Ouvindo as histórias e lendo os aforismos que ele deixou, a ideia que os estranhos possamos ter sobre o filósofo Augusto Pontes (1935-2009) seria mais ou menos a seguinte: ele foi uma espécie de mistura entre o Senhor Miyagi, o Mestre Yoda e o Bill de Kill Bill (essa última faceta conquistada pelas brincadeiras crueis). Chistes à parte, a unanimidade entre seus contemporâneos é que Augusto foi uma referência em seu tempo, e mesmo depois dele seguiu sendo.

O personagem não é familiar para quem não conheça as obras de Ednardo, Rodger Rogério, Fagner, Belchior e o chamado Pessoal do Ceará. Ele foi o autor do imortal verso “Vida Vela Vento Leva-me Daqui”, que Belchior usou na letra de Mucuripe mudando a ordem para ganhar ritmo: “Vida vento vela leva-me daqui”. Também é de Augusto o “mote” central de Apenas um rapaz latino-americano, canção construída em torno de uma frase que o filósofo brandia quase como um cartão de apresentação de si mesmo: “Eu sou apenas um rapaz latino-americano sem parentes militares”.

Mas, para além disso, Augusto foi pedra fundamental da cena musical, poética e dramatúrgica que surgiu na capital cearense a partir de finais dos anos 1960. Morto em 2009 aos 73 anos, Augusto Pontes é agora lembrado por 64 autores numa coletânea editada pelo Instituto Dragão do Mar, a Secretaria de Cultura do Ceará e pelo Governo do Estado do Ceará. Trata-se do volume Augusto Pontes – O Amigo Genial (285 páginas, organização de Ricardo Bezerra).

Além dos parceiros famosos da música, como Ednardo, Fausto Nilo, Rodger Rogério, Téti, Graco Braz Peixoto e Fagner, o volume traz uma lista assombrosa de contribuintes – filhas, admiradores, políticos, psicanalistas, ex-governadores, ativistas, entre outros. Entre todos os aspectos ressaltados no livro, é evidente que a língua ferina de Augusto Pontes dobra a esquina antes de tudo. Ela foi, certamente, um dos componentes-chave da longevidade de sua personalidade. O homem emparelhava em estatura com polemistas do calibre de H.L. Mencken. Duvida? Pois então tome:

“O Chico Buarque é aquele que é sobrinho do dicionário, filho da história do Brasil e pensa que é a música popular brasileira?”

“A diferença é que os cearenses eram 300 e viraram 3 e os baianos eram 3 e viraram 300” (fazendo uma comparação entre o Pessoal do Ceará e os tropicalistas)

“A política no Ceará é hoje uma faca de dois Gomes”
(referindo-se aos irmãos Ciro e Cid Gomes, que eram seus amigos e de quem era colaborador)

“Como disse o Oscar: vou pra não voltar. E completou Lúcio Costa: sim, fui eu que fiz, mas ficou uma bosta”
(sobre Brasília, cidade na qual viveu nos anos 1970)

Evidentemente, esse primeiro aspecto da personalidade de Augusto engole tudo, mas é impressionante a compreensão filosófica que ele tinha da arte e da política. Para falar sobre as estratégias da política cultural, do trabalho como secretário de Cultura do governo cearense, ele disse: “Vá ao teu povo, ame-o, aprenda com ele, sirva-o, comece com o que ele sabe, construa sobre o que ele tem”.

Suas leituras da realidade do País eram profundas e até mesmo proféticas: “O mal era menos ousado. Hoje o mal é muito ousado, é muito superior, está muito disposto. Os que fazem o mal são muito dispostos, mesmo os que o fazem mal, e principalmente esses, esse mal calmo, higiênico, sem alvoroço, esse mal que não sai no jornal como notícia ruim, mas como notícia boa”.

As letras de música de Augusto Pontes eram como faroletes cortando o futuro daquela geração de artesãos sonoros. “Vou-me embora daqui para o Rio de Janeiro/As coisas vêm de lá/Eu mesmo vou buscar/E vou voltar em videotapes/E revistas supercoloridas/Pra menina meio distraída/Repetir a minha voz”, canta Ednardo em Carneiro, dele e de Augusto Pontes.

Personagem que parecia estar sempre saindo de uma nuvem, que chama o garçom de Pouca Prática, que só come frutas em casa porque morre de medo do botijão de gás explodir: as mil facetas que surgem do livre pensador Augusto Pontes, homem de visões assimétricas, mostram a razão do porque persiste sua marca na cultura do Ceará.

Lendo o livro sobre Augusto Pontes, me ocorreu agora que o filósofo pode ter sido inspiração ainda para outra canção de Belchior: Dandy. Pontes costumava ironizar os comunistas dizendo “Como dizia Mao-Tsé/Agite, agite/Mas eu vou de jipe/E vocês vão a pé”. Em Dandy, Belchior canta: “Milionário socialista/De carrão chego mais rápido a revolução”. Pode ser exagero meu, mas o fato é que o bar era grande, mas a mesa era pequena (isso porque, como advertia o próprio homenageado do livro, quando a mesa é grande a cultura desaparece).

Caricatura de Augusto Pontes feita por Ednardo em 1978

Augusto Pontes – O amigo genial. Coletânea com 64 autores. Organização de Ricardo F. Bezerra. Lançamento no dia 14 de maio, às 21 horas, no Cantinho do Frango (Rua Torres Câmara, 71 – Aldeota, Fortaleza – Ceará)

 

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