Cena de
"A Jornalista", série da Netflix, explora os efeitos da corrupção na sociedade - Foto: Divulgação

A Jornalista, nova série da Netflix, faz as vezes de um novelão que tem como pano de fundo um thriller político. O drama se passa no Japão, mas poderia ser no Brasil, nos Estados Unidos, na Inglaterra, na França ou em qualquer país que já experimentou episódios recentes de corrupção. E para combater esse “mal do século”, como a imprensa adora vender por aí, nada melhor que uma destemida jornalista que se define como alguém que quer “dar voz a quem não tem voz”.

Dito assim, a série parece bem dispensável. Para que perder tempo com a corrupção japonesa se a realidade em nossa volta é tão mais chocante (e assassina) que a deles? Por que assistir a uma produção cuja temática  do jornalismo-salvador-da-pátria já foi repisada por outros filmes do gênero, como Todos os Homens do Presidente (1976), Spotlight – Segredos Revelados (2015) e The Post – A Guerra Secreta (2017)? Qual o sentido de saber que um tal “sistema” (O governo? Governantes? A burocracia?) corrupto impede que os malfeitos sejam, de fato, combatidos e extirpados? A Jornalista tem a resposta para tudo isso.

Anna Matsuda (Ryoko Yonekura) é a veterana repórter do jornal Touto que representa o lado bom da história. Ela está sozinha, mas é perseverante e contará muito com a sorte para encontrar as pessoas certas pelo caminho. Na narrativa, fica claro que um terreno foi vendido a preço de banana em um acordo envolvendo o primeiro-ministro e a primeira-dama. Personagens secundários na trama, mas de alto escalão, permitem que os reais corruptos se tornem invisíveis. É eles que vão operar o jogo sujo de uma falsificação de documentos feita para forjar uma realidade falsa para a opinião pública – a de que o governo não está envolvido. E é a partir daí que a série A Jornalista ganha pontos.

Um funcionário honesto, Kazuya Suzuki (Hidetaka Yoshioka), se vê obrigado a destruir as provas da verdade e isso, em qualquer lugar do mundo, mas particularmente no Japão, representa um peso muito maior do que qualquer um poderia carregar. Não demorará para Anna Matsuda encontrar esse funcionário e outros tantos que a ajudarão a compor o quebra-cabeça de um sistema corrupto. Mas A Jornalista não se limita a debulhar a máquina capitalista como a única geradora dos problemas derivados da corrupção. Essa mensagem está presente, mas a série quer cutucar a ferida em partes que raramente a sociedade se dá conta.

Nisso, entra a imprensa, que também é culpada por explorar a notícia, mas não necessariamente deixar claro os interesses por detrás de sua veiculação. Há momentos divã para os jornalistas, que nunca param para pensar que eles também são responsáveis por perpetuar o estado de apatia da população. Valorizar pseudo-justiceiros, por exemplo, é algo que se vê na série e no Brasil bolsonarista. Ou promotores que aceitam jogar sujo em nome de uma causa correta, mas no fundo estão a serviço do “sistema”. Até mesmo donos de jornais e revistas aceitam se subordinar a essas relações escusas, ora por estarem sendo chantageados, ora por fazerem parte da patota. O controle da opinião pública não é para amadores, ensina a série.

E, como último motivo de convencimento, A Jornalista mostra como pessoas boas e comuns acabam se tornando vítimas de políticos e empresas corruptas sem que elas jamais desconfiem disso. O personagem Ryo Kinoshita (Ryûsei Yokohama), universitário e ex-entregador de jornais, demora a entrar na história, mas é ele que será o elo de união entre essas duas pontas da história, a de um poder visivelmente corrupto e a de pessoas que não têm voz e continuarão sem voz, apesar do ímpeto de jornalistas como a heroína da série.

A Jornalista. Série na Netflix. Japão, 2022, 6 episódios.

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