Will Smith no momento em que desferiu um tapa no rosto do comediante Chris Rock, na noite de domingo, durante a 94ª premiação dos Oscars

Um homem negro sobe ao palco e enche a mão na cara de outro homem negro. O homem negro que bate o faz para proteger uma mulher negra que está enferma. O homem negro que apanha não revida, retoma seu papel e, com rara capacidade de autocontenção, conclui sua tarefa. Presumivelmente, do ponto de vista do lugar de fala, não há o que possamos acrescentar a esse fato na vida das nossas retinas tão fatigadas, então vamos discuti-lo mais à frente.

Ao trazer para o palco os atores de filmes que fizeram história há 15, 30 anos, por motivos diversos, como O Poderoso Chefão e Juno (e postar Lady Gaga como “cuidadora” orgulhosa da primeira grande madrinha do mundo queer do cinema, Liza Minelli), o Oscar 2022 mostrou o cerne de seu conceito, sua preocupação e, de forma inédita, sua verdadeira humanidade. O prêmio impôs à nossa progressiva falta de memória, seletividade afetiva e comportamental os fenômenos de transformação da vida real – como se quisesse lembrar que o ator é, antes de tudo, gente, com muitas falhas, sinais evidentes de perenidade, vontades e debilidades, e dessa forma afirmou aquela que talvez tenha sido uma das melhores premiações da história – sintomaticamente, após dois anos de um retiro forçado por causa da moléstia.

Ellen Page, adolescente civilizando o mundo dos adultos em Juno, agora é Elliott Page, e a velha ordem de Hollywood precisa conviver com essa mudança. Não se trata mais de “aceitação”, de uma abertura de exceção, ocasional, para os temas da afirmatividade. Eles já são nossos.

O Oscar 2022 expôs sem filtro as grandes falhas nos dentes da veterana Judi Dench, de 87 anos. Mostrou a transformação corporal de Al Pacino, 81 anos. Colocou um guia para cuidar do passo lento do veterano Anthony Hopkins, de 84 anos. Tudo isso representou vitórias, sendo a mais evidente delas o triunfo da verdadeira natureza humana sobre o cálculo frio das audiências, dos discursos de falsa correção, da premeditação. Curiosamente, houve um quadro que mostrou os grandes deslizes históricos da premiação, o mais grave deles a troca de um envelope que nomeava o melhor filme (era Moonlight, deram a Warren Beatty e Faye Dunaway o envelope com o nome La La Land, em 2017).

Entretanto, foi por um acaso lastimável, mas cruelmente oportuno, que a maior queda histórica dos Oscars se revelaria. Foi na cena de Will Smith metendo a mão na cara do comediante Chris Rock, episódio que veio a encaixar-se dolorosamente na decisão da academia de mostrar a engrenagem humana da fábrica de cinema. E, para completar o roteiro que ninguém jamais teria o talento de escrever, mais adiante Will Smith ainda ganharia o prêmio de Melhor Ator – o que lhe conferia uma segunda chance de fazer a coisa certa. Seu discurso, humanamente torto, não ia muito bem até que ele disse o seguinte:

“A arte imita a vida. Eu pareço o pai louco, justamente aquilo que diziam sobre Richard Williams. O amor faz a gente fazer coisas loucas”. O “pai louco” a que ele se referia era justamente o papel que lhe valeu o prêmio, o do pai das irmãs tenistas Serena e Venus Williams, que criou suas filhas para serem máquinas de competir. Para sacramentar suas palavras, as próprias irmãs Williams o acompanhavam no balcão do teatro, apreensivas, torcendo pelo seu heroi decaído, esperando que ele conseguisse encontrar as palavras certas para a redenção.

Basicamente, Will estava correto: o amor de fato pode impelir a fazer coisas loucas, mas isso não deve ser argumento protojudicial, porque se trata do argumento que está na base da maior parte dos feminicídios. A violência é a face oposta do amor. Não foi por acaso que, antes de ser anunciado o prêmio, o sábio Denzel Washington lhe disse: “O demônio aparece quando você está no topo”. Como lidar com esses dois demônios, a consagração e a desconstrução, ao mesmo tempo, numa mesma noite?

E quanto a nós, espectadores, como reagir diante daquilo? Mesmo as transmissões pela TV demoraram até 20 minutos para se certificarem de que tinha sido real. Afinal de contas, Hollywood produz essas encenações o tempo todo, poderia aparecer uma chave de compreensão daquele ato mais adiante, nenhum comentarista de Oscar queria pisar naquela casca de banana.

Para o júri popular que sempre representamos com voracidade nas redes sociais, houve condenação e absolvição sumárias em tempo real. Agora, antes de debatermos sobre se Will Smith merece perdão ou não, se foi legítima defesa ou não, é preciso ampliar o debate: e se Jada Pinkett-Smith tivesse subido ao palco e desferido ela mesma um tapão no Chris Rock? Não teria sido mais legítimo? Will agiu como o clássico macho alfa que se posta para vingar uma mulher frágil, mas Jada, malgrado o problema de saúde, não tem o biotipo de mulher que precisa de um homem para fazer um desagravo em seu nome. Por sinal, sua expressão de desprezo para com a piada infame de Chris Rock já tinha sido bastante eficiente.

O Oscar 2022, que celebrou a vitória da comunicabilidade com o filme No Ritmo do Coração (Coda, 2021), uma saga sobre e com deficientes auditivos; que deu o prêmio de melhor direção (pela segunda vez consecutiva) a uma mulher, Jane Campion, passando por cima de um dos seus midas das bilheterias, Steven Spielberg; que abrigou com naturalidade o statement da melhor atriz coadjuvante, Ariana DeBose, que se declarou orgulhosamente queer e afrolatina; esse Oscar 2022 se tornará memorável para todo o sempre por ter deixado cair por algumas horas a sua casca histórica de torre de controle e mostrado, por trás das coxias, o tanto de vulnerabilidade, decrepitude, decadência e falhas morais que existe em seu mundo, ao mesmo tempo em que também persiste tanta doçura, amorosidade, afeto, humanidade e compreensão no seu castelo de interpretações e memórias.

 

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