2x Nelson Rodrigues: “A Falecida”, no Sesc Santo Amaro

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A Falecida, outra peça icônica da dramaturgia de Nelson Rodrigues, é uma trama que segue atualíssima na essência de sua abordagem. Ela trata de temas como a falsa moralidade e a hipocrisia, dois produtos abundantes no Brasil contemporâneo. O texto também destaca as dinâmicas familiares disfuncionais, uma obsessão recorrente nas obras teatrais rodrigueanas. 

A atriz Camila Morgado, que estava havia 11 anos distante do palco teatral, interpreta Zulmira, que, resumidamente, é uma mulher tuberculosa que deseja ser enterrada com todo luxo e pompa possível. Ela consegue convencer o marido, Tuninho (Thelmo Fernandes), a procurar o rico empresário Pimentel, que poderia ajudar a bancar o enterro de luxo. Ao descobrir que a falecida tinha um relacionamento secreto com o patrocinador do funeral, Tuninho decide se vingar da maneira mais pérfida possível.

Escrita em 1953, essa obra teatral desvenda tabus e examina as complexidades das relações sociais, que não deixam de ser um microcosmo das complexidades da sociedade em geral. A nova montagem, dirigida por Sergio Módena, segue em cartaz até 1º de outubro no Sesc Santo Amaro, em São Paulo. 

A primeira montagem de A Falecida ocorreu em 24 de setembro de 1953, no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), também em São Paulo. O espaço era reconhecido como o templo da cena teatral brasileira e por apresentar trabalhos de vanguarda. 

Essa versão foi dirigida por José Celso Martinez Corrêa. Falecido em julho deste ano, o diretor trouxe elementos inovadores, incluindo um cenário que retratava o subúrbio carioca. Na montagem, respaldada pela interpretação marcante de Fernanda Montenegro, que deu à peça uma atmosfera autêntica e visceral, Zé Celso lançou luzes sobre enigmas da vida, estabelecendo a peça como um espelho provocativo da sociedade e da psicologia humana. A obra de Nelson Rodrigues brinca com a dualidade humana, explorando as tensões entre a vida e a morte idealizadas.

No cenário de André Cortez, da atual montagem, um grande mausoléu é o espaço por onde os diversos planos de ação irão ocorrer, dentro dessa história linear, ao contrário de Vestido de Noiva, outra peça do universo rodrigueano também em cartaz na capital paulista. Se essa é considerada o marco do teatro moderno brasileiro, A Falecida também inovou ao romper convenções da arte cênica, trazendo à tona, de forma tão explícita, temas controversos. Na versão de 2023, com Camila Morgado como protagonista, a experimentação cênica cede lugar para a reflexão.


A Falecida. De Nelson Rodrigues. Direção de Sérgio Módena, no Sesc Santo Amaro, às sextas-feiras (21 horas), sábados (20h) e domingos (18h). Até 1º de outubro. Ingressos a 40 reais.

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