O pavilhão de Diébédo Francis Kéré no Serpentine Gallery Pavillion, em 2017: “Todo mundo merece qualidade, todo mundo merece luxo, e todo mundo merece conforto"

Vista de longe, parecia uma árvore de oásis de documentário.

Uma estrutura circular, na forma de um cone invertido, funcionava como a coluna cervical do pavilhão (de onde vinham e para onde convergiam os ligamentos da edificação). Esse cone central era o telhado, feito de aço com paredes perfuradas como uma escultura ilusionista de Sérvulo Esmeraldo, e era abraçado por (mas sem deixar que se tocassem) dois muros azul índigo feitos com madeira recolhida de refugos de demolição. Como na canção de Roberto Carlos, um muro era côncavo, o outro era uma onda convexa – um acolhia em um ambiente interno, o outro se postava democraticamente para o ambiente externo, como se fosse um alpendre automático.

Por sua vez, o telhado de cone invertido cumpria as mesmas funções da árvore que emulou da natureza – suas “folhas” funcionavam como um funil que colhia a água da chuva e a direcionava para um sistema de drenagem que, por sua vez, irrigava os jardins circundantes. De noite, a iluminação, projetada no “teto” do funil, expandia-se para fora, dourando jardins e clareando os passos de quem vinha pelo “quintal”.

Elegante ao mesmo tempo que funcional; escultural, ao mesmo tempo que despojada das disputas da forma; serena, ao mesmo tempo que reivindicativa. A obra que o arquiteto Diébédo Francis Kéré, de Burkina Faso, montou no Serpentine Gallery Pavillion, no Hyde Park, em Londres, como o convidado de 2017, causou um impacto tão formidável que o mundo da arquitetura já anteviu ali o que o aguardava. O Serpentine Gallery Pavillion é um tipo de Bienal de Arquitetura da Inglaterra, um evento que comissiona um arquiteto que ainda não tenha construído no Reino Unido por um semestre, para que mostre seu trabalho. O convidado constroi uma obra conceitual no Hyde Park, e seu pavilhão fica aberto ao público durante um verão, um tipo de teste de ocupação. Oscar Niemeyer, Toyo Ito, Zaha Haddid, Rem Koolhas, Alvaro Siza: todos eles passaram pelo Serpentine.

Ou seja: a vinda do Prêmio Pritzker para Francis Kéré era mais do que sabida já, e ele acabou ganhando o prêmio nesta terça-feira, 15 (pela primeira vez em 40 anos para um africano). É uma linda vitória porque representa muito mais do que um belo cartel de clientes para o resto da vida.

A vitória de Kéré, de 56 anos, nascido em Gando, Burkina Faso, no Oeste africano e educado na Alemanha, na Technical University de Berlim, é a consolidação da força de uma geração de artistas negros que põe em uma nova perspectiva a estética, a cultura, a política e a forma, incluindo em suas obras uma visão não linear do (re)legado africano (na qual passado, futuro e presente são indissociáveis, e feminino e masculino não estão em diques). É, como diz o próprio Kéré, a consistência do Afrofuturismo que se afirma na nova narrativa da história da arte.

Seus projetos contém as cores, a evocação da paisagem, o ensinamento da natureza, os signos místicos da vida em um continente originário, ao mesmo tempo que propõem soluções para as questões da privação social – a comunidade de Gando onde ele se criou não tinha escola, e ele projetou uma escola e uma biblioteca totalmente revolucionárias para cumprir com seu destino. Em suas visões, as construções têm o sentido da participação, da sustentabilidade, da superação da miséria, mas principalmente do enraizamento no lastro cultural. Os potes das ceramistas da aldeia são fundidos ao teto de concreto para garantir luz e ventilação.

“Espero poder mudar o paradigma, impelir as pessoas a sonhar e a enfrentar o risco. Não é porque você é rico que deve desperdiçar. Não é porque você é pobre que não possa criar qualidade”, disse Kéré. “Todo mundo merece qualidade, todo mundo merece luxo, e todo mundo merece conforto. Estamos todos conectados naquilo que concerne ao clima, à democracia, e a escassez diz respeito a todos nós”.

Já  o comunicado oficial do Prêmio Pritzker defendeu sua escolha da seguinte forma: “Através de edifícios que demonstram beleza, modéstia, ousadia e invenção, e pela integridade de sua arquitetura e gesto, Kéré defende graciosamente a missão deste Prêmio”.

O arquiteto veio ao Brasil em 2020 para participar do 27º Congresso Mundial de Arquitetos (RIO 2020 UIA). Em entrevista ao jornal O Globo, ele declarou: “Acredito que as construções do futuro serão muito mais livres em termos de orientação. Terão formas mais livres e mais inspiradoras porque, até hoje, os elementos africanos tinham sido negligenciados ou nem tinham sido considerados como arquitetônicos. Se o design africano começar a florescer no mundo do design, nós teremos muito mais diversão e escolhas. Ele é cheio de fantasia e inspiração. Eu acredito que o Afrofuturismo já está começando e nós precisamos olhar cada vez mais para a África. Tem muita coisa ainda que não foi explorada”.

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