Gloria Groove no clipe

Há um quadrado temático que parece inescapável para artistas que almejem o sucesso de massa na música pop: é preciso estar o tempo todo cantando sobre amor, sexo, dinheiro e/ou inveja. Gloria Groove, codinome drag do performer paulistano Daniel Garcia, de 27 anos, segue o script com dedicação em seu segundo álbum, emblematicamente denominado Lady Leste, em referência ao lado (marginalizado) da cidade de São Paulo onde nasceram ambos, Daniel e Gloria.

Em Lady Leste o amor e o sexo dominam, ora separados, ora misturados. Quase sempre Gloria se alterna (e/ou se confunde, como no caso de “Jogo Perigoso”) entre o romantismo de “Tua Indecisão”, “Apenas um Neném” e “Sobrevivi” e a sacanagem de “SFM” (sigla para “sexta-feira maluca”), “Vermelho“, “Fogo no Barraco” e “LSD” (sigla ambivalente para “luxo, sexo e drama”). Ora romanticamente, ora sexualmente, a persona drag queen é cortejada por três parceiros masculinos: o funkeiro paulista MC Hariel em “SFM”, o funkeiro carioca MC Tchelinho (do Heavy Baile) em “Fogo no Barraco” e Bruno Cardoso (à frente do grupo de pagode carioca Sorriso Maroto) em “Tua Indecisão”. A adesão dos vocalistas masculinos é mais um sinal positivo das quebras de preconceitos a pleno vapor em tempos não-binários, e o sexo pega fogo em “Fogo no Barraco“, quando Tchelinho pede “ai, que delícia/ morde minha boca/ chupa minha língua/ ai, que coisa louca/ chupa minha língua/ beija minha boca”.

As mesmas canções ilustram a peregrinação de Gloria por diversos estilos musicais: pop-rock em “SFM”, dance pop em “Vermelho”, dance-rap-trap em “Fogo no Barraco”, balada soul em “LSD”, balada bregapop em “Apenas um Neném”, pagodão romântico em “Tua Indecisão” (a mãe de Daniel/Gloria é backing vocal do grupo Raça Negra), gospel rock-romântico em “Sobrevivi”. “SFM” brinca com as várias possibilidades sexuais oferecidas pela persona fluida propagada por Gloria/Daniel: “Esse moleque te faz passar mal/ ele te deixa perdida/ tapa na bunda sarrando no grau/ e chamaram de bandida/ meu nome te conto só no final/ então me chama de zica/ juro, essa pica te faz refletir/ sobre as coisas da vida”.

Os papéis se invertem em “Pisando Fofo”, dirigida a um macho-objeto passivo: “Piso nesse macho, ele é chato, mas é gostoso/ hoje é só botadão, eu vou te levar pro cafofo/ tu sai de perna bamba e volta pra tomar de novo/ é que meu estilo é caro, sedutor e perigoso”. Nessa, o encontro é feminino, com as rappers gêmeas paulistas Tasha & Tracie, e duas outras faixas, essencialmente românticas, são duetos com mulheres. Em “Apenas um Neném“, a estrela pop ascendente mineira Marina Sena diz para e ouve de Gloria, não sem alguma malícia, que “não fala assim comigo, eu sou apenas um neném/ que chora se você não dá carinho/ meu colinho é seu também, neném”. Ao final, em “Sobrevivi”, o cortejo recíproco é com a cantora e compositora gospel-pop paulista Priscilla Alcantara, e Gloria canta sua parte no masculino: “Eu tô cansado de esperar, me encontra naquele lugar/ eu juro que não vai faltar nada pra nós dois”.

Tão complementares quanto o binômio amor-sexo, a dupla dinheiro & inveja complementa a fórmula numa parte minoritária de Lady Leste, o dinheiro na clave da ostentação, a inveja no registro da reclamação. Lançado em novembro num videoclipe cigano-circense-não-binário, o pop-rap estridente “Leilão” é campeão na ostentação: “Aqui na minha mão tem o melhor produto/ sou a Lady Leste, sobrenome é lucro/ tu sabe, minhas rimas são artigos de luxo/ faturando mais de 100k por minuto, ela é foda/ adianta ficar puto?”. E “Pisando Fofo”, de duplos sentidos canábicos, trata da tal inveja, notadamente a inveja que os outros sentem pela facilidade verbalizada várias vezes pela ídola em conseguir dinheiro, sexo e (nem tanto) amor: “Investi um din/ no meu kit novo/ diamante em mim/ porque faço ouro/ bolando um finin/ tô queimando outro/ e na tua inveja eu tô pisando fofo”.

A ostentação-que-gera-lamentação, bem aprendida de figuras como Michael JacksonBritney Spears Amy Winehouse, tende à complexidade na também circense “A Queda”, inspirada nas agruras de Karol Conka no Big Brother Brasil, mas evidentemente temerosa de que os mesmos fãs que idolatram Gloria Groove se transformem nos haters invejosos que corroem tudo que existe via internet: “E venham ver/ os deslizes que eu vou cometer/ e venham ver/ os amigos que eu vou perder/ não tô cobrando entrada/ vem ver o show na faixa/ hoje tem open bar pra ver minha desgraça”.

A auto-ironia enriquece “A Queda” (“extra, extra!/ não fique de fora dessa/ garanta seu ingresso pra me ver fazendo merda/ extra, extra!/ logo, logo o show começa/ melhor do que a subida só mesmo assistir à queda”), à mesma medida que a insistência no sintoma em vez do problema a empobrece (“daqui do alto não tô te escutando/ cê vai falando, eu vou faturando”). A estratégia é esperta (e justa) e pode funcionar como vacina contra eventuais críticas, mas Gloria Groove parece aqui querer convocar sentimentos de compaixão à turba confusa-e-misturada de adoradores, odiadores e outros seres infelizes sedentos por receber amor, sexo, dinheiro e… inveja. O diabo é que os quatro elementos evoluem juntos, indissociáveis uns dos outros.

Não à toa, a súplica bem-sucedida de “A Queda” antecedeu Lady Leste como segundo clipe, lançado em outubro. Tampouco é à toa que o álbum soe mais interessante e menos banal quando escapa pela tangente das fórmulas totalizadoras, as que garantem que o clipe de “A Queda” já tenha sido visto 100 milhões de vezes no YouTube. Isso acontece em poucos momentos, como na também complexa “LSD“, que sai em busca de conexões entre as quatro pontas da fórmula (“planta, fama, grana, tudo vira vício”) e encontra, talvez, a intoxicação por transfobia e homofobia: “Disseram desde o início/ que o amor é ilícito/ me proibiram disso/ mas te amei com overdose e vício”.

Acontece também em “Greta“, que, voluntariamente ou não, evoca o personagem gay idoso solitário de Marco Nanini no filme de mesmo nome e projeta uma imagem mais interessante para a persona Gloria Greta Groove, que é faixa-preta e impõe respeito sobre o bonde todo: “Não mexa com a Greta que a Greta gosta de treta/ o meu lado mais sombrio resolveu se libertar/ eu nem sempre fui assim, só cansei de me calar/ hoje eu sou um anti-herói, miro pra te derrubar/ isso não é Tarantino, mas o sangue vai jorrar/ você não quer confusão com a vilã do lado leste/ já tentei ser a mocinha, mas eu não passei no teste”. Ali se esconde o tema racial, quase nunca exposto, se pensarmos no Quentin Tarantino de Django Livre.

E a mágica acontece, enfim, no momento inicial de Lady Leste, o primeiro videoclipe, apresentado em junho de 2021 e até hoje assistido “apenas” 54 milhões de vezes no YouTube. Aqui, a autora-narradora personifica em terceira pessoa uma “Bonekinha” de filme de terror,  que “não sabe brincar”, vive “fora da caixa” (ou das caixas), pertence ao lado leste e sabe que foi golpe, e pela qual “os maloca vai se apaixonar”: “Ela não brinca/ ela pirraça/ ela é zica/ ela esculacha”. Mais Lady Gaga que Britney Spears, essa persona aparece menos em Lady Leste do que prometia a “Bonekinha”. Os resultados seriam imprevisíveis se ela saísse mesmo de dentro da(s) caixa(s).

"Lady Leste" (2022), de Gloria Groove

Lady LesteDe Gloria Groove. SB Music.

 

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