Baden Powell foi quem me levou até ele. Baden dirigia o carro com calma pelas ruas da cidade do Crato, no Ceará, enquanto me explicava porque tinha me tirado da rota para conduzir até ali: “Ninguém que procure saber alguma coisa sobre Luiz Gonzaga pode deixar de ouvir Huberto Cabral, ele é a enciclopédia viva do Cariri”.

Não tinha motivos para não acreditar no taxista Baden e fui. Quando ele parou na frente de um quartel do Exército, pensei: “Ai, meu Jesus Cristinho, estou ferrado. Já me descobriram eu aqui no meu cantinho…”. Engano colossal: Huberto Cabral me esperava numa espécie de coreto no meio do pátio do quartel que tinha seu nome inteiro escrito na lateral do quiosque. Aquela construção tinha sido apenas uma das dezenas de homenagens que prestaram ao mais célebre memorialista do Cariri, Francisco Huberto Esmeraldo Cabral – também jornalista, radialista e historiador.

Sentamos ali no coreto, alguns soldados guardando os flancos, e Huberto me contou, em um jorro verbal cronológico e lindo, tudo que sabia sobre Luiz Gonzaga. Ainda ouço aqui a voz dele aqui gravada e me encanto diariamente com as histórias. Maior historiador do sertão, Huberto Cabral ajudou a estruturar o Museu Aza Branca, em Exu, a pedido de Luiz Gonzaga, e o Museu Barbara de Alencar, na Fazenda Caiçara. A irmã de Huberto, a maestrina Divani Cabral, foi quem regeu o Pequeno Coral do Crato na última homenagem ao Gonzaga, vivo, em 12 de maio de 1989, no Aeroporto de Juazeiro.

Huberto Cabral morreu na noite de segunda-feira, 24, em Juazeiro do Norte. Tinha 89 anos. Havia sido internado no Hospital Regional do Cariri (HRC) há cerca de um mês para o tratamento de uma infecção pulmonar. A Universidade Federal do Cariri (UFCA) manifestou profundo pesar pelo falecimento de Huberto, celebrando sua vida de gentileza e cortesia.

Era um homem arguto, que percebia rapidamente o que o interlocutor queria, mas não tinha nem predisposição nem vaidade. Contava histórias como ninguém. Ele tinha apenas 10 anos de idade quando viu Gonzaga pela primeira vez, às 9 horas da noite do dia 8 de julho de 1946, quando o sanfoneiro já famoso fez o primeiro show no Ceará. A cidade fervia. “Foi aqui no Cine Cassino, no cinema da cidade, na praça Siqueira Campos. O zabumbeiro era o Catamilho, que antes vendia pipoca aqui na Praça da Sé, e o outro era o Zequinha, o famoso Rei do Passo, no triângulo. E aí então ele fez esse show aí no Cine Cassino. Tinha tanta gente que não coube dentro e ele terminou saindo para a praça pra fazer o show para a mulidão. Aí lançou o disco dele, de cera de carnaúba, que tinha de um lado Baião e do outro Vira e Mexe“.

Pavilhão de quartel do Exército no Crato erguido para homenagear o maior historiador do sertão, Huberto Cabral, e onde ele poderia ser encontrado num final de tarde

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