Antonio Fagundes em "Deus é Brasileiro", cuja sequência, a ser filmada em Alagoas, é objeto de controvérsia no Estado

O cinema alagoano está em pé de guerra contra seu filho mais ilustre: Cacá Diegues, nascido em Maceió há 82 anos. Mais de uma centena de técnicos, roteiristas, produtores e cineastas que integram o Fórum Setorial do Audiovisual Alagoano divulgaram uma carta aberta na sexta-feira, 10, manifestando repúdio à decisão da Secretaria Estadual de Cultura de Alagoas em aportar 6 milhões de reais na produção de Deus ainda é brasileiro, sequência do êxito cinematográfico Deus é brasileiro, de 2003, dirigido por Cacá Diegues, com Antonio Fagundes e Wagner Moura. A assinatura do contrato foi divulgada na quarta-feira, 8, após encontro entre a secretária de Cultura, Mellina Freitas, e a produtora do filme, Paula Barreto.

Os cineastas alagoanos veem diversos problemas na decisão de Alagoas de investir diretamente no filme de Diegues: primeiro, porque se trata de uma produtora do Rio de Janeiro, não é de Alagoas; segundo, porque o valor do financiamento seria o equivalente ao dobro do que foi investido pelo governo alagoano em seu cinema nos últimos 12 anos; em terceiro lugar, o aporte foi anunciado sem processo de seleção ou edital, sem licitação ou debate (ou seja, sem transparência) e sem que o governo de Alagoas tenha qualquer participação nas receitas do filme. A produtora Paula Barreto, da empresa Produções Cinematográficas LCBarreto Ltda, enviou nota à reportagem do FAROFAFÁ na qual diz entender a preocupação da comunidade cinematográfica, mas discorda da avaliação: “A visibilidade que Alagoas terá, proporcionada pelo filme, justifica plenamente o investimento”, afirmou Paula. “Além disso, o patrocínio dará retorno imediato ao Estado, pois cerca de 60% dos recursos serão gastos em Alagoas, com a contratação de equipe e elenco locais, locação de equipamento e logística e todos os demais serviços de produção (hospedagem, alimentação, transporte etc)”.

O fórum ressalta que não vê precedentes e nem paralelos na história do estado de Alagoas de iniciativas como essa, e “tampouco conhecemos iniciativas do tipo em outros estados da federação”. Alguns produtores apontam até semelhança com o que está acontecendo na música sertaneja, com investimentos desproporcionais de municípios muito pobres em cachês milionários de astros midiáticos, em detrimento das políticas públicas. Alagoas é o Estado com o pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil. Há também restrições à legitimidade da atuação da secretária Mellina Freitas, que é ré em um processo no Tribunal Regional Federal (TRF5) por crimes contra as finanças públicas, sob denúncia do Ministério Público Federal.

Paradoxalmente, o Estado de Alagoas vive um momento muito especial no audiovisual. Seus filmes têm frequentado festivais do Brasil e do mundo todo, como Gramado, Roterdã, Havana e muitos outros. Parte dessa consistência tem origem num programa de editais iniciado em 2010, que investiu 2,6 milhões no setor, aos quais logo se somaram recursos da Ancine. Isso resultou na produção de cinco longas-metragens, cinco telefilmes, uma série e 48 curtas-metragens.

“Ressaltamos aqui que esta instância legítima e representativa do audiovisual alagoano reconhece o mérito artístico do cineasta alagoano Cacá Diegues, há mais de cinco décadas radicado no Rio de Janeiro, pela sua grande contribuição ao cinema nacional”, salienta o documento. “Portanto, esta manifestação pública não é uma crítica pessoal, mas um questionamento que faz parte do papel do Fórum Setorial do Audiovisual Alagoano, entidade que busca defender os interesses do audiovisual em Alagoas, setor produtivo estratégico, janela qualificada de nossas histórias e talentos para o mundo”.

Deus ainda é brasileiro está em produção desde 2008, e acumula várias negativas da Ancine, aparelhada ideologicamente – Cacá Diegues é um contundente crítico das políticas de cultura do atual governo, e desde sua eleição a direção da Ancine demonstra afinação com os intuitos censórios e persecutórios de Jair Bolsonaro. No final do ano passado, o filme foi finalmente aprovado pela diretoria colegiada da agência, e a estimativa do custo de produção é de 11 milhões de reais.

Os profissionais do cinema alagoano acreditam que um aporte com esse grau de excepcionalidade jamais aconteceria em Estados como Pernambuco, Bahia ou Ceará, cujas políticas do audiovisual são muito criteriosas e obedecem a uma formulação de política pública. Por isso, pedem que se reconsidere o investimento no filme de Cacá.

OUTRO LADO:

LEIA aqui a íntegra da nota da produtora Paula Barreto:

 

“Acho que todo investimento é proporcional ao retorno que pode gerar. Deus Ainda É Brasileiro terá uma carreira mundial nos circuitos de arte (festivais e mostras) e comercial (salas de cinema e demais midias). O filme vem despertando o interesse de vários parceiros internacionais e já tem distribuição contratada. A visibilidade que Alagoas terá, proporcionada pelo filme, justifica plenamente o investimento. Além disso, o patrocínio dará retorno imediato ao Estado, pois cerca de 60% dos recursos serão gastos em Alagoas, com a contratação de equipe e elenco locais, locação de equipamento e logística e todos os demais serviços de produção (hospedagem, alimentação, transporte etc). Entendo a questão levantada por parte da comunidade cinematográfica alagoana, mas devo dizer que não estão levando em consideração os benefícios que nossa produção trará, não só para o Estado, como para a própria comunidade cinematográfica que terá a oportunidade de participar ou, ao menos, acompanhar de perto a realização de um de seus mais proeminentes cidadãos. Além disso, uma produção desse porte pode contribuir muito para a consolidação de Alagoas como um importante polo da cinematografia brasileira.”

 

 

(A reportagem foi atualizada às 18h28)

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