O empresário Luiz Oscar Niemeyer com os Rolling Stones, de quem produziu o gigantesco show gratuito em Copacabana, visto por 1,5 milhão de pessoas

1990 foi um ano muito louco. Se você quiser saber como Bob Dylan, naquele ano, passando de ônibus pela Serra de Itatiaia (parque nacional no Rio de Janeiro), pediu para descer e passou uns dias incógnito no alto daquela montanha; como todo o grupo Bon Jovi, entre um show e outro de sua turnê brasileira, em janeiro daquele ano, voou para Miami somente para ver a final do Super Bowl, assistir o San Francisco 49ers vencer o Denver Broncos, e voltou em seguida para tocar na noite seguinte; como Annie Lennox, a vocalista dos Eurythmics, hospedada no Hotel Hilton de São Paulo, foi surpreendida por uma bala de fuzil ricocheteando pelas paredes do seu apartamento; e como Paul McCartney, em abril daquele ano, após entrar para o Guinness com um show para 184 mil pessoas no Rio, foi fazer um passeio de surpresa de barco pela Baía de Guanabara, se desequilibrou e caiu no mar; bom, você precisa ler Memórias do Rock (Editora Francisco Alves), do empresário Luiz Oscar Niemeyer, que será lançado nesta quarta-feira, dia 9 de março, na Livraria da Travessa (Rua Visconde de Pirajá, 572, Rio de Janeiro).

Memórias do Rock só sai graças à pandemia, que fez a atividade de Luiz Oscar Niemeyer minguar nos últimos dois anos e empurrou o hoje poderoso tycoon do rock para as reflexões (com a ajuda do experiente jornalista Antônio Carlos Miguel) e o balanço existencial. Para quem chegou agora ao nome de Luiz Oscar, ele foi o responsável, por exemplo, pelo concerto dos Rolling Stones na Praia de Copacabana, no Rio, em 18 de fevereiro de 2006, que recebeu mais de 1,5 milhão de espectadores. Além de inúmeros outros eventos memoráveis, como o Hollywood Rock, festival que trouxe ao País Supertramp, Pretenders, Duran Duran, Simple Minds, Bob Dylan, Eurythmics, Tears for Fears, Bon Jovi, Living Colour, Skid Row, Extreme, Nirvana, Red Hot Chili Peppers, Simply Red, Alice in Chains, Aerosmith e Whitney Houston, Robert Plant e Jimmy Page.

Os bastidores aqui descritos foram pinçados dos desvãos da narrativa, mas o livro é muito mais um inventário de como se desenvolveu a atividade do showbiz no Brasil nos últimos 40 anos, seus percalços e golaços, e como os megashows chegaram ao País de forma avassaladora a partir da década de 1990. Como Niemeyer descreve, houve muito de sorte, jeitinho, improvisação e cara de pau para que essa cena chegasse consolidada ao século 21. Mas o roçar na intimidade dos artistas tempera tudo com um sabor picante e irresistível.

Por exemplo: na edição do Hollywood Rock de 1993, “o único problema sério foi controlar Kurt Cobain”, uma “pessoa realmente muito conturbada”. O empresário teve de deixar um médico de prontidão para tratar das crises do artista. “Certo dia, a mulher dele, Courtney Love, jogou todas as roupas de Kurt pela janela do hotel. Para fugir dela, ele atravessou de uma varanda para outra, indo para o quarto do lado. Isso no 20º andar do Hotel Intercontinental do Rio, podendo ali acontecer uma tragédia como a que, agora, em 2021, matou MC Kevin em um hotel na Barra da Tijuca”, escreve o autor. Cumpriu a José Roberto Verta, que trabalhava então no departamento internacional da BMG, a gravadora do Nirvana, levar caixas de Valium (um forte sedativo) para “acalmar a fera”.

Quando adolescente, Luiz Oscar Niemeyer, sobrinho de Oscar Niemeyer, filho do neurocirurgião Paulo Niemeyer (irmão de Oscar, médico de presidentes militares como Costa e Silva, Geisel e Figueiredo), amigo de Vinicius de Moraes, e cuja irmã mais velha, Lilia, era professora de canto de Nara Leão e Taiguara, era o herdeiro aparentemente mais sem vocação da família. “Não participei de movimento estudantil, nunca me engajei em campanhas políticas ou me filiei a partidos, mas sempre tivemos essa formação humanista”, ele assinala em seu relato.

Estagiário sem salário na Artplan, a empresa de publicidade de Abraham Medina, ele entrou em 1983, por acaso (e por ter uma queda natural pelo rock), na equipe que iria definir o primeiro megafestival de rock do País, o Rock in Rio de 1985. Foi levado a Nova York junto com o time que estava tentando um grande headliner para a primeira noite, e o Queen era o alvo. “À noite, Roberto Medina me incluiu na viagem para Nova York”, lembra. Ia com Maria Alice Medina e Oscar Ornstein, mas os três tinham passagens de primeira classe, e o estagiário iria de econômica. Mas usou o nome Niemeyer para dar uma carteirada e ganhar upgrade no voo, e também viajou de primeirona.

Daquela tropa, Oscar Ornstein era o mais experiente, tinha realizado shows pioneiros de Edith Piaf, Nat King Cole e Marlene Dietrich no Brasil. Naquela época, nem fax existia. Todas as contratações teriam de ser feitas pessoalmente, olho no olho com empresários de Los Angeles, Nova York e Londres. “Passamos 40 dias fora viajando entre essas cidades, visitando agentes e empresários, num corpo a corpo intenso. Durante aquela temporada, ao estrear nesse ramo, aprendi que festival é assim, depois que se assina com o primeiro grande nome, um monte de gente se interessa”.

Os primeiros contratempos, escreve Niemeyer, derivaram todos da própria incompreensão do mundo burocrático brasileiro com suas intenções, além de mudanças súbitas de regras – o Plano Collor quase abortou precocemente sua carreira. O local escolhido para o festival foi embargado pela prefeitura, e tiveram de recorrer a figuras exponenciais da política para conseguir liberar. Tancredo Neves intercedeu para suspender o embargo nas obras do Rock in Rio.

“Nesses momentos, a política brasileira, ou carioca, para ser mais específico, mais atrapalha do que ajuda a indústria do entretenimento. Infelizmente, parte do poder público no Rio de Janeiro trata os festivais como adversários. Todo mundo fala tanto que essa é uma cidade com natural vocação turística, mas enfrentamos batalhas sem sentido”, argumenta o empresário.

Há também o amadorismo dos próprios patrocinadores nacionais, o que levou a um incidente famoso, a venda de ingressos para o show da banda irlandesa U2. O grupo Pão de Açúcar inventou, por conta própria, um negócio chamado Pão de Açúcar Emotion, a venda de um kit que incluía camiseta, CD e transfer para o estádio. “O Pão de Açúcar iria virar um atravessador, recuperando o que tinha posto no patrocínio e ainda ganhando um dinheiro por fora”. Quando o U2 soube daquilo, entretanto, o caldo desandou: furiosa, a banda exigiu a extinção total daquela iniciativa.

O papel da mídia, geralmente um elemento da vontade do magnata Roberto Marinho, que abraçou as iniciativas dos empresários pioneiros do ramo, é revelado com minúcias. O que o empreendedor vê nem sempre coincide com a opinião da imprensa especializada, como no primeiro Rock in Rio. “Parte da imprensa reclamava da presença de determinados artistas, ou a inclusão de estranhos no ninho do rock, como Ivan Lins e Al Jarreau — estes, por sinal, estavam justamente na noite que acabou sendo a de maior sucesso de público”.

Há relatos de shows que tiveram um caráter excepcional, fora da rota natural dos negócios e do business, como o concerto da Anistia Internacional, em 1988. Bruce Springsteen, em sua primeira aparição no País, entrou no palco às duas horas da manhã e ao acabar o show restavam uns 300 fãs no local, descreve o empresário. Muitos bastidores revelam idiossincrasias das estrelas. Por exemplo: a história de como o empresário de Paul McCartney vetou o nome da primeira turnê no Rio de Janeiro, em 1990 (já havia até um cartaz com o nome, The Beatle in Rio). Mudaram para Paul in Rio porque “Paul não podia nem ver aquilo”, argumentou o manager.

Mas o sequestro da poupança e a definição de um limite de saques em dinheiro pela equipe econômica no Brasil foram novidades mais nocivas para a primeira turnê de Paul, que só se realizou porque ele reduziu em 250 mil dólares o próprio cachê.

Outra história assombrosa é a da primeira turnê de Eric Clapton por 8 cidades brasileiras, que aconteceu uma semana após o acidente que matou o guitarrista Stevie Ray Vaughan. O músico tinha feito o show de abertura para Clapton em Wisconsin, em uma noitada que acabou com uma jam session dos dois e ainda Robert Cray e Buddy Guy. “Mas, tragicamente, o helicóptero no qual Vaughan embarcou em seguida, rumo a Chicago, bateu num telhado e ninguém sobreviveu”.

O acontecido levantou a possibilidade do cancelamento do show de Eric Clapton, mas ele confirmou. Acontece, porém que o guitarrista britânico estava saindo de um rehab e em momento de equilíbrio delicado. Driblando a vigilância, em Brasília, alguns fãs foram ao quarto de Clapton oferecer-lhe cocaína. “Foi um estresse, clima horrível, o empresário ficou furioso”, conta o livro. No frigir dos ovos, a narrativa de Niemeyer é importante para, acoplada a outras de outros pontos de vista, ajudar a construir um painel realista de como o Brasil entrou na rota dos shows internacionais.

 

Memórias do Rock. De Luiz Oscar Niemeyer. 202 páginas, 65 reais. Editora Francisco Alves

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