Cena de
Cena de "Drive My Car", primeiro filme japonês que concorre na principal categoria do Oscar - Foto: Divulgação

Na divertida e pueril letra da canção Drive My Car, dos Beatles, a protagonista confidencia a um interlocutor que um dia será uma estrela e que ele pode dirigir seu carro, mas por enquanto ela só achou um motorista. No longa-metragem homônimo, de Ryusuke Hamaguchi, invertem-se os papéis, com um protagonista permitindo a uma jovem motorista que ela dirija seu estimado veículo. Pode parecer pouco, mas essa troca conduzirá o espectador a uma jornada de metáforas bem mais complexas e reveladoras de raros e sofisticados personagens.

Drive My Car, vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional (*), conta a história de Yusuke Kafuku (Hidetoshi Nishijima), um ator e diretor de teatro renomado que tem, como marca registrada, participar de produções cênicas multilingues, com legendas. A Academia de Cinema de Hollywood muitas vezes torceu o nariz para produções em língua não-inglesa justamente por causa das legendas. E a obra de Hamaguchi exige mais que legendas para os diversos idiomas falados. Após a morte da esposa Oto (Reika Kirishima), uma produtora de TV igualmente bem-sucedida, o protagonista decide aceitar participar da montagem de Tio Vânia, um dos clássicos de Tchecov, na cidade de Hiroshima. É lá que ele se vê obrigado a entregar seu Saab 900 à motorista Misaki (Toko Miura), uma jovem discreta e introspectiva, mas que guarda questões particulares e que elas virão à tona no momento certo.

Yusuke tem o hábito de treinar suas peças “dialogando” com as falas deixadas em fitas cassetes gravadas por Oto, enquanto ainda estava viva. Isso a torna uma presença constante na vida do protagonista, ainda que as recordações sejam dolorosas. Oto mantinha relações com outros homens, inclusive com Koji Tatatsuki (Masaki Okada), um jovem ator metido a galã que acaba sendo escalado para interpretar o protagonista na peça Tio Vânia. Embora haja a expectativa de uma vingança, Drive My Car vai lentamente destrinchando a narrativa e o faz entrecortando com trechos da peça de Tchecov. O texto do dramaturgo explora questões existenciais, que vão desde o desespero e o arrependimento pelas várias oportunidades perdidas na vida.

O filme japonês é uma expansão de um conto de Haruki Murakami também chamado Drive My Car. A forma criativa e sofisticada que Ryusuke Hamaguchi transpõe para o cinema a obra do celebrado escritor conterrâneo ganha um ritmo nada hollywoodiano. São 3 horas de filme, sendo que os letreiros só sobem depois de 40 minutos de projeção. Ao entrelaçar os momentos particulares de cada um dos personagens, todos eles interligados pela montagem da peça Tio Vânia, o diretor entrega histórias que, separadamente, são verdadeiros tratados sobre a existência humana. O que dizer da atriz Lee Yoon-a (interpretada pela atriz sul-coreana Park Yu-Rim) que mesmo sendo portadora de deficiência auditiva encontra o sentido da vida por poder participar de uma super produção teatral – se a montagem é multilingue, qual seria a dificuldade de contracenar com alguém cujas falas precisam ser projetadas em legendas?

A incomunicabilidade se torna, assim, uma peça-chave para compreender o passado de cada um dos personagens, envolvidos em sentimentos de luto, culpa, dúvida e incompreensão. Para este modesto resenhista, a mensagem que Drive My Car quer transmitir é que muitas vezes apenas temos a ilusão de conduzir nossas vidas, mas se nos conectarmos verdadeiramente uns com os outros talvez tenhamos êxito nessa tarefa.

(*) Texto atualizado em 28 de março.

Drive My Car. De Ryûsuke Hamaguchi. Japão, 2021, 180 mins. Nos cinemas.

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