Os atores Alan Rocha, Rebeca Jamir, Guilherme Silva, Badu Morais, que participam do musical Domingo no Parque
Alan Rocha, Rebeca Jamir, Guilherme Silva, Badu Morais formam o quarteto protagonista do musical Domingo no Parque - Foto: Priscila Prade/ Divulgação

Gilberto Gil, no documentário Uma Noite em 67, de Renato Terra e Ricardo Calil, revela que duas horas antes de subir ao palco para cantar Domingo no Parque estava apavorado. Naquele emblemático festival da Record, ele temia ser avaliado diante de uma plateia indócil. Acompanhado dos Mutantes, não só saiu ovacionado, como permitiu um registro histórico de uma das mais importantes composições da música brasileira. Não é uma canção de protesto, como Roda Viva, de Chico Buarque, ou Alegria, Alegria, de Caetano Veloso, concorrentes no mesmo festival, mas já possuía todos os traços que hoje são facilmente identificados como a cara do tropicalismo.

Domingo no Parque ganhou um musical que procura homenagear a grandiosidade da canção. A letra conta a história de um triângulo amoroso, João, José e Juliana, que termina de forma trágica. Com arranjos de Rogerio Duprat, a música original de Gil começa de forma quase pueril e vai num crescendo até chegar a um nível máximo de tensão. “Foi que ele (José) viu Juliana na roda com João” e o ciúme lhe subiu a cabeça. “Juliana girando/ Oi girando!/ Oi, na roda gigante”, prossegue, até que o ápice da trama ocorre numa roda gigante, que se encerra em mortes (“Olha a faca! (Olha a faca!)/ Olha o sangue na mão”). Um desfecho muito explícito, tudo bem descrito. Mas uma história não contada por completo.

A peça tem direção musical de Bem Gil, filho do cantor e compositor baiano, e direção e texto de Alexandre Reinecke. A história trágica, agora, ganha um contexto maior. Domingo no Parque, em cartaz no Teatro Claro Mais SP, mostra como tudo ocorreu, com algumas licenças poéticas. A trama se passa em Salvador no começo dos anos 1970, e a ditadura é um fantasma que ronda os personagens. Jozé (Alan Rocha) é um feirante e “o rei da brincadeira”. João (Guilherme Silva) trabalha numa construção e é o “rei da confusão”. Entre eles, Juliana (Rebeca Jamir), que faz as vezes de uma cantora talentosa e militante contra a ditadura.

Esse trio se torna um quarteto protagonista, porque Reinecke criou uma personagem extra, Juci (Badu Morais, em excepcional performance), mulher de João. Outra que também faz parte do elenco é Adriana Lessa (mãe preta), que é avó de Jozé. No meio disso tudo, alguns elementos se sobressaem neste musical: a bela valorização da capoeira, o protagonismo negro (mais de 90% dos atores são negros) e as várias referências à cultura periférica. E tudo permeado por 20 músicas clássicas, que além de Gilberto Gil (Roda, Preciso aprender a só ser, Pessoa nefasta, A novidade) conta com Carlos Lyra, Dominguinhos e Anastácia, Dorival Caymmi, Jorge Ben Jor, Tom Jobim e Jackson do Pandeiro – destaque para a versão de Cálice, de Chico Buarque e Milton Nascimento.

Por escolha do diretor, talvez pela presença de atores mirins no espetáculo, a peça suaviza a cena trágica. Fica implícito, mas se perde a dramaticidade do desfecho presente na letra de Gil. No musical, prioriza-se a denúncia ao feminicídio, o que não deixa atualizar a história para uma necessidade candente do presente. E tudo termina em uma roda de capoeira ao som da razão de ser do musical.

Domingo no Parque. Direção de Alexandre Reinecke. No Teatro Claro Mais SP (shopping Vila Olímpia), quintas e sextas-feiras às 20 horas; sábados às 17 horas e 20h30; e domingos, às 19 horas. Até 8 de fevereiro. Ingressos a partir de 50 reais.
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