E foi assim que, em janeiro de 1968, a caminho de Arembepe, um famoso cantor inglês fez uma parada em Salvador para conhecer o lendário sincretismo religioso da Bahia. Andou pelo Gantois, foi ao Pelourinho e logo chegou à Festa do Senhor do Bonfim, que era seu objetivo principal. Cabelos longos, chapéu de coadjuvante dos filmes da série Sartana, camisas de mangas largas esvoaçantes, muito magro e muito eloquente. Quem o ciceroneava era Luís Eládio, o Lalado, colega e xará de outro Eládio, guitarrista de Os Panteras. Foi assim, por intermédio de Lalado, que se desenrolou o meio de campo para os Panteras encontrarem o famoso rock star gringo, ninguém menos do que o vocalista dos Rolling Stones, Mick Jagger, e darém um plá com ele no hotel em que se hospedava, o Hotel da Bahia, no Campo Grande.

Raul Seixas, Mariano e Eládio rumaram até o hotel em que Mick Jagger se hospedava com Marianne Faithfull. O Hotel da Bahia era um portento modernista projetado por Diógenes Rebouças em 1949. Jagger os recebeu no saguão com um bebê no colo, natural e desencanado como se estivesse em Camden Town. O bebê ainda não era um dos seus filhos: era Nicholas, de dois anos de idade, filho de Marianne com John Dunbar, de quem ela havia se divorciado recentemente. Karis Hunt, a filha mais velha de Jagger, só nasceria em 1970. “Ele (Mick) me antecipou os valores morais que estavam vigentes naquela época e que não tinham chegado ao Brasil”, contou Raulzito, de um jeito surpreendentemente formal. “Me antecipou o que estava acontecendo musicalmente, culturalmente, em matéria de comportamento… foi interessantíssimo. Fiquei impressionado e me valeu para modificar os meus valores – eu era baiano arraigado, aquelas coisas em que você fica meio pendurado.” Anos depois, Lalado revelaria que houve outro encontro: Raulzito, dias depois, sozinho, tinha ido à sua casa num momento em que Mick o visitava, e os dois conversaram longamente mais uma vez.

Em seu diário, Raul anotou o seguinte: “Mick Jagger, com o qual bati um papo na Bahia, me disse tudo que estava acontecendo lá fora. ‘O rock mudou’, ele disse. E foi como um tapa na minha cara”. Já a revista InTerValo (a primeira dedicada exclusivamente à televisão) publicou a seguinte nota: “Mick Jagger, dos Rolling Stones, que esteve na Bahia com sua namorada, a cantora Marianne Faithfull, encontrou-se com Raulzito dos Panteras e ouviu as composições do baiano. Gostou, aconselhou-o a tocar candomblé e cantar macumba, porque, segundo concluiu depois de ouvir a música brasileira na fonte, a bossa nova não passa de uma farsa”.

(do livro Raul Seixas – Não diga que a canção está perdida, de Jotabê Medeiros, Todavia Livros, 2019)

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