“Minha namorada era amiga dele. Ele deu umas mudas de plantas pra ela”, conta o rapaz da padaria de Alto Paraíso.
“Eu acho que fizeram alguma magia pra ele. Alguma coisa ruim”, considera a moça na portaria do Parque Nacional Chapada dos Veadeiros, em São Jorge.
São quase dois meses sem notícia. João Planta desapareceu em Alto Paraíso de Goiás (420 km de Goiânia e 230 km de Brasília) no dia 7 de dezembro, após sair de casa de noite para ajudar dois homens a desatolar um carro – segundo relatou a última pessoa que esteve com ele em casa, a namorada, Tati. Desde então, não foram mais encontrados vestígios do rapaz.
João Planta, de 26 anos, é um ativista ambiental conhecido e querido no cerrado brasileiro. Nascido em Porangatu, Goiás, seu nome real é João Paulo Vaz da Silva. Ele se define como extrativista e trabalha com agricultura regenerativa. Anda pelas matas e rios há alguns anos colhendo plantas raras e vulgares, da sucupira ao amarelinho, da douradinha do campo ao babaçu, e transformando em extratos preciosos. Gel de barbatimão, por exemplo, é cicatrizante, antifúngico e antibacteriano. João produzia os cremes e unguentos curativos (contra bronquites, tosse, edemas e eczemas) e saía distribuindo pelas casas das pessoas, lembram moradores.
“Ele tem uma mão tão boa que ele planta, bota lá no chão e a planta não morre. Vai dar uma coisa mais linda. Olha aí, já trouxe uma muda pra mim. Eu não tinha nada”, diz uma senhora em um curta documentário sobre o ativista. Na terra dos contatos imediatos, as ervas do cerrado têm sido sua magia extraterrestre. Barbicha rala de adolescente, tocando violão, cantando e dançando no fim de tarde com os amigos, recolhendo cães e outros bichos abandonados, João Planta parecia revigorar um clichê antigo do bichogrilismo, vacinado contra a voracidade do capital e do trabalho compulsório.
A polícia e os bombeiros teriam encerrado as buscas pelo ativista desaparecido há quase um mês, reclamam os manifestantes das redes sociais. Uma vaquinha para ajudar nas buscas foi criada pelos amigos, que são muitos. Também há uma página no Instagram chamada @justicaporjoaoplanta, que ajuda a recolher informações sobre o paradeiro do biólogo (“Em busca de respostas sobre seu desaparecimento”). As notícias se embaralham: houve uma comunicação de que ele teria sido encontrado em Brasília, há alguns dias, mas essa informação logo foi desmentida pela polícia. Atualmente, a investigação está sob sigilo.
Os amigos não têm bons presságios sobre o destino de João Planta. Alguns salientam o contexto em que essas coisas acontecem: Goiás é um dos celeiros do agronegócio, e João é um desses cristais colocados no caminho de sua expansão incontrolável. Outros brandem um dado alarmante: desde 2012, mais de 400 ativistas ambientais foram assassinados no Brasil – Bruno Pereira e Dom Philips foram dois deles. Há diversos casos de ameaças, expulsões e desaparecimentos que estão ligados a casos de grilagem, mineração e desmatamento, conforme assinala o podcast Podgerais. “Defender floresta, rio e território no Brasil ainda é coisa de risco, e muitas vezes o silêncio fala mais alto que a Justiça”.
O ambiente da Chapada dos Veadeiros é fronteiriço nessa dualidade de interesses, a preservação e a ameaça do avanço das monoculturas. O próprio João Planta já teria sido objeto de uma tentativa de assassinato em passado recente, segundo relatos – um morador da região teria tentando atropelar o ambientalista. Mas o caso, também segundo relatos, tinha origem em desavenças mais pessoais, não tinham fundamento em divergências ambientais.
Há um projeto de lei em estágio bastante avançado na Assembleia Legislativa de Goiás para reconhecer Alto Paraíso como A Capital dos Óvnis, por conta da crença na presença de objetos voadores não identificados no município. Essa presença seria atestada pelos sucessivos avistamentos e o registro de luzes misteriosas no céu. Atualmente, de concreto mesmo, há um homem que passeia quase toda tarde pelas ruas da cidade em um jipe, com o som em alto volume, cercado de bonecos de ETs cenográficos de “carona”, além de dois cães no capô e luzes estreboscópicas. O resto são poços de águas cristalinas e cachoeiras magníficas, muitas vezes dispostas em série, de cujo mergulho se pode alcançar algum contato com o mistério da existência.
Aqui em Alto Paraíso de Goiás, portal de uma utopia de vida harmônica com a natureza, o sumiço de João Planta paira como uma ferida aberta. A grande imprensa ainda não descobriu o caso, que é simbólico da grande luta que se trava hoje (inclusive após as declarações de sem cerimônia dos estadunidenses) contra o progresso predatório e inimigo da autopreservação dos recursos naturais do País. É urgente reencontrar a alegria de João Planta.







