dan, Whispers e Emotions e da cantora Donna Summer. Mas considero esse um caminho infértil.

O que me ocorreu foi mesmo pincelar algumas canções de encomenda de Raul para esclarecer os ignorantes de todos os quadrantes. E nem vou apelar à posição everéstica de Ouro de Tolo, de 1973, que pontifica no topo de qualquer cordilheira da música por conta de sua fantástica inovação formal, seu esqueleto de spoken word music e sua influência até literária dentro do edifício da MPB.

Raul já entra gigante na cena da música brasileira em 1971, quando defende Loteria da Babilônia num festival em São Paulo. É uma composição cheia de fluxos e refluxos internos, inoculada de uma informação que empunha tanto a linha evolutiva que vem de Little Richard e Chuck Berry, a instância primal do rock’n’roll, quanto o brado de liberação existencial de Instant Karma, de John Lennon (cujo disco de 1970 fez a cabeça de Raul).

É possível perder semanas debatendo a engenhosidade das canções somente dos primeiros três monolitos solo de Raul, Krig-Ha Bandolo, Gita e Novo Aeon. Isso se ignorarmos amostragem, como a festa de invenção de Sociedade da Grã-Ordem Kavernista, feito justamente contra a vontade da gravadora para a qual ele trabalhava, e o hoje resgatado, mas pioneiro, estilhaço de blues rock feito com Leno, Vida e Obra de Johnny McCartney). Mas música não é feita de engenhosidade e camadas sucessivas de informação, essa compreensão é obscurantista, atrasada.

O grau de arrojo e destemor de Raul e seu nível de integridade artística são assombrosos. Sua meta não era atender a expectativas, era exatamente contrariá-las. Em Sessão das 10, em uma espécie de pêndulo paródico entre Orlando Silva e Nelson Gonçalves, com um grupo de metais ao fundo, Raul atua ao mesmo tempo como bola de demolição e argamassa da nova construção, um narrador que se sabe lúmpen, mas que tem consciência da condição.

As aventuras de Raul Seixas na cidade de Thor é um arrasta-pé, é uma embolada, é um baião, é um rock. “Quando eu compus Ouro de Tolo/Uns imbecis me chamaram de profeta do apocalipse/Mas eles só vão entender o que eu falei/No esperado dia do eclipse”, ele já adiantava, pressentindo o futuro.

É fim do mês é um aparente samba de quintal que explode em baião e depois em rock’n’roll e ponto de umbanda e termina citando Luiz Gonzaga, outro parâmetro do artista. Sem contar o caleidoscópio político da letra, um rasante pelo leque de possibilidades da contracultura (“Já fui Pantera, já fui hippie, beatnik”) – seria chover no molhado acrescentar aqui a fina qualidade de cronista de Raul, dono de um texto de refinada ironia e senso de observação (experimente As Minas do Rei Salomão: “Traga a sua bola de cristal/E aquele incenso do Nepal/Que você comprou num camelô”).

Nessa altura da minha lista de canções escolhidas, estou entrando no ano de 1975, Ed Motta só tinha então 4 anos e não possuía, como talvez ainda não possua, a menor ideia do que fosse ter coragem e ousadia em 1975. Era uma postura que não admitia preguiça. Raul era igualmente sacrílego e politicamente incômodo, mas isso sem deixar de ser cristão e um dissidente de todos os consensos. Seus paradoxos preenchiam também sua confissão musical, mais um componente do seu assombro artístico.

Água Viva é uma construção musical que parte de um mote do poema de São João da Cruz (Bem eu sei a fonte que mana e corre/Embora seja noite) e cresce da visão contemplativa até desembocar em um formidável crescendo tropicalista que evoca Domingo no Parque, com os Mutantes e Gilberto Gil, e que ecoa o maestro Rogério Duprat.

Raul lega obras-primas até na encruzilhada final. Como Metrô Linha 743, um country rap orwelliano do seu 12º disco, de 1984 (curiosamente, o ano da distopia literária). Músico reverencia músico, e Raul foi em seu tempo um reconhecido bandleader, capaz de alistar tanto o Fredera, o Frederyko do Som Imaginário, quanto o cigano argentino Tony Osanah, beat elétrico fundamental da Tropicália. Raul foi o contrário do acaso e do simplório, é de uma ignorância abissal declarar isso.

Mesmo Caetano Veloso, que teve entreveros com Raul, assinalou, em Verdade Tropical, que Raul tinha vocação para tudo, menos para ser um “funcionariozinho de gravadora” como Ed Motta define. “Raul tinha ambições intelectuais e estéticas cuja natureza não facilitava uma receptividade por parte de gravadoras”, escreve Caetano.

A presença de Raul Seixas na música brasileira assume diversos simbolismos, o mais radical deles o ato de preconizar a liberdade total, o combate a toda forma de poder e opressão. Isso incluía as prisões invisíveis criadas pela ilusão do pertencimento a uma elite, fosse ela musical, estética, social, filosófica ou política. Não se trata de profetizar sua permanência e a consequente extinção de Ed Motta, isso seria só revanchismo de torcida. É algo mais profundo: se Ed Motta não entendeu Raul até hoje, Raul que é pura invenção, talvez ainda esteja por começar sua trajetória na música.

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