Ellen Oléria e Dani Nega - foto José de Holanda
Ellen Oléria e Dani Nega - foto José de Holanda

Uma ode à liberdade e tesão de ser quem se é. SAPATÃO! E se para isso for necessário “azucrinar a mente dos boy”, que assim seja!

“Sai Boy”, a nova música da artista já premiada Dani Nega, traz mais uma vez o ritmo, a musicalidade e a poética negras pra acordar os corpos lésbicos fazendo mandinga e dando a letra para uma nova realidade.

O rap de Dani Nega gira seu eruexim ventando a sociedade patriarcal e a expõe ao ridículo por colocar no falo e no macho cis-hetenormativo a centralidade da perspectiva existencial, banindo que qualquer comportamento ou identidade que fuja a essa norma forçada tenha em si o carimbo da falta, da ausência, de fadado à incompletude. Dani Nega se junta à maravilhosa Ellen Oléria para gargalhar dessa lógica e gritar poeticamente ao mundo que é rebolando que expurgam esse quebranto, “essa falta de noção indigesta”, “pra aprender o que é ideia certa”.

Ellen Oléria e Dani Nega - fotos José de Holanda
Ellen Oléria e Dani Nega – fotos José de Holanda

Nessa sociedade patriarcal, algumas são as soluções criadas para garantir essa norma e controlar o que é considerado dissidência de identidade e sexualidade: primeiro o “armário”, dispositivo de violência emocional, psicológica e simbólica que submete essas existências ao silenciamento, ao apagamento, ao sufocamento; e, àqueles que saem do armário, restam as grades da prisão, a tentativa de cura ou os abusos e as violências físicas e sexuais (como, inclusive, o “estupro corretivo”). Ainda mais se esses corpos dissidentes forem pretos e/ou
favelados. Aí o desvio do tido como padrão é imperdoável para aqueles que reproduzem a matriz de pensamento colonial.

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O resultado dessa equação para os corpos lésbicos (em especial os pretos) é a violência cotidiana e para os homens cis-heterossexuais (em especial os brancos) é a construção de uma masculinidade frágil que busca sustentação em uma virilidade histérica, infantil e tóxica, o “boy”. Neste país de 2022, o boy encontra seu grau de representatividade máxima naquele que inacreditavelmente está presidente da república naturalizando o fato de que o Brasil é o país que mais mata a população LGBTQIAP+.

“Sai Boy” é o grito de basta! É o anuncio de que desfilaremos nossos corpos, nossas existências, nossos afetos onde quisermos e da forma que quisermos, livres das mãos sujas machistas. É o aviso de que vidas como as de Luana Barbosa, Marielle Franco e outras tantas que vieram e que sangraram antes de nós serão honradas e virarão florestas de bixas pretas sapatão.

Ter orgulho de se afirmar SAPATÃO é se mostrar e se fazer inteira, completa. Orgulho aqui não significa banalidade, vaidade. Orgulho é ato de resistência, de amor-próprio, de visibilidade! É a construção de uma vida fora da ideia de erro, de pecado. Como nossos afetos e nossa sexualidade são parte vital de nossa existência, se afirmar sapatão “descendo até o chão” é encantamento e cura. E saber que, ao invés de precisarmos de cura, somos a sanidade neste mundo cinza.

O clipe evidencia lindamente o que a música traz da força da rebeldia, da cabeça erguida, da dança e da gargalhada como magia fina pra libertar os corpos desse jugo misógino, como estratégia de luta e resistência, pra invocação do tesão, do gozo, da poesia e da criatividade. Sai, boy!

Sílvia Vieira é advogada formada pela UFRJ, consultora em Justiça Restaurativa e Direitos Humanos, com mais de 20 anos de atuação. Possui Diploma Internacional em Sistemas Jurídicos Indígenas, Pluralismo Jurídico Igualitário e Descolonização pela Universidade de Brasília, Instituto Interamericano de Derechos Humanos e Instituto Internacional Derecho y Sociedad e especialização em Pensamento e Método de Paulo Freire pela Fiocruz e Associação dos Juízes pela Democracia.

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