Thomas Duplessie e Cloris Leachman em "No Ritmo da Vida"

No Ritmo da Vida, nome (bobo) dado no Brasil ao filme canadense Jump, Darling, dirigido pelo estreante Phill Conell, é um drama irônico e terno em que se confrontam os impulsos suicidas de Russell (Thomas Duplessie), um ator que trabalha como drag queen numa casa noturna, e sua avó Margaret, que reluta em ir para um asilo e é interpretada com grandeza por Cloris Leachman, morta pouco tempo depois das filmagens, em janeiro de 2021, aos 94 anos. Em crise por causa de um relacionamento amoroso e das implicações da dupla identidade ator/drag queen, Russell parte para a casa em que a avó vive no campo e leva consigo Fishy Falters, sua drag. Mãe de Russell e filha de Margaret, a pragmática Ene (Linda Kash) intermedia (quando não provoca) os conflitos decorrentes desse encontro.

Thomas Duplessie e Cloris Leachman em "No Ritmo da Vida"
Thomas Duplessie e Cloris Leachman em “No Ritmo da Vida”

Forma-se entre a personagem jovem e a idosa um jogo de espelhos que ressalta mais semelhanças e coincidências do que diferenças entre o moço que não sabe se vai ou se fica e a senhora que começa a querer ir embora. No subtexto, Connell afirma e avisa que há proximidade bem maior entre a juventude e a velhice do que o senso comum gosta de admitir. Divertida, Margaret chama as coisas de “nonsense” (novamente, a tradução não aproveita a deixa) e sem querer inspira Russell a libertar a persona Fishy Falters na minúscula vida noturna gay/queer da cidadezinha de interior. “Foda-se a vergonha”, exclama Russell/Fishy quando a identidade individual cresce em detrimento das veleidades profissionais.

J.P. Kane em cena de "No Ritmo da Vida" (2020), de Phil Connell

A drag queen veterana (e barbuda) Fairy Longschlong (J.P. Kane) surge a certa altura como resolutiva figura intermediária entre a avó que era patinadora na juventude e o(a) neto(a) paralisado entre buscar uma carreira (em Hollywood?”) como ator ou deixar fluir a hibridez drag (etc.). O encontro abre caminho para um desfecho desafiador e corajoso. Simples, barato e profundo, Jump, Darling é suficiente para demonstrar que as convenções hollywoodianas não dão conta de 1% da complexidade humana.

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No Ritmo da Vida. De Phill Connell. Canadá, 2020, 90 min. Apenas nos cinemas (São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Vitória, Porto Alegre e Florianópolis).

 

 

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